30 de mai. de 2009

LUIZ GONZAGA, O REI DO BAIÃO


O Rei do Baião, Sanfoneiro do Povo de Deus e Embaixador Sonoro do Sertão, conhecido também como Velho Lua e Véio Macho, o nosso saudoso Gonzagão, nasceu em 13 de dezembro de 1912 na fazenda Caiçara, no sopé da Serra de Araripe, a três léguas da cidadezinha de Exu, no sertão de Pernambuco. Filho de Januário José dos Santos e Ana Batista de Jesus, foi batizado Luiz Gonzaga do Nascimento, talvez em homenagem ao santo jesuíta católico, de origem italiana, Luiz Gonzaga, considerado “padroeiro da juventude” (1568-1591).
O pai de Gonzagão, Sr. Januário - "Luiz, respeita Januário..."
Luiz cresceu vendo o pai Januário trabalhar na roça num latifúndio e tocar seu acordeão de oito baixos nas horas de lazer. Seu Januário além de tocar, sabia consertar o instrumento e foi com ele que Gonzagão aprendeu a tocar a sanfona (ou acordeon) que o fez famoso no Brasil e no Mundo. O início do aprendizado se deu em feiras e festas religiosas onde Luiz Gonzaga assistia apresentações de músicos nordestinos diversos aprendendo a ter gosto pela música típica e posteriormente acompanhando “seu” Januário que também se apresentava nestas ocasiões. Na sua infância certamente foi influenciado também pelas lendas em torno seu conterrâneo, Virgolino Ferreira Da Silva, o Lampião (1900-1918) nascido em Vila bela (hoje Serra Talhada), também no sertão de Pernambuco. Podemos constatar isso mas vestimentas de apresentação de Gonzagão, que lembram os trajes dos vaqueiros do sertão nordestino e sobretudo dos cangaceiros com suas vestimentas típicas. Aliás, Gonzagão foi o primeiro músico do nordeste a defender nacionalmente o modo de ser do nordestino através das vestes e do canto, caracterizados principalmente pela sanfona e o chapéu de couro. Em 1930, quando tinha 18 anos, Luiz se apaixonou por uma moça da região chamada Nazarena (ou Nazinha), mas o pai dela, o coronel Raimundo Deolindo correu com ele e ameaçou-o de morte. E se já não bastasse a humilhação, “Lua” levou um corretivo de Dona Ana e do “Seu” Januário. Revoltado, Luiz abandona sua casa e se alista no exército em Crato no Ceará.
A casa de Januário
Foram nove anos como soldado viajando por vários estados brasileiros, o que foi decisivo para o seu futuro. Ao servir como soldado em Juiz de Fora, em Minas Gerais, conheceu Domingos Ambrósio, que também era soldado e famoso pela sua habilidade como acordeonista. Luiz não pensou duas vezes para aprender um pouco mais com Domingos e aprimorar sua técnica no instrumento. Em 1939, deu baixa do Exército no Rio de Janeiro, então capital do Brasil e voltou-se para a carreira musical. No começo se apresentava nos bordéis na zona do meretrício, sendo que atuava apenas como solista de acordeão tocando vários gêneros como choro, samba, fox e outros populares da época. Em 1941 gravou dois LPs instrumentais em 78 rpm dos quais se destacaram as músicas “Véspera de São João” (com Francisco Reis), “Numa Serenata” (Luiz Gonzaga), “Saudades de São João Del Rei” (Simão Jandi), “Vira e Mexe” (L. Gonzaga e Miguel Lima) para RCA Victor.  
O jovem Luiz Gonzaga
Neste mesmo ano participou do Concurso de Calouros no programa de rádio de Ary Barroso onde solou a música “Vira e Mexe” ganhando o primeiro prêmio. A conquista lhe abriu caminho para sua contratação pela emisssora da Rádio Nacional. Em seguida veio “Mula Preta”, o grande sucesso de 1943 e em 11 de abril de 1945, em parceira com Miguel Lima, grava a mazurca “Dança Mariquinha”, sendo finalmente sua primeira gravação como cantor. Ainda em 1945 outro sucesso, “Dezessete e Setecentos” (dele e Miguel Lima). Dividiu composições também com Zé Dantas e com o advogado cearense Humberto Teixeira, seu principal parceiro de composições de sucesso baseados nos ritmos do xaxado e baião. Da parceria surgiu “Baião” em 1946, o clássico “Asa Branca” em 1947, “Juazeiro” em 1948 e “Baião de Dois” em 1950. O sucesso dessas composições aumentou a popularidade do baião por todo o país e mesmo afastado do sertão pernambucano, Gonzagão manteve-se fiel à suas origens e à cultura nordestina. Luiz Gonzaga teve um caso com uma cantora de coro chamada Odaléia Guedes, que provavelmente já estava grávida quando começaram a se relacionar e, em 1945 nasceu um menino que Gonzagão adotou como seu filho legítimo e lhe deu o nome de Luís Gonzaga de Nascimento Júnior, conhecido posteriormente no meio artístico como Gonzaguinha. Mas ele na verdade foi criado pelos seus padrinhos, com a assistência financeira do Velho Lua. Gonzaguinha, consagrado compositor e intérprete de MPB morreria em 1991 num acidente automobilístico.
Luiz, rapaz, sem a caracterização de cangaceiro
Voltando à saga de Gonzagão, em 1948 ele se casa com a pernambucana Helena Cavalcanti, professora que tinha se tornado sua secretária particular. O casal viveu junto até perto do fim da vida de "Lua", mas não puderam ter filhos, já que Luiz era estéril. A partir de 1954, Luiz Gonzaga se exibe basicamente pelo interior do país. Nos anos 70 reaparece nacionalmente e na década seguinte grava discos e regrava vários de seus inúmeros sucessos. Luiz Gonzaga foi um dos raros artistas no mundo a receber o “cachorrinho de RCA”, prêmio entregue anteriormente a poucas celebridades como Elvis Presley. O reconhecimento de sua obra no Brasil veio apenas em 1984 quando o Velho Lua foi homenageado na noite da entrega do Prêmio Shell para os melhores da MPB. Um prêmio tardio, mas merecido para quem tinha quase 5 décadas de carreira e dois Discos de Ouro recebidos em 1981 numa homenagem em show promovido pelo Cebrade. Em 1985 Gonzagão recebe o “Nipper de Ouro”, prêmio pelo conjunto de sua obra.
Luiz Gonzaga, já consagrado
Ainda em 1985, se apresenta em Paris, França. Em outubro de 1988 um grande espetáculo na casa de shows Spazio em Campina Grande, marcou os cinquenta anos de carreira artística do cantor e compositor Luiz Gonzaga, onde muitos artistas de maioria nordestinos participaram desta outra homenagem ao Rei do Baião, entre os quais Fagner, Elba Ramalho, Nando Cordel, Valdomiro Moraes, Domiguinhos, Oswaldinho do Acordeon, Manassés, e o filho adotivo do homenageado, Gonzaguinha. Já muito debilitado e de muletas, o velho Gonzagão assistiu o show e cantou alguns dos seus maiores sucessos sentado. No dia 6 de junho de 1989 um show realizado no palco do Teatro Guararapes, em Recife, com a participação de vários de seus seguidores fiéis como Alceu Valença, Gonzaguinha, Dominguinhos e Pinto do Acordeon, encerraria a carreira do imortal “Lua”. O “cabra-da-peste” que já sofria de osteoporose, morreu vítima de parada cárdio-respiratória no Hospital Santa Joana, no Recife em 2 de agosto de 1989 aos 76 anos. Seu corpo foi velado em Juazeiro do Norte e em seguida sepultado em Exu, sua cidade natal. Infelizmente já não se fazem “cabras-macho” e “fei pá peste” como antigamente...  

Luiz Gonzaga e seu filho Gonzaguinha (morto em 1991)
“ O Artista Luiz Gonzaga nunca se separou do homem sertanejo e jamais esqueceu suas raízes e cantou sua saudade e todo amor que tinha pelo sertão e seu povo. Tanto que sua obra é um verdadeiro acervo cultural do Nordeste, onde se encontra o perfil completo da Região com todos os seus personagens e os seus detalhes” – Câmara Cascudo (Folclorista).
Luiz Gonzaga e seu discípulo Dominguinhos
“ Gonzagão, de saudosa memória, sustentou a peteca durante mais de meio século, sem jamais deixá-la cair no chão. Foi, é, e será inatingível. Muita gente o imita, ninguém o iguala. Era mesmo insubstituível. Ele era realmente “O Homem da Terra”, “ O Asa Branca da Paz” – Nelson Barbalha.

Ô véio macho
 “Foi o ´Véio Macho` o primeiro a ter compromisso pelo Nordeste. De raízes autenticamente nordestinas, sua música foi um grito de protesto e ao mesmo tempo de amor pela nossa região. Ninguém, antes dele, falou com maior propriedade e insistentemente pela valorização do homem nordestino. Falou com o coração e com a música – as duas faces de sua sensibilidade de predestinado”. – Veríssimo de Melo.

- Alguns sucessos de Luiz Gonzaga:
Luiz Gonzaga e o eterno parceiro Humberto Teixeira
Baião - Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (1946)
No meu pé de serra - Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (1947)
Asa-branca - Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (1947)Moda da mula preta - Raul Torres (1948)
Juazeiro - Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (1948)
Firim, firim, firim - Alcebíades Nogueira e Luiz Gonzaga (1948)
Lorota boa - Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (1949)
Cintura fina - Luiz Gonzaga e Zé Dantas (1950)
Assum-preto - Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (1950)
No Ceará não tem disso, não - Guio de Morais (1950)
Baião de dois - Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (1950)
Respeita Januário - Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (1950)
Boiadeiro -
Armando Cavalcanti e Klécius Caldas (1950)
Acauã - Zé Dantas (1952)
Pau-de-arara - Guio de Morais e Luiz Gonzaga (1952)
O xote das meninas - Luiz Gonzaga e Zé Dantas (1953)
Moreninha tentação - Sylvio Moacyr de Araújo e Luiz Gonzaga (1953)
Á-bê-cê do sertão - Luiz Gonzaga e Zé Dantas (1953)
Feira de gado - Luiz Gonzaga e Zé Dantas (
1954)
Riacho do Navio - Luiz Gonzaga e Zé Dantas (1955)
Adeus, Iracema - Zé Dantas (
1962)
Forró de Zé Antão - Zé Dantas (1962)
Ô véio macho -
Rosil Cavalcanti (1962)
Sanfoneiro - Zé Tatu, Onildo Almeida (1962)
A morte do vaqueiro - Luiz Gonzaga e Nelson Barbalho (
1963)
Ave-maria sertaneja - Júlio Ricardo e O. de Oliveira (1964)
Sanfona do povo - Luiz Gonzaga e Luís Guimarães (1964)
O maior tocador - Luiz Guimarães (1965)
Xote dos cabeludos - José Clementino e Luiz Gonzaga (1967)
O fole roncou - Luiz Gonzaga e Nelson Valença (1973)
Obrigado, João Paulo - Luiz Gonzaga e Padre Gothardo (1981)


Luiz Gonzaga e o compositor Zé Dantas
Dicas de CDs de Luiz Gonzaga: 

- Luiz Gonzaga 50 Anos de Chão 1941-1987 (Box c/3cds)
- Luiz Gonzaga canta seus Sucessos com Zé Dantas (1959)
- Quadrilhas e Marchinhas Juninas (1965)
- Canaã (1968)
- Meus Sucessos com Humberto Teixeira (1968)
- Quadrilhas e Marchinhas Juninas Vol. 2 – Vire que tem Forró (1979)
- Forró de Cabo a Rabo (1986)
- Volta prá curtir: Ao Vivo (2001)


Últimas de Gonzagão: Foi realizado em 2012 pela Globo Filmes, um longa em homenagem ao eterno "rei do baião", intitulado Gonzaga - De Pai para Filho. O filme trata principalmente da carreira de Luiz Gonzaga em paralelo ao relacionamento conflituoso que tinha com seu filho adotivo, Gonzaguinha, que se sentia abandonado pelo pai.

Uma bela homenagem ao pai e filho
 Por Eumário J. Teixeira.

2 de mai. de 2009

PETER GREEN X ERIC CLAPTON - Quem seria o melhor?

Na segunda metade dos anos de 1960, Londres se habituou com pichações de frases tais como “Clapton is god” por toda a cidade. Traduzindo o que queriam dizer, seria simplesmente que Eric Clapton era “deus tocando guitarra”. Clapton que na época tinha um ego descomunal, adorava tudo aquilo e não fazia a menor questão de repudiar tal blasfêmia. Mas pouco tempo depois da precoce consagração de Clapton, surgiu no cenário do rhythm & blues britânico outro jovem guitarrista que era até um fã de “deus”, digo Eric Clapton; pois pouco tempo depois da manifestação do primeiro, poderia se ouvir e ler coisas do tipo “God is Green”, ou seja, “deus é verde”, entenda-se “Peter Green que é deus”; uma clara resposta à manifestação pró Clapton. Mas Peter ao contrário do “poderoso rival” não tinha o ego inflado, era conhecido pela sua simplicidade e humildade notórias e seu foco principal era fazer música e tocar blues da melhor forma possível. Nas bandas de participou, Clapton se impunha naturalmente como grande guitarrista que foi e é, sendo praticamente o frontman dos grupos em que tocou apesar de que no início de sua carreira não se arriscava nos vocais por insegurança e consciência de sua total incapacidade para tal. Mas ele sempre era o centro das atenções mesmo se ficasse mais recuado nos palcos. Até hoje ele se impõe sem fazer força, quando sobe ao palco mesmo rodeado de superstars, é ele que recebe a maior e mais calorosa aclamação do público. Peter Green, ao contrário, preferia dividir a atenção do público com os companheiros de banda. Apesar de, como Clapton, ter talento e carisma suficientes, além de ter sido um excelente guitarrista e vocalista, ele não ambicionava a adoração dos fãs. No Fleetwood Mac, por exemplo, Green era democrático o bastante para deixar seus outros dois guitarristas, Jeremy Spencer e Danny Kirwan, fazerem seus próprios números, com ele discretamente na base. Ao contrário de Clapton no início, Peter não se exibia, apenas atuava. O amadurecimento de Clapton em relação à música e ao seu modo de atuar veio como tempo. Devido ao seu gênio inconstante, frustou-se em muitos projetos musicais devido à sua insegurança em relação ao que perseguia profissionalmente. Essa indefinição musical não permitia que ele permanecesse por muito tempo numa banda. Assim foi no Yardbirds, Bluesbrakers de John Mayall, Cream, Blind Faith e Derek And The Dominos. Quando descobriu o “caminho da simplicidade” para tocar, cantar e até compor, aquietou-se numa carreira solo de altos e baixos, tentando se desvincular de sua imagem de semi-deus construída no passado. Peter Green, ao que me parece, já chegou com uma proposta que Eric Clapton penou para alcançar. Apesar de um pouco mais jovem, Green se mostrava mais seguro e já sabia o que queria, e provou isso ao substituir o próprio Clapton no John Mayall´s Bluesbreakers. Mais tarde quando deixou Mayall e fundou o Fleetwood Mac, ele já tinha a fórmula mágica para o som de sua banda. E obteve sucesso por muitos anos, pois se integrava com muito feeling ao que fazia. Peter era dono de uma sensibilidade incrível para compor, e transmitia todo o seu sentimento nos seus vocais e lamentos de sua Les Paul. O problema é que ele não soube aliar toda a sua paixão e dedicação pela música a toda aquela grana que ganhava e a sua crescente popularidade. Sentindo-se muito pressionado e finalmente perdido, acabou por sofrer um esgotamento nervoso, abandonando o Fleetwood Mac.

Eric Clapton nasceu em 30 de março de 1945 em Ripley, cidadezinha próxima a Londres, filho de mãe solteira e de pai desconhecido, foi abandonado pela mãe aos dois anos de idade para ser criado pela avó materna. A ausência da figura paterna lhe deixou um enorme vazio e uma crise de identidade que o atormentou por muitos anos, recentemente (em 1998) após muita procura, ele descobriu que seu pai possivelmente se tratasse de um soldado canadense servindo na Inglaterra durante a 2ª Guerra Mundial. Clapton em sua juventude freqüentou uma escola formal de música, mas a partir dos 16 anos descobriu o blues na boemia de Londres. A partir daí não quis saber de outra coisa, se reunia com conhecidos nos fins de semana para trocarem idéias e escutarem os discos de blues recém importados da América. Sua relação com a música negra norte-americana se fez mais forte ao se identificar com a vida de seus ídolos, como o misterioso Robert Johnson que como ele, nunca conheceu o pai e era seu modelo de cantor e guitarrista de blues e Muddy Waters, a quem almejou como o pai que nunca teve. Nas bandas pelas quais passou como The Roosters, Yardbirds, se manteve apenas na guitarra, a partir de John Mayall´s Bluesbreakers se aventurou vez ou outra nos vocais, assim foi no Cream e Blind Faith. Nas suas participações na banda de Delaney & Bonnie de forma mais discreta, obteve total apoio de Delaney Bramlett para iniciar uma carreira solo com mais segurança. Em seguida com a formação de Derek & The Dominos, Clapton mergulhou a fundo no seu amor platônico e não correspondido por Pattie Boyd, na época esposa de George Harrison, dos Beatles. A paixão já era alimentada por muitos anos e para piorar, ele tinha um grande afeto por Harrison. A situação o fez refugiar-se mais e mais no álcool e nas drogas, dos quais se livrou com um tratamento no início dos anos 70 e culminou com seu retorno triunfal em 1973 num grande concerto apoiado por amigos como Pete Towshend do The Who e Stevie Winwood do Traffic e Blind Faith. Sua carreira prosseguiu com alternando gravações de blues, country e até pop, até que se firmou novamente ao lançar o premiado disco “Unplugged” em 1992 e “From The Cradle” em 1995, ambos dedicados à sua maior paixão, o blues. Atualmente Clapton se dedica a promover concertos e tributos aos velhos ídolos que ainda estão vivos, como B. B. King, Buddy Guy e Hubert Sumlin e a gravar e produzir seus próprios trabalhos.

Peter Green, aliás, Peter Allen Greenbaum, nasceu em 29 de outubro de 1946 em Bethnal Green, Londres. Aprendeu por conta própria a tocar guitarra a partir dos 11 anos de idade e aos 15 já tocava profissionalmente. Suas maiores influências no início e que certamente definiram seu estilo foram Hank Marvin do Shadows, B. B. King, Freddie King, Muddy Waters e até músicas tradicionais judaicas. Sua primeira banda foi a Boby Denim & The Dominoes onde tocava clássicos do rock & roll. Em seguida se ingressou numa banda de rhythm & blues, chamada The Muskrats. Logo imigrou para The Tridents, onde tocou baixo e, posteriormente, seguiu para The Peter Barden´s Looners, onde conheceu Mick Fleetwood com quem formaria anos depois o Fleetwood Mac. Em 1966 Eric Clapton deixa o John Mayall´s Bluesbreakers e o mais cotado para substituí-lo seria Peter Green. E ele cumpriu sua missão com muita competência na banda de Mayall, onde exibiu toda sua técnica de guitarrista, compositor e vocalista. E assim, mais experiente e reconhecido, Peter partiu para formar a banda de seus sonhos. Em 1967 lançou o excelente álbum Peter Green’s Fleetwood Mac, seguido de outros bem sucedidos. Tudo parecia estar bem, até que Peter sentindo-se desconfortável com sua vida e pressionado pelas situações impostas pelo showbusiness, retira-se da banda. Presume-se que tudo começou a partir do momento em que passou a sofrer de esquizofrenia, se entregando ao consumo de drogas pesadas como o LSD e ao misticismo religioso, impulsionado talvez pela dificuldade de assimilar sua posição de rockstar com a administração de todo aquele dinheiro arrecadado em concertos, vendas de discos e de outras obrigações contratuais. A música, antes um prazer, tornara-se um mero negócio, um fardo. Conta-se que tentou inclusive doar todos os ganhos da banda para a caridade, o que foi negado pelos outros componentes, fazendo então com que ele se afastasse definitivamente. Green tentou se recuperar posteriormente em carreira solo, mas alternava alguns discos razoáveis com internações psiquiátricas, sofrendo tratamentos até com eletro-choques. Foi um período obscuro em sua vida, descuidou-se do visual, passou a se isolar e morar sozinho enquanto se dizia atormentado por vozes que só ele escutava. Até que alguns amigos mais chegados se aproximaram e o resgataram aos poucos para o convívio social e para a música. Desde 1996 Green fez concertos e gravou regularmente com o Peter Green Splinter Group em parceria com o amigo-protetor e também guitarrista Nigel Watson. Mas suas performances ainda não lembravam o lendário Peter Green do passado, e apesar de às vezes não falar coisa com coisa, de não solar e cantar como antes, seu espírito de bluesman estava intacto e podia-se ver uma chama daquele excepcional artista que um dia tirou suspiros até do mestre B. B. King. Em 2004 Peter deixa o Splinter Group e se muda para a Suécia onde teria se juntado a outro grupo, mas devido a problemas de adaptabilidade com a sua medicação, seus projetos permanecem indefinidos e incertos quanto ao futuro.

Para concluir, é difícil afirmar qual dos dois lendários guitarristas era o melhor, mas uma coisa é certa, ambos se dedicaram ao máximo e fizeram de tudo pela música que tanto amam. Atuaram cada um a seu modo, impondo respeito e admiração por todo o mundo. Souberam superar as dificuldades impostas pelo destino e continuam seguindo a trilha do blues. Triste vai ser o dia em que Eric e Peter não poderem mais tocar para o seu público fiel, mas até lá, vamos curtir os caras pessoal!
 
Eumário J. Teixeira

12 de abr. de 2009

ZÉ KETI & JAMELÃO, MESTRES SAUDOSOS DO SAMBA TRADICIONAL

Aquele samba-lamento que Alcione, a “Marrom”, canta emocionada “...não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar...” está cada vez mais atual. Não se faz mais sambas como antigamente, a poesia dos morros está morrendo ou pelo menos não se vê por aí indícios de algum movimento em prol da conservação da história de uma cultura musical tão original e rica, provinda do seio de uma comunidade de maioria negra discriminada e oprimida nos morros do Rio de Janeiro. Já a partir dos anos de 1930, compositores de samba começaram a se sobressair em suas comunidades chamando a atenção de caça talentos que saiam das áreas nobres da cidade maravilhosa atrás de sambas que eram vendidos a preço de banana pelos seus ingênuos criadores que esperavam em vão, algum retorno, enquanto ouviam suas obras ecoando nas rádios dos botequins cantadas por cantores premiados, sem que se ao menos mencionassem o nome dos reais autores. A partir da segunda metade da década de 1950 com o evento da bossa nova, vários mestres do samba foram resgatados pelos principais precursores deste novo ritmo, que seria uma versão jazzística do samba para intelectuais das classes mais privilegiadas da sociedade carioca. Houve uma troca, a bossa nova “chupou” o que pode do samba para se desenvolver, e o samba desceu os morros de encontro à mídia apoiados por gente como Vinícius de Moraes, Chico Buarque e Nara Leão. Além do mestre Cartola, que dispensa comentários, duas figuras me impressionaram sobretudo pelos belíssimos sambas que interpretaram, eram canções que iam além do rótulo de samba, podia-se ouvir boleros também e, a poesia das letras, que se amoldavam como luva nas músicas, eram de simplicidade cativante. Era difícil crer esses compositores que não tinham escolaridade primária, poderiam compor e interpretar obras de tão fina sensibilidade. Queria destacar desta vez dois caras do samba que eu sempre gostei de ouvir desde criança apesar de não saber direito quem eram e de onde vieram: Zé Keti e Jamelão!

O jovem sambista Zé Keti
Zé Keti – Nasceu no bairro de Inhaúma no Rio de Janeiro no dia 16 de setembro de 1921, apesar de ter sido registrado, segundo consta em 06 de outubro do mesmo ano e batizado como José Flores de Jesus. Filho de Josué Vale da Cruz que era marinheiro e tocador de cavaquinho, com três anos de idade foi morar com o avô João Dionísio Santana que era flautista e pianista, o que contribuiu para despertar a aptidão para música do pequeno Zé. Na casa do velho Dionísio ocorria regularmente umas reuniões de samba e figuras como Pixiguinha e Cândido das Neves (também conhecido como Índio) apareciam por lá. Após a morte do avô em 1928, mudou-se para rua Dona Clara. O pseudônimo “Zé Keti” foi adquirido por ser muito tímido e quieto quando criança, daí o chamavam de “ Zé Quieto”, “Zé Quietinho” até ficar como “Zé Keti”. Bastante influenciado pela musicalidade do pai, do avô e amigos músicos que frequentaram sua casa, Zé keti cresceu e na sua mocidade já cantava sobre a favela, a malandragem, o samba e seus amores mal resolvidos. No início da década de 1940 se integra à Ala de Compositores da Escola de Samba da Portela. Entre 1940 e 1943 compôs sua primeira marcha carnavalesca: “Se O Feio doesse”. Em 1946 “Tio Sam no Samba” foi sua primeira composição gravada pelo grupo Vocalistas Tropicais. Em 1951 com o samba “Amor Passageiro” em parceira com Jorge Abdala, tornou-se seu primeiro grande sucesso interpretado por Linda Batista. No mesmo ano compôs com Abdala “Amar é Bom” que foi gravado pelos Garotos da Lua. Em 1955 um dos seus maiores sucessos, “ A Voz do Morro", gravada por Jorge Goulart e com arranjo de Radamés Gnattali, fez enorme sucesso na trilha do filme "Rio 40 graus", de Nelson Pereira dos Santos. Neste filme, trabalhou também como segundo assistente de câmera e ator. Ainda nos anos 50 teve outro sucesso que foi “Leviana” incluída na trilha sonora do mesmo filme. No ano de 1962 formou o conjunto A Voz do Morro, do qual fizeram parte Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, José da Cruz, Oscar Bigode e Nelson Sargento, lançando três discos. Em 1964 participou do Show “Opinião” ao lado de João do Vale e Nara Leão, que serviu para divulgar algumas de suas obras como “ Opinião” e “ Diz que Fui por Aí”. Em 1965 lançou “Acender as Velas”, uma de suas mais respeitadas composições, pois inclui-se entre as músicas de protesto da fase posterior a 1964, com uma letra de forte impacto, narrando o dia-a-dia dramático da favela. Elis Regina e Nara Leão fizeram muito sucesso com a gravação dessa música. Em 1964, além de gravar “Nega Dina” foi premiado com o troféu Euterpe como o melhor compositor carioca e junto a Nelson do Cavaquinho, recebeu o troféu Guarany, como o melhor compositor brasileiro. Em parceria com Hildebrando Matos, compôs em 1967 a marcha-rancho “Máscara Negra” gravada por ele mesmo e por Dalva de Oliveira, sendo a música vencedora do 1º Concurso de Músicas de Carnaval, que foi criado naquele ano pelo Conselho Superior de MPB do Museu da Imagem e do Som, fazendo um enorme sucesso nacional. A partir daí Zé Keti,como muitos outros compositores de samba tradicional foram esquecidos pela mídia. Mudou-se para a cidade de São Paulo na década de 80 e em 1987 sofreu seu primeiro derrame cerebral. 
Zé Keti, mestre compositor da Portela
Em 1995 volta a morar com uma das filhas no Rio de Janeiro, continuando a compor, cantar e chegou a gravar um disco. No ano seguinte lançou o CD “ 75 Anos de Samba” com participação de vários sambistas da nova geração como Zeca Pagodinho. Em 1997 recebeu da Portela um troféu em reonhecimento pelo seu trabalho e participou da gravação do disco Casa da Mãe Joana. Em 1998 ganhou o Prêmio Shell pelo conjunto de sua obra de mais de 200 músicas. Na noite de premiação foi homenageado por muitos músicos como Paulinho da Viola, Élton Medeiros, Monarco e a Velha Guarda da Portela, em show dirigido por Sérgio Cabral no Canecão no Rio de Janeiro. Em janeiro de 1999, recebeu a placa pelos 60 anos de carreira na roda de samba da Cobal do Humaitá. Ainda em 1999, apresentou-se ao lado da Velha Guarda e teve vários de seus sucessos regravados, até que aos 78 anos, em 14 de novembro do mesmo ano, faleceu em decorrência de falência múltipla dos orgãos. Outros sucessos de Zé keti são: “Mascarada”, “ Malvadeza Durão” , “Jaqueira de Portela” e “ Meu Pecado”.

- Trecho de a “ A Voz do Morro” com Zé Keti:

Eu sou o samba
A voz do morro
Sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo
Que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro...”

- Trecho de “ Acender as Velas” com Zé Keti:

Acender as velas
Já é profissão
Quando não tem samba
Tem desilusão
É mais um coração
Que deixa de bater
Um anjo que vai pro céu
Deus me perdoe, mas vou dizer...

Mestre Jamelão
Jamelão – Nascido no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de São Cristovão em 12 de maio de 1913, Jamelão ou melhor, José Bispo Clementino dos Santos, passou a sua juventude no Engenho Novo. Com a separação dos pais teve que trabalhar cedo para ajudar sustentar sua família. Através de um amigo que era sambista, conheceu a Estação Primeira de Mangueira e se apaixonou perdidamente pela escola de samba. Integrou-se rapidamente à escola e logo começou a tocar tamborim na bateria da Mangueira tornando-se em seguida um dos seus principais intérpretes, mais tarde passou para o cavaquinho e baseando-se no estilo de Cyro Monteiro, começou a apresentar-se em gafieiras onde ganhou o apelido de “Jamelão” na capital fluminense e, consequentemente, também conseguiu trabalhos no rádio reforçando sua fama de excelente intérprete. Em 1945 participou do programa Calouros em Desfile, comandado por Ary Barroso, interpretando "Ai, que Saudades da Amélia", de Ataulfo Alves e Mário Lago. A partir daí conseguiu trabalhos no rádio e em boates, participando também como crooner da Orquestra Tabajara de Severino Araújo, com quem excursionou à Europa. Foi corista do cantor Francisco Alves e, numa noite, durante uma apresentação deste, assumiu seu lugar no palco para cantar uma música de Herivelto Martins, destacando-se então. Mas a consagração mesmo veio como cantor de samba. Entre seus inúmeros sucessos, estão "Fechei a Porta" (Sebastião Motta/Ferreira dos Santos), "Leviana" (Zé Kéti), "Folha Morta" (Ary Barroso), "Não Põe a Mão" (P.S. Mutt/A. Canegal/B. Moreira), "Matriz ou Filial" (Lúcio Cardim), "Exaltação à Mangueira" (Enéas Brites/Aluisio da Costa), "Eu Agora Sou Feliz" (com Mestre Gato), "O Samba É Bom Assim" (Norival Reis/Helio Nascimento) e "Quem Samba Fica" (com Tião Motorista). De 1949 até 2006, Jamelão foi intérprete de samba-enredo na Mangueira, sendo a voz principal a partir de 1952, quando sucedeu Xangô da Mangueira. Em Janeiro de 2001 recebeu a medalha da Ordem do Mérito Cultural entregue pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso. 
Jamelão entre Milton Nascimento e Chico Buarque
Devido a problemas de saúde, pois teve problemas pulmonares e desde 2006 sofrera dois derrames, acabou por afastar-se da Mangueira, declarando em uma entrevista: “Não sei quando volto , mas não estou triste” . Infelizmente no dia 14 de junho de 2008, o velho mestre Jamelão, fiel torcedor do Clube de Regatas Vasco da Gama, faleceu aos 95 anos na Casa de Saúde Pinheiro Machado, em sua cidade natal, por falência múltipla dos orgãos, O sepultamento foi no Cemitério São Francisco Xavier, no bairro do Caju, no Rio de Janeiro. Jamelão foi o maior intérprete dos sambas-canções doloridos de Lupicínio Rodrigues, como "Esses Moços", "Ela Disse-me Assim", "Torre de Babel", "Quem Há de Dizer", "Sozinha" e "Exemplo". Gravou dois LPs dedicados à obra do compositor gaúcho, acompanhado pela Orquestra Tabajara do maestro Severino Araújo: "Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues" (1972) e "Recantando Mágoas - A Dor e Eu" (1987). Em 1997 a gravadora Continental lançou a coletânea "Jamelão - A Voz do Samba", em 3 CDs.

- Trecho de “ Folha Morta” com Jamelão:

Sei que falam de mim
Sei que zombam de mim
Oh, Deus como sou infeliz
Vivo às margens da vida
Sem amparo ou guarida
Oh, Deus como sou infeliz...

- Trecho de “ Nunca” com Jamelão:

Nunca, nem que o mundo caia sobra mim
Nem se Deus mandar, nem mesmo assim
As pazes contigo, eu farei
Nunca, quando a gente perde a ilusão
Deve sepultar, o coração, como eu sepultei...

Aí está um link do you tube com Zé Keti cantando "Mascarada": http://www.youtube.com/watch?v=X_BYC1opLhI
e outro link com Jamelão interpretando "Ronda":http://www.youtube.com/watch?v=LDmR-r-eVv8
 
Eumário J. Teixeira

11 de fev. de 2009

DEU BRANCO NO BLUES: ALEXIS KORNER - PARTE 1

Alexis Korner: o pioneiro do blues britãnico
 
BRANCOS QUE DIFUNDIRAM O BLUES PELO MUNDO

O inglês Eric Clapton é unanimidade quando se fala em responsáveis diretos pela divulgação do blues pelo mundo, mas algumas figuras anteriores a ele e não tão populares quanto o famoso slow hand, foram essenciais para a revitalização do blues no início dos anos 60, influenciando inclusive as gerações das próximas décadas. É sabido que desde a segunda metade da década de 1950 parece ter havido uma espécie de conspiração nos EUA articulada por diversos setores da sociedade branca racista e moralista, incomodados com a ascensão daquela música negra incrivelmente sedutora e popular que ganhava terreno e que possivelmente iria perverter todos aqueles jovens brancos puros, ingênuos e alienados. Tentaram até uma versão branca para minimizar o impacto criando um tal do rock & roll, mas este foi da mesma forma combatido quando perceberam que o filho assim batizado, herdara a natureza rebelde do pai, ou seja, o blues. Mas voltemos aos caras do white blues, pois dentre tantos divulgadores, podemos citar os britânicos Peter Green e Jeremy Spencer (do Fleetwood Mac) e Brian Jones, guitarrista polêmico dos Rolling Stones; os norte americanos Mike Blomfield, Alan Wilson (do californiano Canned Heat) e Johnny Winter, guitarrista albino criado no Texas. Nos anos 80 outro personagem branco deu sua contribuição apresentando o blues para uma nova geração de adolescentes sedentos por um guitar-hero, era o também texano Stevie Ray Vaughan. Aqui no Brasil tivemos um bluesman pioneiro, Celso Blues Boy, na década de 1970. Vamos futuramente comentar um pouco sobre cada um, mas nesta oportunidade vamos começar com Alexis Korner, ele foi um dos primeiros brancos europeus tarados por blues, pelo menos é o que diz a história...

Alexis Korner – Nascido em 19 de abril de 1928 na França, Korner veio de uma descendência mista de turcos, gregos e austríacos. Na sua primeira década de vida foi criado na França, Suíça e no norte da África até chegar em Londres em maio de 1940 e justamente durante a invasão alemã. Foi a época na qual Alexis descobriu o blues norte-americano. Ele dizia que escutava um disco do bluesman Jimmy Yancey enquanto ocorria o bombardeio alemão sobre Londres, mas o que importava mesmo para ele era aprender a tocar o blues de Chicago. Depois do término da Segunda Guerra Mundial, ele se empenhou para aprender tocar piano e guitarra acústica. Em 1947 mudou para a guitarra elétrica, mas não gostou do som dos amplificadores disponíveis e retornou para a guitarra acústica. Em 1949 entra para a banda de Chris Barber (trombonista responsável pela divulgação do jazz na Inglaterra) e lá conhece Cyril Davies (1932-1964), com quem logo formou uma dupla que tocava blues elétrico nos circuitos de bares de Londres na década de 1950. Impulsionados pela boa aceitação pelo público londrino, ambos se empenharam em convidar vários bluesmen norte-americanos para se apresentarem na capital inglesa para maior divulgação do estilo e também como meio de intercâmbio musical, já que também tocariam com os mestres consagrados do legítimo blues nos shows. 
O jovem Alexis Korner
A estratégia deu certo e atraiu entusiastas do estilo musical por toda a Inglaterra. Korner e Davies fariam sua primeira gravação em 1957 e no início de 1962 formaram o Blues Incorporated, um supergrupo, repleto dos melhores músicos da época em Londres em atividade: Korner (guitarra e voz), Davies (harmônica e voz), Ken Scott (piano) e Dick Heckstall-Smith (saxofone), com Charlie Watts ou Graham Burbridge como membros flutuantes na bateria, e da mesma forma Spike Heatley ou Jack Bruce no baixo elétrico e convidados em rotatividade da estirpe de Long John Baldry, Ronnie Jones e Art Wood (irmão de Ron Wood dos Faces e Stones) nos vocais. Não demorou e os clubes de jazz fecharam as portas para eles, pois os puristas do estilo não aceitavam mais o blues, talvez por ciúmes da sua crescente popularidade ou porque que na visão dos jazzistas, o blues não era sofisticado o bastante. korner e Davies em resposta abriram o próprio clube em março de 1962, o London’s Marquee Club. Jovens músicos amadores foram logo atraídos pelo movimento inédito em torno do blues, tais como Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones, formando seus próprios grupos. Vieram também em seguida Ian Stewart, Steve Mariott, Paul Jones e Manfred Mann. John Mayall, um dos pioneiros do blues britânico só formaria o legendário Bluesbreakers em 1963, inspirado no Blues Incorparated. Em junho de 1962, foi registrado a apresentação do Blues Incorporated no clube e lançado em novembro do mesmo ano em álbum entitulado R&B From The Marquee. Em seguida Cyril Davies deixa o grupo após Alexis decidir acrescentar metais ao som da banda. Em seguida ocorre a explosão do rock britânico em 1963, bandas que incluíam The Animals e The Yardbirds chegavam com novos elementos que atraíam os jovens, tornando-se portanto, comercialmente mais viáveis, deixando para trás os pioneiros tradicionalistas do Blues Incorporated. 
Alexis (guitarra) e o bluesman Sonny Terry (gaita)
Enquanto bandas como os Rolling Stones e Cream apareciam em revistas de rock por todo o mundo, Alex se limitava a artigos especializados em blues somente na Inglaterra, seu espaço no showbusiness estava se estreitando. Assim ele resolve investir até em programas infantis na TV, como o Five O’Clock Club Show, onde apresentava à nova geração britânica o rico universo do blues e jazz. Explorava também sua voz diferenciada em propagandas na TV, enquanto gravava regularmente discos solo sem muito sucesso comercial mas excursionando pela Europa com muito boa aceitação, principalmente na Escandinávia. Chegou a gravar com o futuro vocalista do Led Zeppelim, Robert Plant, em 1968, mas não concluíram o trabalho. Participou regularmente por alguns anos da banda New Church do vocalista Peter Thorup. Conta-se que Brian Jones após sua demissão dos Rolling Stones, tentou se ingressar na New Church, mas foi rejeitado por Alex Korner, pois não queria a banda se envolvesse em controvérsias. Em 1972 se envolveu na separação de outro grupo, convocando os serviços de Boz Burrell, Mel Collins e Ian Wallace que tinham saído do King Crimson. Foi durante os anos de 1970 que ele teve seu único e maior hit, quando liderava junto a Peter Thorup uma big-band de estúdio de 25 membros, a Collective Consciousness Society (CCS), fazendo uma versão de “Whole Lotta Love” do Led Zeppelin, que lhe garantiu várias apresentações na TV e excursões pela Inglaterra. Em seguida Korner realizou Bootleg Him, um disco com tapes compilados de sua coleção pessoal, incluindo gravações com Robert Plant (do Zeppelin), Mick Jagger e Charlie Watts (dos Stones). Ele também participou da gravação, numa supersessão, do álbum de B. B. King titulado In London. Lançou logo após um disco próprio e similar, Get Off My Cloud, com Keith Richard (dos Stones), Peter Frampton, Nicky Hopkins e membros da Grease Band de Joe Cocker. Quando Mick Taylor deixou os Rolling Stones em 1975, Korner mencionou a possibilidade de substituí-lo, mas foi imediatamente descartada por Ron Wood que chegou antes.
Korner, querido pelos colegas de blues & rock
 No ano de 1978 em comemoração ao seu 50º aniversário, foi realizado um concerto com várias estrelas, se destacando Eric Clapton, Paul Jones, Chris Farlowe and Zoot Money, show que mais tarde foi lançado em vídeo. Em 1981 Korner formou o último e grandioso supergrupo de sua carreira, o Rocket 88, composto por ele próprio na guitarra, Jack Bruce (ex-Cream) no baixo, Ian Stewart no piano e Charlie Watts (dos Stones) na bateria, apoiado por trombonistas e saxofonistas, e um ou dois tecladistas adicionais. Eles excursionaram pela Europa e gravaram várias de suas apresentações, que estão registradas em disco titulado Rocket 88, realizado pela Atlantic Records. Em contraste com a maioria das gravações de blues-rock que eram associadas a Korner, Rocket 88 era um misto de blues com boogie-woogie jazz. O repertório do grupo era basicamente consistido de músicas escritas por W. C. Handy e Pete Johnson. Após ter uma boa receptividade no Cambridge Folk Festival no início dos anos de 1980, ele parecia querer revigorar-se musicalmente, mas sua saúde estava em declínio na época. Sendo um fumante contumaz por toda sua vida, Korner morreu de câncer de pulmão no início de 1984. O Blues perdia um dos seus maiores e fiéis defensores!


Alexis Korner's Blues Incorporated
Kornerstoned: Coletânea essencial
O supreendente Bootleg Him!


De Alexis Korner vale a pena conferir : Alexis Korner´s Blues Incorporated – R & B From The marquee (1962/Ace Of Clubs); Alexis Korner – At The Cavern (1964/Oriole); Alexis Korner – New Generation Of Blues (1968 – BGO) e Alexis Korner – Bootleg Him! (1972/Castle).

Por Eumário J. Teixeira.

13 de dez. de 2008

BETO GUEDES - AMOR DE ÍNDIO

Beto Guedes, ao meu ver é uma das figuras mais carismáticas e talentosas da MPB. Não sei bem se a mídia não lhe deu justo crédito ou o próprio artista pela sua simplicidade e notória timidez, fugia dos holofotes quando podia. Dono de uma voz frágil em falsete, ele sempre ofereceu o que tinha de melhor, uma sensibilidade única e de certa forma ingenuamente romântica, que reflete em sua música e poesia, imagens quase místicas e utópicas de um mundo que só ele vivencia ou anseia desfrutar, numa mistura genial de chorinho e rock. 

Beto Guedes fã de rock e chorinho
 Alberto de Castro Guedes nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 13 de agosto de 1951. Desde a adolescência tocava em bandas formadas em Belo Horizonte explorando o repertório dos Beatles, aliás seu conjunto se chamava The Bevers e os outros componentes da banda eram os irmãos Yé, Márcio e Lô Borges. O jovem músico ao voltar para Montes Claros por um período começa a participar de outro grupo, o Brucutus, onde animava as festinhas durante as férias tocando Beatles, Renato & Seus Bluecaps, Roberto Carlos, etc. Aos aos 18 anos participou do V Festival Internacional da Canção em 1970, com sua composição “Feira Moderna”, em parceria com Fernando Brant. Tendo a música mineira como uma de suas principais influências - ao lado do rock dos Beatles e The Byrds e dos choros que o pai seresteiro, Godofredo Guedes, compunha - participou ativamente do Clube da Esquina, banda que projetou nacionalmente os compositores mineiros (de nascimento ou de coração) como Milton Nascimento, Lô Borges, Fernando Brant e o próprio Beto Guedes. 
Beto Guedes, mineirinho de Montes Claros
Participou do primeiro LP do grupo, Clube da Esquina (1971) e da edição de Clube da Esquina (1979). Foi acompanhado pelo também grupo mineiro 14 Bis e em 1977 lançou o primeiro LP, A Página do Relâmpago Elétrico que superou as expectativas e que tinha “Lumiar” como faixa de destaque, além de “Maria Solidária”, “Tanto”, “Nascente” e “Salve Rainha”. No ano seguinte, o disco Amor de Índio traz na faixa-título o maior sucesso de sua carreira e as pérolas “Feira Moderna”, “Novena”, “O medo de amar”, “Luz e Mistério” e “Gabriel”, se sobressaindo num excelente álbum que teve as participações de Toninho Horta, Wagner Tiso, Fávio Venturini e Tavinho Moura. Em 1980 lança o LP Sol de Primavera, no qual se destacam a faixa-título, “Roupa Nova”, “Norwegian Wood” (dos Beatles com Milton Nascimento), “Pela Claridade de Nossa Casa” e a inesquecível “Casinha de Palha”. No ano de 1983 sai o álbum Contos da Lua Vaga, com as faixas “Contos da Lua Vaga”, “Canção do Mundo Novo”, a lindíssima “O Sal da Terra” e “Sete Flautas”. Em 1984 o LP Viagem das Mãos, trouxe seu segundo maior sucesso “Paisagem da Janela” de Fernando Brant e Lô Borges. Em 1986, saiu LP Alma de Borracha, (título que vem de Rubber Soul, disco dos Beatles) dando-lhe seu 1º Disco de Ouro, ultrapassando a marca de 200 mil cópias vendidas com as faixas “Alma de Borracha”, “Calor Humano”, “Lágrima de Amor”, entre outras.
Beto Guedes com Lô Borges e Milton Nascimento
 Em 2004 reaparece inspirado com o CD Em Algum Lugar, com as faixas “Até Depois”, “Sonhando por Nós”, “Lamento Árabe” (de seu pai Godofredo Guedes) e “Júlia” (de Gabriel Guedes, seu filho), dentre outras contidas num ótimo trabalho. Infelizmente o tempo é implacável mesmo para caras como Beto Guedes que deveriam ser imunes à sua ação. Ele representa uma geração de ouro da música mineiramente brasileira que insiste em sobreviver e lutar contra o sistema que aposta cada vez mais no lixo descartável. 
Mas temos a esperança que a tradição musical da família Guedes mantenha acesa a chama ardente da diferenciada e qualificada música das Minas Gerais. De qualquer forma, a obra de Beto Guedes ainda está inacabada, pois ele continua na ativa, mas sua criação está cravada na história da MPB e está acessível para todos, sejamos novos fãs ou saudosistas de uma época que não volta mais. Para finalizar, Beto tem outra paixão além da música, e é por aviões, apesar de assumir o mêdo de voar. Atualmente alterna os instrumentos musicais com as ferramentas e macacão de mêcanico para montar aeromodelos e voar em aeroplanos.  Será? E sabe qual o seu filme predileto? Império do Sol, é claro! Onde desfilam nos céus os “Zeros” dos pilotos japoneses kamikazes e os Mustangs da USAF.

Discografia Solo de Beto Guedes:

- A Página do Relâmpago Elétrico – 1977
- Amor de Índio – 1978
- Sol de Primavera – 1980
- Contos da Lua Vaga – 1981
- Lumiar (Coletânea) – 1983
- Viagem das Mãos – 1984
- Alma de Borracha – 1986
- Ao Vivo – 1987
- Andaluz – 1991
- Dias de Paz – 1998
- Beto Guedes 50 Anos / Ao Vivo - (DVD e CD) 2002
- Em Algum Lugar – 2004 
Aqui um link do you tube onde Beto Guedes canta a lindíssima "Amor de Índio":
http://www.youtube.com/watch?v=DGeQ-e9wjmM
 
Por Eumário J. Teixeira.

4 de dez. de 2008

BLUES, UM SOBREVIVENTE DE 100 ANOS !

Aqui no Brasil passou praticamente desapercebido, mas foi decretado pelo governo dos Estados Unidos da América no Norte, a cinco anos atrás, 2003 como Ano do Blues. Assim se fez justiça ao gênero musical mais importante surgido no século XX. A saber, foi em 1903 que o músico William Cristopher Handy (1873-1958), ouviu pela primeira vez o blues na sua forma mais primitiva possível. Segundo Handy, assim aconteceu: “Uma noite em Tutwiler no Mississipi, enquanto lutava contra o sono na estação à espera de um trem com nove horas de atraso, a vida subitamente me segurou pelo ombro e me despertou com uma sacudidela. Um negro esguio e desajeitado tinha começado a dedilhar um violão ao meu lado enquanto eu cochilava. Suas roupas eram trapos, os dedos dos pés saíam pelos buracos dos sapatos. Seu rosto transmitia algo de tristeza milenar. Ao tocar, ele pressionava as cordas do violão com uma faca da maneira popularizada pelos guitarristas havaianos, que usavam barras de aço. O efeito foi inesquecível”.
O jovem Muddy Waters (à direita) ainda adepto ao country blues
Este depoimento de W. C. Handy, está em sua autobiografia, Father of the Blues. A partir desta experiência inesperada na estação de trem, Handy começou a despertar para aquela música simples e sedutora que havia lhe tocado tão profundamente, procurando a partir daí observar e estudar músicos anônimos por todo o Delta do Mississipi que se apresentavam pelos botequins de beira-de-estrada, tocando lamentos já conhecidos como blues. Handy percebeu que apesar de ser uma música repetitiva e monótona, ainda assim despertava uma atração quase hipnótica por parte dos ouvintes, pois era honesta e emotiva, então, de imediato, começou a adaptar aquela música aos arranjos mais sofisticados de sua Big Band e se vangloriou mais tarde de ter apresentado o blues ao público das grandes cidades e ter sido um dos primeiros a gravar temas (já que ele não foi o único) com termo “blues” nos títulos, como em “The Memphis Blues” de 1912 e “Saint Louis Blues” de 1914, apesar da maioria de suas canções não seguirem a estrutura básica do blues.
Assim quis a história que a data oficial do nascimento do blues, fosse a mesma referida por W. C. Handy, na estação de trem de Tutwiler, o ano de 1903. Mas de qualquer forma o Blues já estava nos trilhos muito antes, independentemente do oportunismo de Handy. É fato que tudo começou ainda no século XIX, quando da chegada dos primeiros escravos africanos às plantações de algodão ao sul dos EUA, onde os negros desenvolveram as works songs para agüentarem o ritmo desumano do trabalho; canções estas que se adaptaram aos hinos religiosos herdados pelos brancos de seus descendentes europeus, transformando-se no gospel típico das igrejas batistas negras, ou seja, vibrante, dançante e cheio de energia, culminando por finalmente no blues herege e maldito, que migrou das plantações nas zonas rurais para as cidades mais importantes do Sul do país.

Mississipi John Hurt - O blues do Delta
A partir dos anos 20, com o recente término da I Grande Guerra Mundial, o mercado de discos se desenvolve e a venda de gramofones supera as expectativas. As gravadoras como a RCA Victor, Paramount e Columbia começaram a investir e apostar no talento de artistas mais ao Sul do país, revelando cantoras como Mamie Smith, uma das pioneiras do gênero, que gravou “Crazy Blues” com muito sucesso e, Bessie Smith, a “Imperatriz do Blues”, que gravou “Downhearted Blues” e outros temas, obtendo uma popularidade e fama jamais sonhados por uma cantora negra da época. Nos anos 30, se sobressaíram os bluesmen, que definitivamente deram a base para as futuras gerações. Cantores e guitarristas como Eddie “Son” House, Blind Lemon Jefferson, Charley Patton, Robert Johnson e Big Joe Williams, despertaram as gravadoras para a mina de ouro que estava no coração do Delta.
Após a II Grande Guerra Mundial, já no final dos anos 40, a cidade industrializada de Chicago (Illinois), mais ao norte dos EUA, tornou-se o alvo dos bluesmen vindos do Sul, à procura de fama, dinheiro e mulheres. Chicago passou a ser o celeiro do blues moderno e elétrico, como paralelamente as cidades de Memphis (Tennessee), New Orleans (Louisiana) e Detroit (Michigan) se tornaram pólos alternativos para o gênero. Foi a fase mais importante deste gênero musical, na qual o estilo se consolidou e fez escola, influenciando futuras gerações de músicos das mais variadas correntes musicais.
Nesta época se destacaram nomes como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Willie Dixon, Little Walter, T-Bone Walker, Sonny Boy Williamson II, Elmore James, B. B. King, John Lee Hooker, Champion Jack Dupree, Memphis Slim, Eddie Boyd, dentre outros.

Howlin' Wolf num "inferninho" em Chicago
Na metade dos anos 50 até início dos anos 60, outra geração de músicos surgiu, revigorando o cenário do blues negro, dentre os quais podemos citar os guitarristas Otis Rush, Magic Slim, Luther Allison, Buddy Guy, Freddie King e o gaitista Junior Wells. Para a geração branca de roqueiros dos anos 60, tanto o longínquo som rural e acústico de Robert Johnson quanto o som moderno, urbano e eletrificado de Otis Rush, seriam influências decisivas para a sua formação musical. Assim, como foi para os músicos britânicos de rock & roll e rhythm & blues, como Eric Clapton (Bluesbreakers, Cream), Peter Green (Bluesbreakers, Fleetwood Mac), John Mayall (Bluesbreakers), Rolling Stones, Animals e Yardbirds, da mesma forma seria para os seus colegas de profissão norte-americanos como Johnny Winter, Canned Heat, Mike Blomfield, Steve Miller, Janis Joplin, Jimi Hendrix e The Doors, o blues sempre estaria na base de tudo o que criassem.
Little Walter, eletrificou a gaita nos anos de 1950
O blues sobreviveu às décadas seguintes, superou todos os modismos e atualmente poucos “medalhões” estão vivos para cantar , tocar e testemunhar suas histórias, que se confundem com a do próprio blues. Ícones como B. B. King, considerado “Embaixador” e “Rei do Blues”, atualmente com mais de 80 anos de idade e Buddy Guy, chegando a casa dos setenta, ambos resistentes ao modismo e ao tempo, ainda cooperam para que o blues sempre tenha seu espaço assegurado. Os que tem bom gosto musical agradecem aos que se foram e nos deixaram esse tesouro valioso para desfrutarmos em vida, sem falar que ainda contamos com as performances vibrantes de Otis Rush, Magic Slim, Snooks Eaglin, Lonnie Brooks, Etta James, Koko Taylor , só para mencionar alguns.
Nos seus 100 nos de vida, o blues lamentou os amores perdidos, a solidão, a pobreza, a injustiça, a discriminação racial e política de forma irônica e rebelde, sem perder a elegância e a dignidade. É o que o mantém no topo, a sua capacidade de ser simples, direto e contundente. Vida longa ao blues!


Dentre muitos eventos foram lançados uma série de documentários em DVD para a comemoração do centésimo aniversário do Blues com direção de nomes consagrados do cinema:

 
- Feel Like Going Home (From Mali to Mississipi): Diretor Martin Scorsese – Mostra a viagem dos escravos da África para o Delta do Mississipi, onde o gênero foi gestado nos campos de algodão.

- Warning by the Devil’s Fire: Diretor Charles Burnett – Conta as tensões inevitáveis entre dois gêneros, o Gospel das igrejas e o Blues mundano.

- Piano Blues: Diretor Clint Eastwood – Explora a aventura do instrumento pelo Blues, com performances de Ray Charles, Fats Domino, Little Richard e Dr. John.

- Red, White & Blues: Diretor Mike Figgis – Trata da chegada do Blues à Inglaterra e seu retorno triunfal aos EUA, com depoimentos de Eric Clapton, Jeff Beck, Van Morrison, etc.

- Godfathers And Sons: Diretor Marc Levin – Uma viagem por Chicago no passado e presente, do Blues ao Hip-hop. Com performances inéditas de Howlin’ Wolf, Muddy Waters, Paul Butterfield Blues Band e participações de Otis Rush, Koko Taylor, Magic Slim, etc.

- The Road to Memphis: Diretor Richard Pearce – Refaz a odisséia musical de B. B. King, a maior lenda do Blues atual.

- The Soul of a Man: Diretor Wim Wenders – A história passo a passo de três lendas do Blues, Skip James, Blind Willie Johnson e J. B. Lenoir, com materiais e gravações de arquivos e covers inéditas com Lou Reed, Nick Cave, John Spencer Blues, etc. 



Vídeos de Martin Scorsese - Tributo ao blues
Por Eumário José Teixeira
   Blues, da origem aos nossos dias. 
Desde a origem nas work-songs entoadas pelos negros africanos escravizados nas plantações de algodão no Sul dos EUA no século XIX, até o surgimento dos primeiros profissionais ou bluesmen que viviam da música, o celeiro do blues sempre foi o Delta do Mississipi. A partir do século XX, mais precisamente na década de 20, o estilos já diferenciavam-se por regiões e se faziam representar por nomes exóticos como Blind Lemon Jefferson, Blind Willie McTell, Blind Willie Johnson, todos cegos (blind), que se tornaram ídolos dos não menos lendários, Charlie Patton, Eddie “Son” House, Bukka White, Big Bill Broonzy e Robert Johnson, defensores do legítimo blues caipira e artistas populares nos anos 30.
Assim, podia-se ouvir o blues sulista tradicional do Mississipi, como o blues urbano de Chicago ao norte, o estilo apimentado do Texas, a despojada variação de New Orleans e também a escola sofisticada da Costa Oeste. De todos os cantos do país surgiram importantes representantes das várias correntes, destacando-se figuras como Lightnin’ Hopkins (guitarrista texano de country blues), Big Joe Turner (shouter ou berrador, nascido em Kansas City), T-Bone Walker (mestre da guitarra que fez escola), Charles Brown da Costa Oeste e Champion Jack Dupree de New Orleans (ambos pianistas) a partir do final dos anos 40.
Em meados dos anos 50, os já veteranos bluesmen Sonny Boy Williamson II (o gaitista endiabrado), Howlin’ Wolf (o lobo uivador) e Elmore James (mestre de slide-guitar), finalmente começaram a se destacar em Memphis; ao mesmo tempo em que John Lee Hooker (the boogie man) conquistava seu espaço em Detroit.

A guitarra elétrica deu novo fõlego ao blues
Em Chicago, o blues se fortalece graças as contribuições de Willie Dixon (baixista, compositor e produtor), Jimmy Reed (rei do soft blues), Little Walter (mestre da gaita amplificada), Otis Spann (pianista) e Muddy Waters, este último responsável direto pela eletrificação definitiva do blues .
Pouco tempo depois, na mesma Chicago, mais precisamente no west side (lado oeste), de maioria negra, a partir do final da década de 50, surge uma prole de guitarristas que incendeiam o blues de vez, trazendo mais juventude, vigor e muita garra; entre os destaques dessa nova geração, estão Magic Sam e Luther Allison junto aos texanos Freddie King e Albert Collins (the ice man).

Muddy Waters, responsável direto pelo blues elétrico
Nas décadas de 60 e 70 estas lendas da música norte-americana se consagraram em excursões por toda Europa, conquistando o reconhecimento e glórias que não obtiveram no próprio país devido à segregação racial. Alguns foram tão bem acolhidos, que por lá ficaram, tais como os prestigiados pianistas Memphis Slim, Eddie Boyd e o já citado Champion Jack Dupree.
Nos nos 80, 90 e até os dias de hoje, em pleno século XXI, o blues admirado em todo mundo, é reconhecidamente um elemento conciliador, um meio pelo qual se possa unir as pessoas indiferentemente de raças ou credos pelo simples amor à boa música.
Seja através de um canto gutural e solitário ou acompanhado por acordes mágicos de uma guitarra, piano ou gaita, o blues sempre se fará ouvir, pois é sedutor e atraente e não costuma passar desapercebido.


Por Eumário José Teixeira.