14 de jul. de 2022

CHOKI MOTOBU E O AUTÊNTICO KARATE DE OKINAWA


Choki Motobu (ou Motobu Choki) é considerado pelos estudiosos do Karate, com um dos maiores lutadores de Okinawa de todos os tempos. Ele realmente foi um temido lutador no sentido real da palavra, um lutador de rua no sentido literal.

Motobu foi instruído pelos antigos mestres da principal ilha do reino de Ryukyu que aprenderam, por sua vez, com os mestres chineses nas suas viagens de intercâmbio à China Continental, que lhes repassaram  os ensinamentos dos principais estilos de Kung Fu (fundados no Templo de Shaolin) posteriormente adaptados e modificados ao modo de vida dos praticantes de Okinawa.

O difícil e explosivo temperamento de Choki Motobu o remetia diretamente para o combate, deixando em segundo plano os treinamentos enfadonhos (para ele) de simulações de lutas ou das formas ou "katas", característicos do cronograma de ensino do "To De" ou da "Mão Chinesa".

Ele certamente foi o mais respeitado e temido mestre de Karate de Okinawa (e posteriormente do Japão) na sua geração.


Choki Motobu desferindo um ippon ken no Makiwara.


A Origem do Lendário Mestre de Okinawa - Choki Motobu nasceu em 05 de abril de 1870, na aldeia de Akahira, próximo à cidade de Shuri, na ilha de Okinawa, que por sua vez fazia parte do arquipélago que formava o antigo reino de Ryukyu.

Choki Motobu veio de uma família aristocrata que eram guardiões praticantes de uma peculiar modalidade de luta chamada "Gotende" (arte semelhante ao moderno Aikidô) ou "Motobu Udon Ti", restrita somente aos palacianos. Devido ao seu difícil temperamento e impaciência, Choki Motobu foi impedido de continuar na prática desta arte marcial restrita aos nobres.

Choyu Motobu, irmão mais velho de Choki Motobu.

Choki tinha um irmão mais velho, Choyu Motobu (1857/1928), dono um temperamento mais maleável e comportamento mais condizente com sua origem aristocrática, além de ser também um aplicado praticante de artes marciais. Choyu por ser o mais velho e o primeiro herdeiro da arte do Motubu Udon Ti, recebeu a educação e formação que Choki não obteve, e isso provavelmente pode ter influenciado na personalidade de Choki Motobu  que se tornou mais áspero e briguento. O terceiro irmão se chamava Choshin Motobu. O pai do trio, Chosin Aji Motobu, era descendente do sexto filho do rei de Okinawa, Sho Shitsu (1629-1668).

Anko Itosu, foi um dos primeiros mestres de Choki Motobu.  


Para conter o temperamento explosivo de Choki Motobu foi convocado o mestre Anko Itosu (1832/1916) para lhe ensinar To De.  Mas quando Choki testava seu aprendizado com seu irmão mais velho Choyu, sempre saía perdendo. Insatisfeito com as aulas de Itosu, Choki foi atrás de outros mestres da cidade de Shuri. Um deles foi o lendário Sokon Matsumura (1809/1901). Choki Motobu também recebeu ensino de Kosaku Matsumora (1829/1898) da cidade de Tomari e de Sakuma Pechin.

 

Choki Motobu recorreu ao lendário Sokon Matsumura para
aperfeiçoar o seu To De.


Choki Motobu passou por em prática o que aprendia no Distrito da Luz Vermelha em Tsuji, onde na maioria das vezes não se dava bem ao enfrentar marginais mais experientes que lutavam sem regras. Mas com o tempo sua experiência como lutador de rua o fez progredir de forma impressionante. Conta-se que a partir dos 20 anos de idade, Choki Motobu nunca mais perdeu uma luta. Choki Motobu ficou conhecido como "Motobu Saru" ou "o homem macaco" devido a sua força e agilidade.


O Karate de Choki Motubu tinha apenas um objetivo, 
que era demolir o adversário.


Sem perspectivas de ganhar a vida de forma independente em Okinawa, Choki Motobu partiu para a cidade de Osaka, no Japão, no início da década de 1920. Lá montou um dojô, mas não conseguia manter um número suficientes de alunos para o seu sustento. A razão disso era que seu "material" didático absorvido de seus mestres era limitado, já que ele se dedicava principalmente ao combate real e menosprezava de certa forma as formas ou katas, ou as lutas combinadas ou Kihon que lhe foi passado.

Choki Motobu e discípulos no dojô de Osaka, no Japão.



Choki Motobu com dois de seus fiéis estudantes.


O povo japonês nutria muito preconceito contra os imigrantes de Okinawa e Choki Motobu além de carregar um forte sotaque e ter uma aparência carrancuda, tinha dificuldades de transmitir seus conhecimentos e de se comunicar, além de ser muito ríspido e de poucas amizades.

Mestre Kenwa Mabuni, fundador da escola Shito Ryu.
Assim como Gichin Funakoshi, apesar de oriundo de Okinawa,
era considerado refinado e educado pelas autoridades japonesas.

Em comparação aos mestres de Okinawa, Kenwa Mabuni e principalmente Gichin Funakoshi, ele era considerado de má formação, apesar de ser descendente de uma família real.

Choki Motobu não se tornou lendário por sua educação, qualidades técnicas ou didática para o ensino, mas principalmente pela sua força física e apreço pelo combate real. Essa era a diferença entre ele e os demais mestres contemporâneos de Okinawa. Enquanto a maioria dos mestres se inclinavam para o ensino e à transmissão correta da aplicação das técnicas de To De, ainda que em grande parte letais e eficientes, Choki Motobu partia para o combate real e até negligenciava o ensino formal e sistemático.

Com todas essas dificuldades no Japão, Choki Motobu considerava retornar à ilha de Okinawa até que surgiu uma oportunidade.


Choki Motobu versus Jaan Kentel.


O confronto com o Boxeador Europeu - Um dos confrontos que selou para sempre o nome de Choki Motobu na história do que hoje conhecemos como Karate japonês, foi contra um alto e forte pugilista europeu.


Eis aqui o relato da luta contra o boxeador estrangeiro, segundo depoimento do próprio Choki Motobu:

"Fui assistir a uma evento de luta com um boxeador estrangeiro, um tal de John "qualquer coisa", em Kyoto."

O boxeador a quem Motobu se referiu era o jovem Jaan (John) Kentel, vindo da Estônia. Jaan Kentel era da categoria pesos pesados e media 1,82m de altura.

Jaan Kentel, direto da Estônia.

Prossegue, Motobu, que media 1,65m de altura e já estava com 52 anos de idade:

"O boxeador tinha lutado com um judoka na primeira Luta. O achei demasiado lento e parecia um amador. Candidatei-me a enfrentar o pugilista e apostar dinheiro (em mim mesmo) nesta luta. Eu já tinha mais de cinquenta anos na época."

" Não tive oportunidade de lutar neste dia, mas voltei no dia seguinte para insistir. Quando disse ao juiz de ringue que lutaria sem luvas, o boxeador parecia me desprezar, já que era muito mais alto que eu."

Algumas versões dessa história relatam que Motobu queria lutar com as vestes que usava normalmente, mas foi exigido que ele usasse um judô-gi (kimono branco). De qualquer forma, o grande público e os promotores não o conheciam e sua aparência não impressionava, já que passava dos 50 anos e ostentava uma barriguinha saliente, além de ser de estatura baixa.

Prossegue, Motobu: " No primeiro round ele brincou comigo como se eu fosse uma criança, tentando segurar meu nariz e torcer minha bochecha. Mas não lutei a sério no primeiro round. Houve o intervalo e voltamos para o segundo assalto. Logo pensei que se eu fosse derrotado por um boxeador estrangeiro, envergonharia o karate de Okinawa e decidi vencer meu oponente duma vez."

"E assim que o boxeador avançou para o ataque com todo ímpeto, acertei sua têmpora fortemente com um soco. Ali mesmo ele caiu desmaiado.  Todos os espectadores ficaram muito animados e houve uma salva de palma estrondosa enquanto jogavam suas almofadas de chão, piteiras, porta moedas com cordão e outros objetos em minha direção."

"Foi um evento bastante emocionante, porque o boxeador tinha cerca de 1,82m de altura e foi nocauteado com uma técnica de Karatê. Artigos de jornais locais afirmaram que eu acertei o boxeador com a  mão espalmada ou aberta. No entanto, não usei a palma da minha mão para atingi-lo, mas o meu punho. Os espectadores não perceberam porque bati muito rápido."

"A essência do Karate é mover-se de forma suave e, em seguida, acertar o inimigo de forma rápida e explosiva quando surgir a oportunidade. Isso é 'karate jissen', ou luta real."

Essa luta entre Choki Motobu e o boxeador da Estônia teria ocorrido em novembro de 1922, em outras fontes citam a data de 1923.

Choki Motobu versus Gichin Funakoshi.


A Rivalidade e a Luta com Gichin Funkoshi - A vitória de Choki Motobu sobre o pugilista europeu repercutiu positivamente por todo Japão. Entretanto saíram artigos nos jornais de Tokyo retratando o fundador do estilo "Shotokan" de Karate, Gichin Funakoshi, como o vencedor do famoso confronto ocorrido em Kyoto.

Os jornais de Tokyo estamparam o rosto de Gichin Funakoshi
no lugar de Choki Motobu para ilustrar a vitória do "Karate
japonês" sobre o "boxe ocidental".




Artigos dos jornais de Tokyo retratando a possível
rivalidade entre Motobu e Funakoshi.

Gichin Funakoshi, hoje reconhecido como o "Pai do Karate Moderno", era na ocasião um dos  principais mestres introdutores do "Karate" originário de Okinawa no Japão e, certamente, o preferido das autoridades governamentais japonesas e autoridades reguladoras das artes marciais e educação como o fundador do Judô, Jigoro Kano, que prezavam sua postura e formação, como também sua evidente capacidade de promover e moldar o "To De" de Okinawa para uma "autêntica" arte marcial japonesa. Assim,  viram uma grande oportunidade de promover ainda mais o estilo que viria a ser chamado de escola "Shotokan" por Funakoshi, ainda que roubassem o mérito da grande vitória de Choki Motobu.

Quando Choki Motobu ficou sabendo das "novidades", ele não pensou duas vezes em partir para Tokyo e tomar satisfações com Gichin Funakoshi que por sua vez não fez, aparentemente, nenhuma questão de esclarecer o engano dos jornais.

Segundo Choki Motobu relatou posteriormente, ele nunca tinha ouvido falar de Gichin Funakoshi em Okinawa. Mas o que importava era que Funakoshi estava obtendo sucesso com a divulgação do "seu" karate, apesar de nunca ter sido respeitado como um lutador real como Motubu e isso o deixava irado.

Os já idosos e rivais, Funakoshi e Motobu.




 

Choki Motobu desprezava o "karate" de Gichin Funakoshi.
Seria apenas ciúmes do sucesso do rival?!?


Motobu ironizava comparando o Karate de Funakoshi como  um Shamisen, um violão japonês de 3 cordas, "que fazia um belo som mas que era vazio por dentro".

Dizem que o outro motivo que também deixava Motobu irritado era que Funakoshi estava abaixo duas categorias da hierarquia social de Okinawa em relação a sua e, assim, ele decidiu colocá-lo de vez em seu devido lugar.

Conta-se que Choki Motobu (52 anos) adentrou-se no dojô de Gichin Funakoshi (54 anos) em Tokyo e, de cara, o desafiou para um teste de habilidades ou Kake-Damashi. Assim os dois rivais cruzaram as mãos como mandava a tradição.

Ilustração do que teria sido o confronto dos dois mestres
 de To De cinquentões, em meados de 1920.

Decidido não socar Funakoshi em seu próprio dojô, Motobu rapidamente torceu o pulso de seu oponente e o projetou ao chão (Técnica do Gotende?!?). Surpreso, Funakoshi se levantou rapidamente e teria dito para recomeçarem. A situação se repetiu por mais duas vezes para o constrangimento dos alunos do humilhado Funakoshi.

Satisfeito, Choki Motobu se retirou do dojô de Gichin Funakoshi. Dizem que posteriormente Funakoshi se avermelhava envergonhado em somente ouvir o nome de Motobu, a quem ele passou a se referir como  "o analfabeto".

Funakoshi visava principalmente em seu ensino a
formação do caráter de seus alunos.


É sabido que a escola de Karate de Gichin Funakoshi era focada para o desenvolvimento da saúde, do caráter e formação de cidadãos exemplares, não visando necessariamente formar grandes lutadores.

Choki Motobu na verdade desprezava o ensino de Funakoshi e declarava ficar satisfeito em apenas chutar a sua bunda durante o caminho de volta à Okinawa, já que ele considerava o karate de Funakoshi infiel ao "To De" verdadeiro e original de Okinawa.

Choki Motobu ao centro e ladeado por Gichin Funakoshi à esquerda,
com Kenwa Maubni à direita e outros mestres de karate
em reunião no Japão.



Jigoro Kano, o "pai" do Judô (à esquerda), foi o grande responsável
para sucesso e aceitação do Karate de Gichin Funakoshi no Japão.

Mas esse sonho de Motobu nunca se concretizou, pois Funakoshi já tinha feito amizade com pessoas influentes na comunidade das Artes Marciais Japonesas e do governo, como o já citado mestre fundador do Judô e educador, Jigoro Kano.

Quando em certa ocasião Motobu soube que a Confederação Japonesa de Artes Marciais teria concedido a Funakoshi o 5º Dan de faixa-preta (sistema de graduação utilizado para as demais marciais japonesas), Motobu ironizou: "Hahh, o que isso me torna? Um 10º ou 11º dan?!?

Capas em diferentes versões para os poucos e raros
livros sobre o karate de Choki Motobu.


Motobu chegou a editar dois livros de sua arte com o apoio de seu filho Chosei e alunos fiéis antes de regressar frustrado para Okinawa. Ele viveu um pouco mais na sua terra natal antes de morrer, aos 74 anos, em 15 de abril de 1944.

O legado de Choki Motobu foi honrado por seu filho Chosei Motobu (nascido em 1925) e Tatsuo Yamada (um dos seus principais alunos), que "fundaram" o estilo Motobu-Ryu que reunia as principais técnicas utilizadas por Choki Motubu em seu Karate peculiar.  O nome oficial do estilo é Nihon Denryu Heiho Motobu Kenpo.

Choki Motobu em ação...


Para Choki Motobu, o ataque era a melhor defesa...



 
Aplicações do Tekki Shodan (kata) com Motobu.



Considerações Finais  - Apesar de prático e muito efetivo, o karate de Choki Motobu quase foi esquecido se não fosse pelos ardorosos trabalhos de seu filho e alunos fiéis. Já o vistoso Karate Shotokan de Gichin Funakoshi se tornou o mais popular dentre os diversos estilos existentes até hoje. Em resumo, o karate de Funakoshi sempre foi baseado nos Kata e Kihon, com o kumite ou luta sem o contato total e com os golpes controlados.

Choki Motobu e aluno demonstrando algumas técinicas
do Tekki Shodan para algumas jovens.

O karate de Motobu era focado no contato total, baseado na realidade das lutas de rua, com as técnicas de kata sempre direcionadas para a luta real. Mas as formas estavam em segundo plano. E claramente o ponto decisivo que culminou no sucesso de um e o fracasso do outro foi o fator político, o qual Gichin Funakoshi soube utilizar muito bem.

Por Eumário J. Teixeira

28 de mai. de 2022

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Por Eumário J. Teixeira

4 de fev. de 2022

KARATE E SEUS DIVERSOS ESTILOS - A ORIGEM DE TUDO

                           

Grande parte dos karatecas afirma irracionalmente que seu estilo é o melhor de todos, demonstrando a falta de um conhecimento mais amplo sobre as raízes do Karate, muitas vezes camuflado sob uma forte fidelidade ao seu mestre ou escola.

Mas mesmo os Mestres Pioneiros da lendária ilha de Okinawa sabiam que essa ideia de estilos no Karate era falsa, ainda que alguns dos próprios mestres os tenham "fundados".

Okinawa, ilha que faz parte do arquipélago de Ryu Kyu no Oceano 
Pacífico, local considerado o berço do Karate Japonês.

O Karate teria surgido em Okinawa, principal ilha de um arquipélago, outrora o reino independente de Ryu Kyu, que foi anexado ao Japão durante o Governo Meiji, em 1879, apesar da forte oposição chinesa. A ilha era um ponto estratégico para os navegadores e mercadores europeus que buscavam relação comerciais com o Japão, Coréia, China e demais países asiáticos.

Mestre Gichin Funakoshi, considerado o "Pai do Karate Moderno" e
fundador do estilo Shotokan.

Mestre Gichin Funakoshi (1868 - 1957), considerado o pai do Karate Moderno e fundador do "estilo" Shotokan, chegou a dizer: "Não há lugar no Karate moderno para estilos diferentes. Eu escutei pessoas se referindo a mim como do estilo Shotokan, mas eu contesto fortemente essa classificação".

Toyama Kanken, um dos pioneiros do Karate primitivo
de Okinawa.

Mestre Toyama Kanken (1888 - 1966), afirmou: "Karate não tem estilos. Ele simplesmente molda um indivíduo em um objeto de defesa e ataque".

Mestre Chojun Miyagi, tido como o fundador do 
estilo Goju-Ryu de Karate.

Mestre Chojun Miyagi, considerado fundador do estilo Goju-Ryu, declarou: " Existe uma opinião insistente de que o Karate tem estilos diferentes. Eu penso que tal visão é errada, já que não existe nenhuma evidência disso".

Por que então os pioneiros do Karate de Okinawa inicialmente não aprovavam essa ideia de estilos diferenciados de Karate, apesar de cederem à esta visão posteriormente?

Tudo tem a ver com a vinda de uma personalidade esportista e política  japonesa à ilha de Okinawa em 1927. Seria uma visita que mudaria para sempre o destino do Karate.

Treinamento nos tempos da "Mão Chinesa" ou To De em Okinawa.

Na segunda metade da década de 1920, os estilos de Karate não ainda existiam oficialmente e os praticantes de "To De" nas diversas regiões da ilha de Okinawa, com suas variadas influências, partilhavam seus conhecimentos com os parceiros de treinamento a fim de desenvolverem sua própria visão e forma de auto expressão na prática de uma arte marcial em comum, compartilhando técnicas que tinham sua origem na China Continental que abrigava uma multiplicidade de estilos de combate corpo a corpo baseados em movimentos de animais, como  Tigre, Serpente, Garça, Macaco, Dragão, Leopardo, Louva-A-Deus, etc.

Chojun Miyagi, no alto à esquerda, comanda um treino de To De 
em Okinawa, nas fotos acima e abaixo.


Isso se deu numa época em que a palavra "Karate" simplesmente inexistia. O Karate nesses tempos era conhecido como "To Di"  ou "To De" que significa "Mão Chinesa", já que a maioria dos "estilos" praticados em Okinawa era originários da China, mais precisamente das artes marciais praticadas pelos monges do Templo de Shaolin, conhecidos como Kung Fu (e seus diversos estilos) ou Wu Shu atualmente. Mas há evidências fortíssimas que outros países da Ásia (como as Filipinas) e mesmo da Europa (França) contribuíram na formação do Karate de Okinawa com elementos de seus próprios métodos de combate.

Mas essa origem chinesa era um sério problema em 1927, pois o governo japonês queria a modernização e padronização dessa arte marcial praticada em Okinawa  e à todo custo.

Assim uma grande exibição foi preparada na ilha para a recepção da figura ilustre que representava o governo japonês e alguns mestres conceituados foram convocados para fazer a demonstração de "To De" com suas possíveis variações.

O jovem karateca Chojun Miyagi, à esquerda bloqueia 
e desfere um chute baixo no seu adversário.

Um dos escolhidos foi Chojun Miyagi, mais tarde apontado como um dos fundadores do estilo Goju Ryu.

Kyan Chotoku, um dos mais respeitáveis mestres de Okinawa.

Outro especialista a participar do evento foi Kyan Chotoku, um dos mais conhecidos mestres do estilo posteriormente denominado Shorin Ryu.

Kenwa Mabuni, criador do estilo de Karate, Shito Ryu.

O terceiro mestre a se apresentar seria Kenwa Mabuni, hoje reconhecido como fundador do estilo Shito Ryu. 

Eram estes apenas três dos vários especialistas locais do "To De". Denominar as artes marciais locais como "mão chinesa" não seria compatível com a onda de nacionalismo que crescia no Império do Sol Nascente e poderia contrariar as forças políticas antichinesas existentes; assim, os organizadores do evento decidiram intervir.

Foram classificados providencialmente os primeiros "estilos" de Karate supostamente originários de Okinawa. E para remover de vez com a conexão chinesa, passaram a identificar um estilo de acordo com a região de origem do demonstrador.

Naha, Shuri e Tomari, regiões distintas dentro de
uma mesma cidade.

Assim, o mestre Kyan Chotoku que era da região de Tomari, passou a chamar o "seu" Karate, por sugestão dos organizadores do evento, de "Tomari-Te" ou "Mão de Tomari". 

O mestre Chojun Miyagi vindo de Naha, denominou sua arte de "Naha-Te".

E mestre Mabuni Kenwa originário de Shuri, chamou o seu Karate de "Shuri-Te".

Desta forma o Karate passou a ser considerado oficialmente uma arte marcial de Okinawa. É interessante lembrar que as três regiões citadas estavam praticamente situadas na mesma cidade de Naha.

Jigoro Kano, o pai do Judô, político influente e
grande educador do Japão.

Isso tudo foi arranjado para agradar  o convidado ilustre que estava por chegar. Ninguém menos que o mestre fundador do Judô, Jigoro Kano, que tinha importantes ligações políticas com o Governo Japonês e ainda fazia parte do Comitê Olímpico, além de ser considerado o maior Educador do Japão.

A história diz que o mestre Gichin Funakoshi introduziu o Karate em Honshu, a principal ilha do Japão. Mas Funakoshi não foi o primeiro a levar o "To De" ou Karate ao Japão.

Jigoro Kano já era a autoridade máxima do Budô japonês quando a primeira introdução do Karate em Honshu se deu em 1908, por parte de seis alunos da Escola Secundária de Shuri, participando da 10ª Reunião de Demonstrações Marciais da Juventude ou Dai-Ju-kai Seinen Daienbu Taikai.

Essa demonstração se deu após o To De se tornar disciplina obrigatória na Escola Secundária de Shuri. Isso foi no mesmo ano em que o mestre de Okinawa, Anko Itosu, encaminhou seus "10 Preceitos do Karate" ao Ministério da Educação japonês.

Na época, Jigoro Kano era o diretor da Escola Normal Superior de Tóquio (Tokyo Shohan Shihan Gakko), além de comandar o Ministério da Educação.

Em 1910, alunos da Escola Secundária de Shuri e seus principais mestres visitaram o Instituto Kodokan (Casa do Judô) em Tóquio.

Em junho de 1911 acontece um torneio de Judô entre faixas brancas e vermelhas na Escola Normal de Shuri. O evento denominado Kohaku-Shiai criado por Jigoro Kano, já era tradicional no Kodokan e foi adotado na escola de Shuri ainda em 1911, com a aprovação de Anko Itosu.


Choki Motobu, um dos mestres mais temidos de 
Okinawa. Tinha um temperamento difícil, relatam.

O Mestre de Okinawa Choki Motobu (1870-1944) mudou-se para Akasaka, no Japão, em 1921 e, da mesma forma, Gichin Funakoshi migrou para Tóquio, em 1922.

Finalmente em 1927, se deu a visita de Jigoro Kano, fundador do Judô, à Okinawa, onde ocorreu uma demonstração dos mestres locais e o próprio Kano concedeu uma palestra sobre o Judô.

Dois mestres demonstradores, Chojun Miyagi e Kenwa Mabuni, receberam elogios de Kano e isso influenciaria a ida de Kenwa Mabuni definitivamente para o Japão.

Anteriormente, somente em 1921, que o príncipe herdeiro Hirohito em viagem para a Europa e fazendo escala em Okinawa, assistiu uma demonstração organizada por Gichin Funakoshi.

Assim, no mesmo ano, Funakoshi foi convidado a fazer demonstrações de seu Karate em Tóquio, participando de uma exibição esportiva de nível nacional.

Os grandes amigos, Jigoro Kano (judô) e Gichin Funakoshi (karate).
Ambos eram considerados muitos capacitados para o ensino e liderança.



A partir desse evento, ocorreram mais demonstrações regulares no Japão comandadas por Gichin Funakoshi, que acabou aceitando o convite de Jigoro Kano para morar definitivamente em Tóquio, se tornando os dois grandes amigos.

Para combater a resistência inicial do povo japonês que tinha grande preconceito de tudo que vinha de Okinawa, houve mais mudanças. O traje habitual dos praticantes da ilha, foram substituídos pelo tradicional judo-gi branco (ou kimono), que foi adaptado posteriormente para o Karate. Além disso, começou-se adotar o sistema de graduação através de faixas coloridas.

E à medida que esses estilos fizeram a transição de Okinawa para o Japão, chegava o tempo de cortar definitivamente qualquer conexão também com Okinawa, para assim estabelecer de vez o Karate como uma arte marcial legitimamente japonesa, como o Judô, Aikidô e o Kendô.

Os três pilares do Budô japonês: Ueshiba, Kano e Funakoshi.

O primeiro Dojô independente de Karate Shotokan no Japão foi fundado por volta de 1939 pelos alunos mais graduados de Gichin Funakoshi que já estava com 71 anos. O mesmo Dojô seria destruído por um bombardeio durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945.

Após o término da guerra, o Karate (e suas variações) se reergueu e se consolidou como uma autêntica arte marcial japonesa; e os principais alunos de Funakoshi liderados por Masatoshi Nakayama e Isao Obata, fundaram a Nihon Karate Kyokai ou a Japan Karate Association (JKA), em 27 de maio de 1949, a maior e mais respeitada associação de Karate no mundo. 

Foi assim o caminho percorrido pelo Karate de Okinawa até o Japão e desta forma foram criados os primeiros "estilos" que originaram outros inúmeros que conhecemos atualmente.

Quando perguntaram aos mestres nativos de Okinawa como gostariam que seu estilo fosse chamado na década de 1930, Kenwa Mabuni chamou o seu de "Shito Ryu", em homenagem ao seus dois mestres de Okinawa, usando as iniciais de seus nomes,  (Anko) Itosu e (Kanryo) Higaonna. A sílaba "Ito" de Itosu poderia ser lida como "Shi" e a sílaba "Higa" de Higaonna, poderia ser lida como "To". Daí Shito. E "ryu" significa "Escola".

Chojun Miyagi chamou o seu estilo de "Goju Ryu"; onde "go" é traduzido como duro e "ju" como suave. Então Goju Ryu significa "Duro e Suave". 

Gichin Funakoshi passou a chamar seu estilo de Shotokan. A palavra "shoto" pode ser traduzida como "pequeno bosque" ou, segundo algumas traduções, "pinheiros ondulando ao vento". E "kan" pode ser entendido como "casa" ou "escola". Assim, Shotokan poderia ser traduzido como "Casa de Shoto" ou "Escola dos Pinheiros ondulando ao Vento".

Naturalmente todo mestre de "To Di" ou "To De" que migrou para o Japão se submeteu ao mesmo processo de transição,  ainda que essencialmente praticassem a mesma coisa.

 Treino de Karate em frente ao
Castelo de Shuri, em Okinawa, em 1938. 


O Karate de Okinawa antes praticado de forma unificada passou a ser dividido em diversos estilos ou escolas.

Apesar da separação, atualmente ainda se pode observar as semelhanças entre os diversos estilos nos Kata ou Heian (formas), por exemplo. Existem pequenas variações de um estilo para o outro.

E podemos perceber que o Karate esportivo tomou conta do cenário nas últimas décadas pelo mundo e já é considerado um "esporte olímpico", contrariando suas origens de legítima arte marcial e defesa pessoal, por vezes mortal. Há alguma tentativa de tentar resgatar o "Karate Tradicional" e os métodos de treinamento de Okinawa, mas a modernidade é implacável nos tempos atuais.

Ninguém contesta que a origem do To De ou Karate japonês
está no Kung Fu chinês.


Da mesma forma isso ocorreu com o tradicional Kung Fu chinês e seus inúmeros estilos, que foi o principal responsável pelo surgimento do Karate de Okinawa. O Kung Fu, agora padronizado e denominado Wu Shu pelo governo comunista chinês é praticamente controlado e considerado uma simples atividade esportiva de competição limitando o seu real potencial de combate e formação ao público em geral. E a situação se agravou nas últimas décadas com as mortes dos velhos mestres que mantinham e defendiam a tradição de Shaolin.

Conclui-se então, que a ideia dos estilos do Karate japonês não passou basicamente de um "marketing político" para espalhar a arte do Karate e torná-la aceitável e acessível ao povo japonês inicialmente resistente à novidade estrangeira.

O importante aqui é lembrar que o Karateca, o verdadeiro artista marcial, nunca deve permitir que o seu "estilo" ou normas impostas por uma escola ou governo, o limite no seu desenvolvimento pessoal através do "Caminho das Mãos Vazias" ou Karate-Do.

Oss!


Por Eumário J. Teixeira.