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O jovem Muddy Waters (à direita) ainda adepto ao country blues |
Assim quis a história que a data oficial do nascimento do blues, fosse a mesma referida por W. C. Handy, na estação de trem de Tutwiler, o ano de 1903. Mas de qualquer forma o Blues já estava nos trilhos muito antes, independentemente do oportunismo de Handy. É fato que tudo começou ainda no século XIX, quando da chegada dos primeiros escravos africanos às plantações de algodão ao sul dos EUA, onde os negros desenvolveram as works songs para agüentarem o ritmo desumano do trabalho; canções estas que se adaptaram aos hinos religiosos herdados pelos brancos de seus descendentes europeus, transformando-se no gospel típico das igrejas batistas negras, ou seja, vibrante, dançante e cheio de energia, culminando por finalmente no blues herege e maldito, que migrou das plantações nas zonas rurais para as cidades mais importantes do Sul do país.
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Mississipi John Hurt - O blues do Delta |
Após a II Grande Guerra Mundial, já no final dos anos 40, a cidade industrializada de Chicago (Illinois), mais ao norte dos EUA, tornou-se o alvo dos bluesmen vindos do Sul, à procura de fama, dinheiro e mulheres. Chicago passou a ser o celeiro do blues moderno e elétrico, como paralelamente as cidades de Memphis (Tennessee), New Orleans (Louisiana) e Detroit (Michigan) se tornaram pólos alternativos para o gênero. Foi a fase mais importante deste gênero musical, na qual o estilo se consolidou e fez escola, influenciando futuras gerações de músicos das mais variadas correntes musicais.
Nesta época se destacaram nomes como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Willie Dixon, Little Walter, T-Bone Walker, Sonny Boy Williamson II, Elmore James, B. B. King, John Lee Hooker, Champion Jack Dupree, Memphis Slim, Eddie Boyd, dentre outros.
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Howlin' Wolf num "inferninho" em Chicago |
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Little Walter, eletrificou a gaita nos anos de 1950 |
Nos seus 100 nos de vida, o blues lamentou os amores perdidos, a solidão, a pobreza, a injustiça, a discriminação racial e política de forma irônica e rebelde, sem perder a elegância e a dignidade. É o que o mantém no topo, a sua capacidade de ser simples, direto e contundente. Vida longa ao blues!
Dentre muitos eventos foram lançados uma série de documentários em DVD para a comemoração do centésimo aniversário do Blues com direção de nomes consagrados do cinema:
- Feel Like Going Home (From Mali to Mississipi): Diretor Martin Scorsese – Mostra a viagem dos escravos da África para o Delta do Mississipi, onde o gênero foi gestado nos campos de algodão.
- Warning by the Devil’s Fire: Diretor Charles Burnett – Conta as tensões inevitáveis entre dois gêneros, o Gospel das igrejas e o Blues mundano.
- Piano Blues: Diretor Clint Eastwood – Explora a aventura do instrumento pelo Blues, com performances de Ray Charles, Fats Domino, Little Richard e Dr. John.
- Red, White & Blues: Diretor Mike Figgis – Trata da chegada do Blues à Inglaterra e seu retorno triunfal aos EUA, com depoimentos de Eric Clapton, Jeff Beck, Van Morrison, etc.
- Godfathers And Sons: Diretor Marc Levin – Uma viagem por Chicago no passado e presente, do Blues ao Hip-hop. Com performances inéditas de Howlin’ Wolf, Muddy Waters, Paul Butterfield Blues Band e participações de Otis Rush, Koko Taylor, Magic Slim, etc.
- The Road to Memphis: Diretor Richard Pearce – Refaz a odisséia musical de B. B. King, a maior lenda do Blues atual.
- The Soul of a Man: Diretor Wim Wenders – A história passo a passo de três lendas do Blues, Skip James, Blind Willie Johnson e J. B. Lenoir, com materiais e gravações de arquivos e covers inéditas com Lou Reed, Nick Cave, John Spencer Blues, etc.
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Vídeos de Martin Scorsese - Tributo ao blues |
Desde a origem nas work-songs entoadas pelos negros africanos escravizados nas plantações de algodão no Sul dos EUA no século XIX, até o surgimento dos primeiros profissionais ou bluesmen que viviam da música, o celeiro do blues sempre foi o Delta do Mississipi. A partir do século XX, mais precisamente na década de 20, o estilos já diferenciavam-se por regiões e se faziam representar por nomes exóticos como Blind Lemon Jefferson, Blind Willie McTell, Blind Willie Johnson, todos cegos (blind), que se tornaram ídolos dos não menos lendários, Charlie Patton, Eddie “Son” House, Bukka White, Big Bill Broonzy e Robert Johnson, defensores do legítimo blues caipira e artistas populares nos anos 30.
Assim, podia-se ouvir o blues sulista tradicional do Mississipi, como o blues urbano de Chicago ao norte, o estilo apimentado do Texas, a despojada variação de New Orleans e também a escola sofisticada da Costa Oeste. De todos os cantos do país surgiram importantes representantes das várias correntes, destacando-se figuras como Lightnin’ Hopkins (guitarrista texano de country blues), Big Joe Turner (shouter ou berrador, nascido em Kansas City), T-Bone Walker (mestre da guitarra que fez escola), Charles Brown da Costa Oeste e Champion Jack Dupree de New Orleans (ambos pianistas) a partir do final dos anos 40.
Em meados dos anos 50, os já veteranos bluesmen Sonny Boy Williamson II (o gaitista endiabrado), Howlin’ Wolf (o lobo uivador) e Elmore James (mestre de slide-guitar), finalmente começaram a se destacar em Memphis; ao mesmo tempo em que John Lee Hooker (the boogie man) conquistava seu espaço em Detroit.
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A guitarra elétrica deu novo fõlego ao blues |
Pouco tempo depois, na mesma Chicago, mais precisamente no west side (lado oeste), de maioria negra, a partir do final da década de 50, surge uma prole de guitarristas que incendeiam o blues de vez, trazendo mais juventude, vigor e muita garra; entre os destaques dessa nova geração, estão Magic Sam e Luther Allison junto aos texanos Freddie King e Albert Collins (the ice man).
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Muddy Waters, responsável direto pelo blues elétrico |
Nas décadas de 60 e 70 estas lendas da música norte-americana se consagraram em excursões por toda Europa, conquistando o reconhecimento e glórias que não obtiveram no próprio país devido à segregação racial. Alguns foram tão bem acolhidos, que por lá ficaram, tais como os prestigiados pianistas Memphis Slim, Eddie Boyd e o já citado Champion Jack Dupree.
Nos nos 80, 90 e até os dias de hoje, em pleno século XXI, o blues admirado em todo mundo, é reconhecidamente um elemento conciliador, um meio pelo qual se possa unir as pessoas indiferentemente de raças ou credos pelo simples amor à boa música.Seja através de um canto gutural e solitário ou acompanhado por acordes mágicos de uma guitarra, piano ou gaita, o blues sempre se fará ouvir, pois é sedutor e atraente e não costuma passar desapercebido.
Por Eumário José Teixeira.
Oi meu amigo, gostei muito do seu blog, as pessoas carecem de informação de boa música...mais muitos preferem o lixo musical que invade o mundo e que muitas vezes somos obrigados a escutar...sinceramente não sei mais o que de pior vão inventar viu!! Só sei que não compactuo com isso e compartilho do seu bom gosto musical, isso vc já sabe. Um abraço, Jeanne.
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