30 de mar. de 2015

SUSO PEÑA E WALMIR AMARAL – A VERDADE POR TRÁS DO CAVALEIRO NEGRO


Há alguns anos decifrei um enigma que me atormentava desde minha infância. Estou atualmente com mais de meio século de existência, mas a verdade veio finalmente à tona para meu alívio. Desde criança eu curtia as revistas em quadrinhos que me ofereciam uma quantidade sem fim de heróis e super-heróis de diversas origens e formatos que preenchiam, digamos, o meu vazio existencial. Um dos heróis que mais me “fizeram a cabeça” foi o Cavaleiro Negro, um justiceiro que agia no território do Texas usando um lenço para encobrir o rosto, além de vestir roupas negras e uma capa vermelha (estilo Superman). Ele não voava (apesar da capa), mas tinha um cavalo branco que se chamava Satã que o acompanhava em suas aventuras. Como todo herói mascarado que se preze, o Cavaleiro Negro tinha sua identidade secreta, nas horas de “lazer” ele era o pacato Dr. Robledo que morava na cidade de Laredo. Entretanto, seu cavalo também assumia uma uma outra identidade, a de um pangaré que Dr. Robledo chamava de “Moleza”.

Uma versão clássica do Cavaleiro Negro desenhada por Juarez Odilon, e não por Walmir Amaral, como muitos pensam
Bem, além de curtir as aventuras dos meus heróis, eu também me interessava em saber quem as desenhava e as escrevia. Eu tinha o dom para desenho e aprendi a desenvolvê-lo justamente tentando reproduzir as figuras das revistas que eu colecionava. No caso do Cavaleiro Negro, eu tive dificuldade para indentificar de imediato o meu desenhista favorito dentre tantos outros que também desenharam o personagem.
As capas das revistas eram geralmente desenhadas pelo brasileiro Walmir Amaral nos anos de 1970.  Walmir chegou a desenhar algumas histórias do Cavaleiro Negro e assim aprendi a reconhecer seus traços agradáveis e perceber que ainda assim não eram tão atraentes como os do desenhista desconhecido que eu tanto admirava. Deixando claro que Walmir sempre foi um mestre dos quadrinhos para mim.
Outros desenhistas brasileiros como ele, foram subestimados e não tiveram o reconhecimento devido, apesar de uma quantidade extraordinária de trabalhos realizados durante mais de três décadas, como, por exemplo, o cultuado Eugenio Colonnese (italiano de origem, mas brasileiro por convicção) e o mineiro Mozart Couto (profissional desde 1979). Mas graças à internet que proporciona um acesso ilimitado de informações, comecei a pesquisar e visitar sites especializados nacionais e estrangeiros e achei a origem do personagem Cavaleiro Negro, seus principais desenhistas e sua saga aqui no Brasil.

Capas das revistas do Cavaleiro Negro no Brasil e Black Rider nos EUA
A Saga do Cavaleiro Negro – O personagem surgiu na revista All-Western Winners da Marvel Comics em 1948, nos Estados Unidos. Originariamente chamava-se Black Rider, mas ficou conhecido no Brasil como Cavaleiro Negro nos anos de 1960 e 1970 e, posteriormente (numa releitura do personagem), como Black Mask.
A identidade secreta de Black Rider (o original) era Matthew Masters, um fora-da-lei conhecido como Cactus Kid, que fora capturado e perdoado pelo governo com a condição de que abandonasse o crime e as armas, estudasse e se formasse em alguma profissão para viver uma vida pacata e produtiva. A escolha de Masters foi a Medicina. No Brasil, a identidade secreta de Black Rider era Doutor Heron Robledo, que vivia em Laredo e redondezas, no estado do Texas. Na versão americana, a cidade do Doutor Masters era Leadville. Doutor Robledo (ou Masters), era conhecido por ter aversão às armas e, portanto, considerado covarde pelos habitantes de Laredo (ou Leadville), mas em contrapartida, reconheciam-no como um excelente profissional médico.
A fama de covarde era um ótimo disfarce (além dos óculos) para Dr. Robledo agir como um justiceiro mascarado sem causar suspeitas. Ele usava um lenço escuro para encobrir o rosto, além das roupas e chapéu também negros.

Tiras do Cavaleiro Negro publicadas  no Brasil nos anos de 1950 e 1960
Seu “uniforme” de luta lembrava a outro herói pistoleiro muito conhecido da  TV e quadrinhos, o Durango Kid. A  diferença básica entre os dois é que o Cavaleiro Negro usava uma capa negra (que mais tarde se tornaria vermelha como a do Super-homem) e a identidade de Durango Kid era a de um valente Delegado Federal.
Ambos tinham um cavalo branco, o do Dr. Robledo chamava-se Moleza, mas quando seu dono se “transformava” em Black Rider ou Cavaleiro Negro, Moleza (Ichabod, na versão americana) deixava de ser o pangaré para se transformar no corcel fogoso chamado Satã. 

Durango Kid dando uma de Cavaleiro Negro no Brasil
É interessante saber que em determinada temporada, as aventuras do Durango Kid (mais tarde, publicadas pela EBAL) eram apresentadas como se fossem do personagem Black Rider (ou Cavaleiro Negro) no Brasil.
Black Rider fez um grande sucesso no Brasil de 1949 até 1952 na revista Gibi Mensal, publicada pela Rio Gráfica Editora, criado e desenhado pelo ilustrador norte-amercano Syd Shores.

Gringo (ou Ringo) do ilustrador espanhol Suso Peña
Surge Gringo para salvar o Cavaleiro Negro – A  Marvel teria parado com as histórias de Black Rider em meados dos anos de 1960 nos EUA, mas devido ao grande sucesso do personagem no Brasil, a Rio Gráfica Editora (RGE) resolveu improvisar e dar continuidade à revista.
A solução foi maquiar os quadrinhos de um personagem de bang-bang de origem espanhola, chamado Gringo (ou Ringo) conforme a editora publicadora. Assim, foi dado a alguns desenhistas brasileiros a incumbência  de retocarem Gringo, acrescentando-lhe chapéu, roupas e máscaras negras, além de escurecerem seus cabelos, pois o personagem original espanhol era loiro. Apesar das versões de Gringo retocadas, muitas aventuras inéditas do Cavaleiro Negro foram produzidas por artistas nacionais para saciar os fãs do personagem. Os principais artistas brasileiros que desenharam o Cavaleiro Negro foram Milton Sardella, Juarez Odilon, Gutemberg Monteiro e Walmir Amaral.

Exemplo 1 - Ringo retocado se transforma no Dr. Robledo (Cavaleiro Negro) no Brasil

Exemplo 2 - Gringo retocado por Walmir Amaral se transforma no Cavaleiro Negro, para o desconhecimento de Suso Peña, que está retratado por ele mesmo nessa tira cravando a placa do "end"
O autor original de Gringo (ou Ringo) era o ilustrador espanhol Suso Peña, um desenhista de quadrinhos reconhecido em seu país, que dentre outros personagens desenhou também Jeff Blake, o Homem de Pinkerton, que saía na Revista Kung, publicada pela EBAL, nos final dos anos de 1970.

O personagem Jeff Blake, o Homem de Pinkerton, que saiu no Brasil nas Revistas Kung Fu da EBAL nos anos de 1970, também foi desenhado por Suso Peña
Assim, finalmente descobri o nome do meu desenhista preferido de o Cavaleiro Negro, que era na verdade, o espanhol Suso Peña. Não sei se Peña teve conhecimento que seu personagem Gringo sofria retoques dos desenhistas brasileiros, de qualquer forma seu trabalho foi reconhecido por aqui, ao menos por mim.

Algumas capas da Revista Cavaleiro Negro desenhadas por Walmir Amaral que foram publicadas
no Brasil nas décadas de 1960 e 1970
O desenhista brasileiro que mais desenhou o Cavaleiro Negro (de minha preferência), seja retocando os desenhos de Suso Peña ou criando suas próprias estórias, foi Walmir Amaral. A maioria das capas das revistas do Cavaleiro Negro nos anos de 1970 foram desenhadas por Walmir, assim como as capas e mesmo algumas aventuras de outros personagens consagrados como Fantasma, Mandrake, O Vingador, Zorro (de capa e espada) e outros, todos pela RGE.

O mestre espanhol da ilustração,  Jesús de la Peña Santiago Rego
Suso Peña – Jesús de la Peña Santiago Rego, nasceu em Ribadeo en 02 de junho de 1941. Depois de servir o serviço militar no corpo de paraquedistas, trabalhou no chamado Grupo de la Floresta, uma equipe de ilustradores debutantes quem em 1967 instalou um estúdio num chalet de La Floresta, em Barcelona. O grupo era formado por Suso, Adolfo Usero, Ramón Torrents, Esteban Maroto, Luis García e Carlos Giménez. Suso compartilhou muitos trabalhos com o grupo de la Floresta e dando continuidade à sua carreira, desenhou para Sellecciones Ilustradas ; pela agência Josep Toutain teve seus trabalhos publicados na Alemanha; pela Editora editora Fleetway seus traços foram apreciados na Grã-Bretanha; e, em seguida, pela editora norte-americana Warren Publishing, desenhou para revistas especializadas em quadrinhos de terror. Nos anos de 1980, Suso abandonou as hqs para dedicar-se à fotografia, desenho gráfico e, nos anos de 1990, à realização de infografias e desenhos de páginas para a web.

Suso Peña em seu estúdio
Suso de la Peña faleceu em 02 de fevereiro de 2005, aos 64 anos, na sua cidade natal, Ribadeo. Em 4 de fevereiro de 2006, foi inaugurado um centro de exposição com seu nome no bairro de San Lázaro, em Ribadeo.

Cartaz celebrando os 10 anos da morte de Suso Peña
Dentre seus trabalhos mais famosos, se destacam: Cinco x Infinitus (em Delta 99, 1968); Safari en África (em Gran Pulgarcito, 1970); Gringo (em Gringo, 1970); La Cobra de Rajasthan/Aventuras en la Selva (em Trinca, 1971); La Saga de las Víctimas (em Dossier Negro, 1975); Jeff Blake, el Hombre de Pinkerton (em Kung Fu, 1977); e Wheeler (em Avui, 1983).

Walmir Amaral, a lenda viva dos quadrinhos nacionais
Walmir Amaral – O lendário desenhista brasileiro nasceu em 1939, no Méier, na cidade do Rio de Janeiro, em plena Segunda Guerra Mundial. Aos 15 anos já desenhava estórias em quadrinhos pornográficas para consumo próprio, já que (por ser menor) não podia adquirir as famosas revistinhas desenhadas por Zéfiro nas bancas, naquela época. Precoce em tudo, aos 17 anos, namorava com uma mulher mais velha que coincidentemente era secretária de um alto funcionário da Editora Rio-Gráfica (mais tarde, Editora Globo) nos anos de 1960. Ao ver seus desenhos, ela o indicou e ele logo foi contratado pela editora. Foram mais de 30 anos de sucesso desenhando histórias e capas para as mais diversas revistas. 
O Zorro desenhado por Walmir Amaral pela Editora Abril

Heróis dos quadrinhos que passaram pelos traços marcantes de Walmir Amaral: Cavaleiro Negro, Fantasma,  O Vingador, Cavaleiro Fantasma, Mandrake e Flecha Ligeira


Para citar alguns heróis em quadrinhos que passaram por seu traço inconfundível, podemos citar  o Cavaleiro Negro, Fantasma, Mandrake, Vingador, Cavaleiro Fantasma, Flecha Ligeira, etc. Walmir doou quase todo o seu acervo e originais para alguns fãs, para ele a era dourada das hqs já passou e não vê nenhum futuro promissor para os quadrinhos atualmente. Hoje em dia, Walmir produz material didático para CCAA, e também faz camisetas, banners e folhetos para blocos de carnaval. O mestre do desenho, Walmir Amaral, está atualmente com 76 anos.

O Fantasma numa versão caprichada para capa de Walmir Amaral
Walmir Amaral em foto recente

Por Eumário J. Teixeira

22 de fev. de 2015

PELA MPB DE QUALIDADE, POIS NÓS SOMOS O QUE ESCUTAMOS !


Estamos em 2015, um ano que promete ser difícil para a maioria dos brasileiros, graças à onda que está varrendo o mundo todo e que finalmente nos atingirá definitivamente como um tsunami avassalador. E o que essa onda nos traz? Ela nos traz mais corrupção, desemprego, fome, desespero, mediocridade, valores  descartáveis, banalidade, anarquia, violência gratuita, falta de fé e todo o que destrói os valores primordiais que compõem a cultura e identidade de um país soberano, independente e saudável. O Brasil se mostrou dividido nas últimas eleições, não que a oposição derrotada fosse fazer milagres, mas se não tínhamos opção, dos males o menor. Agora não tem volta, ainda sem liderança, não temos direção e pelo que se vê, tá tudo dominado, observem a Argentina e a Venezuela. Por aqui a mídia também está vendida e controlada, TV, rádios e jornais, todos manipulados. A qualidade da programação dedicada à distração e informação dos cidadãos são de péssima qualidade e, eu me pergunto, onde estão os grandes artistas nacionais que tanto se manifestaram no chamado regime militar? Sumiram da mídia porque não lhes dão espaço ou simplesmente os mesmos preferem descansar em berço esplêndido? De qualquer forma, estamos carentes de bons políticos, escritores, intelectuais  e cabeças pensantes em geral. Até o futebol foi afetado, como esquecer da vergonha da seleção (de mercenários chorões) no “mineiraço”? Há pouco estava assistindo uns antigos vídeos de Zé Keti  e Cartola na TV Cultura...meu Deus, que simplicidade e sinceridade, que beleza, a música daqueles artistas do saudoso e verdadeiro samba. O samba com poesia, melodia, que saudades! Podem me chamar de velho saudosista, mas uma coisa puxa a outra e continuei com o garimpo e capturei na internet um show do compositor, músico e cantor mineiro, Lô Borges...parece surreal, algo que não cabe mais nesse mundo. Pura genialidade é o som  de Lô Borges e sem falar do mito Beto Guedes, Milton Nascimento, etc. Qual o espaço que esses caras tem hoje em dia? Tudo bem que estão velhinhos, sem o mesmo vigor e voz, mas, quem pode superá-los hoje em dia, em termos de conteúdo e qualidade de obra? Mas, aí você me pergunta: quem é que está se lixando para a qualidade e conteúdo de alguma coisa? Eu respondo: Se o mundo e a realidade se resume no que vemos na TV, a resposta é ninguém! 

Os incríveis mineirinhos: Lô Borges e Beto Guedes
Eu me lembro que comecei a perceber um certo movimento conspiratório da mídia no início dos anos de 1990, quando começaram a diminuir o espaço de artistas clássicos da MPB para supostos artistas populares com seus ritmos contagiantes. E dá-lhe lambada, axé, carimbó; e mais tarde as primeiras duplas sertanejas, sertanejo universitário, berranejo, uma praga inesgotável; a seguir, pagode, pagode universitário (?!), funk da lacraia, arrocha, e logo não se podia diferenciar o que era pagode, lambada, arrocha, um verdadeiro caos que agora se apresenta como música popular brasileira; pois não é isso o que se toca nas rádios e TVs? Se nós somos o que comemos, então também somos o que escutamos. E o diagnóstico não é dos bons. Toda essa situação e expectativa que vivemos, está refletida em nossa cultura, sempre foi assim, é como um sinal nos céus, aprenda ler os sinais e ele te mostrará se vai chover, fazer sol, gear, etc. Os sinais atualmente indicam tempestade e escuridão. Se os jovens de hoje procurarem reagir, parar para pensar, racionar, escutar e observar em sua volta o que está acontecendo vai perceber que as coisas podem melhorar se eles próprios cavarem sem preconceitos as coisas boas do passado, como a boa música, a boa literatura, os bons filmes, a boa política, os bons modos, daí vão ter um parâmetro do que estão sendo obrigados a consumir hoje em dia sem questionamentos forçadamente pela mídia global corruptora e maléfica. A molecada perdeu o norte, estão à deriva e mal perceberam ainda que estão sendo tocados como uma boiada para o matadouro. Onde está Chico Buarque de Holanda, um comunista assumido, que tanto compôs pérolas da MPB, o que ele está achando do cenário político atual, será que está satisfeito?; Caetano Veloso já manifestou sua decepção e um certo arrependimento; Milton Nascimento não se manifesta; Belchior se exilou; não ouvimos falar mais de Ednardo; Fagner continua lutando bravamente ao lado de Zé Ramalho para manter as raízes nordestinas; Luiz Gonzaga e Dominguinhos agora só saudades; Cartola, Zé Keti, Jamelão, lendas inesquecíveis do verdadeiro samba que Paulinho da Viola discretamente mantém vivo; Nelson Gonçalves e Altemar Dutra, vozes imortais; e Beto Guedes e Lô Borges, mineiros surreais, gênios subestimados até hoje. Apesar da tendências políticas duvidosas de um ou outro desses artistas citados, não há como negar que eles estão fazendo muita falta nessa atual conjectura. Os que estão vivos poderiam retornar unidos num mutirão de resgate cultural da boa e verdadeira MPB, quem sabe, ainda há esperanças para uma reeducação nacional. Agora, acima desse movimento, talvez utópico, tem que estar o Deus Criador, porque só nos resta um milagre!

Capas de discos (hoje cds) clássicos e imperdíveis da verdadeira MPB
Ops: Eis uma lista de pesquisa para os desavisados ou mal informados. Procurem na Internet textos biográficos e vídeos de shows, downloads de cds ou documentários sobre esses caras, músicos, compositores e cantores nacionais, alguns já mortos outros ainda resistindo, do nosso Brasil tão maltratado ultimamente em termos culturais:

- Abel Ferreira – Músico clarinetista e compositor
- Alceu Valença – Cantor e compositor
- Altamiro Carrilho – Músico flautista e compositor
- Banda de Pau e Corda – Banda regional de vocais elaborados e instrumentais sensíveis e apurados


- Banda de Pífanos de Caruaru – O nome já diz tudo, imperdível
- Belchior – Cantor e excelente compositor
- Beto Guedes – Cantor, multi-instrumentista, compositor de rara sensibilidade
- Bola Sete – Exímio violonista
- Caetano Veloso – Cantor e compositor respeitado por gerações distintas
- Chico Buarque – Cantor e compositor influente politicamente
- Cartola - Cantor, compositor, músico, poeta, gênio
- Clube da Esquina – Grupo formado em Minas Gerais por músicos como Milton Nascimento e Lô Borges


- Conjunto Época de Ouro – Conjunto instrumental da melhor qualidade que teve em seu elenco Jacob do Bandolim, Déo Rian, Dino, etc.
- Demônios da Garoa – Representantes legítimos do samba despretencioso e divertido de São Paulo
- Déo Rian – Excelente bandolinista, participou do Conjunto Época de Ouro
- Doces Bárbaros – Grupo formado por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Gosta e Maria Betânia
- Fagner – Cantor e compositor de inúmeros sucessos
- Gal Costa – Excelente cantora de repertório rico
- Gilberto Gil – Cantor, músico e compositor de muita influência
- Jacob do Bandolim – Músico dos mais respeitados pelos colegas
- Jamelão – Cantor de samba clássico de muitos sucessos


- João do Vale – Cantor eclético e muito respeitado pelos colegas
- Lô Borges – Cantor, compositor e multi-instrumentista de rara criatividade
- Luiz Gonzaga – Simplesmente o rei do baião, do legítimo forró, arrasta pé...
- Maria Betânia – Excelente cantora de voz incomum
- Milton Nascimento – Cantor, compositor e instrumentista reconhecido mundialmente
- Moraes Moreira – Cantor e compositor de frevo e músicas típicas


- Nelson Cavaquinho – Instrumentista dos mais respeitados da velha guarda
- Nelson Gonçalves – Excelente cantor e intérprete de voz grave rara
- Nelson Sargento – Sambista tradicional, compositor e exímio violonista
- Paulinho da Viola – Mestre, cantor, compositor, multi-instrumentista, sem palavras
- Pixinguinha – Multi-instrumentista de chorinho e jazz, consagrado aqui e no exterior
- 14 Bis – Banda pop com vocais elaborados e instrumental afiado


- Quinteto Violado – Banda regional de vocais elaborados e instrumentais de primeira
- Tim Maia – O rei da música soul brasileira
- Waldir Azevedo – Músico, compositor, rei do chorinho, inigualável
- Zé Ramalho – Cantor, violonista, compositor e criador de um estilo que une o rock ao forró
- Zé Keti – Cantor e intérprete, representante dos mais nobres da velha guarda do samba tradicional

Tem muito mais, é claro, os caras da Bossa Nova como Tom Jobim e Nara Leão, a Jovem Guarda de Roberto e Erasmo, vários ficaram de fora, mas não dá para listar todos, seria covardia.

Por Eumário J. Teixeira.

GARY CLARK JR., A GRATA PROMESSA DE UMA VIDA LONGA AO BLUES ROCK


Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan podem finalmente descansar em paz e esperar pelo julgamento final; e Eric Clapton, se quiser, pode se aposentar com o sentimento de dever cumprido e aguardar pela hora derradeira, porque o blues-rock  está mais vivo do que nunca.  O papel de revitalização que foi dado ao gênero por Stevie Ray Vaughan nos anos de 1980, agora foi transferido para um texano, de Austin, um afro-americano chamado Gary Clark Jr. O surgimento de Gary Clark Jr. é ainda mais relevante se considerarmos também o recém falecimento de outro guitarrista veterano do Texas, o inesquecível Johnny Winter.
O mundo pode até entrar em colapso em 2015, mas é certo mesmo assim o guitarrista, vocalista e compositor, Gary Clark Jr., vai detonar nos palcos devolvendo a esperança para os milhões de fãs do bom e velho, mas renovado blues-rock texano.  O cara tem apenas 31 anos e só está no começo...e o hit "When My train Pulls In" tá detonando no mundo inteiro.
Que Deus o proteja e o mantenha fiel a esse gênero musical que resiste bravamente às tempestades, indo contra toda essa onda descartável e podre que se escuta mundo afora.
Vida longa à Gary Clark Jr. e ao  seu blues, recheado de rock & roll e soul!!!


Capa do cd Blak and Blu

Capa do cd Live
Corram atrás dos cds: Blak and Blu, de 2012 e Live, de 2014. Posteriormente postarei uma pequena biografia de Gary Clark Jr.

Por Eumário J. Teixeira

4 de jan. de 2015

ROCKY MARCIANO, A ROCHA DE BROCKTON


Existiu verdadeiramente dois boxeadores campeões com a alcunha de  “Rocky” na vida real, um na categoria dos pesos médios e o outro na categoria dos pesos-pesados. O primeiro foi Rocky Graziano (Thomas Rocco Barbella, 1922-1990), campeão mundial dos pesos médios (de 1,70m) entre 1947 e 1948 (com 67 lutas, 52 vitórias, 10 derrotas e 5 empates), temido pelo seu gancho de esquerda e ferocidade ao lutar e que foi um dos grandes (junto a Jake La Motta) a tentar tirar o título do lendário lutador “bailarino” Sugar Ray Robinson; o segundo foi certamente quem inspirou Silvester Stallone  a criar o personagem para o cinema “Rocky Balboa”, nada menos que o campeão invicto dos pesos-pesados de 1952 a 1956, dono de um gancho de direita sobrenatural, o invencível e temido, Rocky Marciano! É sobre ele que dedico essas linhas a seguir.

Rocky Marciano, The Brockton Blockbuster
Como tudo começou – Rocco Francis Marchegiano, o futuro campeão do mundo, nasceu em 1º de setembro de 1923 no sul da cidade de Brockton, Massachussets. Era Filho de Pierino Marchegiano (operário de uma fárica de sapatos e ex-combatente da primeira guerra mundial) e Pasqualina Picciuto (típica dona de casa italiana), ambos imigrantes italianos. Rocco tinha ainda dois irmãos, Peter e Louis e três irmãs, Alice, Concetta e Elizabeth. Segundo  conta a história, o pequeno e frágil Rocco contraiu pneumonia e quase morreu quando tinha apenas 18 meses de idade. Em sua juventude praticou beisebol com seu irmão e David Rooslet (um amigo do bairro) e levantamento de pesos com equipamentos feitos em casa. Ele também improvisou um saco de pancadas com um malote dos correios recheado que suspendia numa árvore no quintal em sua casa para praticar socos. Ele estudou na Brockton High School onde jogou tanto beisebol como futebol americano. Entretanto, Rocco foi cortado do time de beisebol da escola porque havia ingressado na liga da igreja, violando assim a regra da escola que proibia seus jogadores de se juntar a outras equipes. Rocco largou os estudos após completar a oitava série. Em março de 1943, Rocco Marchegiano foi convocado para o exército por um período de dois anos. Ele começou a servir o exército em Swansea, País de Gales e encerrou o serviço militar em março de 1946 em Fort Lewis, Washington.

Rocky e seu experiente treinador, Charley Goldman
Boxe no Exército - Enquanto aguardava a alta do serviço militar, Rocco, representando o exército, ganhou o Torneio de Boxe Amador das Forças Armadas, em 1946. Sua carreira amadora foi interrompida em 17 de março de 1947, quando Rocco entrou no ringue contra um lutador profissional. Naquela noite ele nocauteou Lee Epperson em três assaltos. Mas, indo contra a corrente, Rocco voltou para a competição amadora e lutou no Torneio de Luvas de Ouro do All-East Champhionship, ainda em março, quando foi batido por Coley Wallace. Ele continou a lutar como amador por toda a primavera e competiu nas AAU seletivas olímpicas, no Boston Garden, onde nocauteou George Mclnnis, mas acabou machucando a mão seriamente durante a luta e foi forçado a abandonar a competição. Essa seria a sua última luta amadora. No final de março de 1947, Rocco e alguns amigos foram para Fayetteville, Carolina do Norte, para tentar a sorte no Fayetteville Cubs, uma organização que selecionova talentos para o time de beisebol do Chicago Cubs. Após três semanas de processos seletivos, Rocco foi cortado. Não conseguindo sorte para ingressar no beisebol,  Rocco volta para Brockton e começa a treinar boxe com o incentivo do velho amigo (também ítalo-americano), Allie Colombo. Vendo certo potencial em Rocco, os empresários Al Weill e Chick Wergeles conseguiram que ele fosse refinado pelo conceituado treinador, Charley Goldman.

Rocky nunca negligenciava os treinamentos, sua resistência e força física eram impressionantes
As Primeiras Lutas como Profissional - Mesmo tendo uma luta profissional em seus registros (contra Lee Epperson), Rocco Marchegiano, começou a lutar consistentemente como um pugilista profissional em 12 de julho de 1948.  Naquela noite, ele ganhou de Harry Bilizarian por nocaute. Rocco ganharia suas primeiras 16 lutas por nocaute, todas antes do quinto assalto, sendo que nove dessas lutas antes do primeiro assalto ter terminado. Don Mogard se tornou o primeiro boxeador a resistir 10 assaltos programados com “The Rock”, mas a vitória de Marciano foi por decisão unânime dos árbitros. No início de sua carreira, Rocco mudou a grafia de seu nome italiano “Rocco Marchegiano”, porque o apresentador de ringue em Providence, em Rhode Island, não conseguia pronunciar seu sobrenome, então decidiram “ajeitar” um pseudônimo por sugestão de Al Weill. A primeira sugestão foi “Rocky Mack”, imediatamente rejeitada por Rocco, que decidiu ficar com “Marciano”, que tinha uma sonoridade mais italiana. E ele parecia mesmo “uma rocha das mais duras vindo de marte”. Assim, Rocky Marciano ganhou mais três lutas por nocaute, mas em seguida, ele se deparou com Ted Lowry, que, conforme muitos testemunhos, tinha ganhado três ou quatro assaltos de Rocky naquela noite. De qualquer maneira Rocky manteve sua série de vitórias ao derrotar Lowry por decisão unânime. A seguir vieram mais quatro vitórias seguidas por nocaute, inclusive a luta de cinco rounds ocorrida em 19 de dezembro de 1949 contra Phil Muscato, um peso-pesado experiente de Buffalo, Nova York, e o primeiro “boxeador de nome” que Rocky enfrentou.
                 
O primeiro Susto e Lutas importantes - Apenas três semanas após essa luta, o novo palco é o Madison Square Garden de Nova York em 30 de dezembro de 1949, onde Rocky enfrenta e bate Carmine Vingo com um nocaute no sexto round que quase levou Vingo à morte. Após essa luta Rocky teria começado a  considerar os riscos de sua profissão. Carmine Vingo entra em coma após ser nocauteado por Rocky e é levado às pressas ao hospital. Após alguns dias de expectativa e muitas orações, inclusive por parte de Marciano, acontece a recuperação total de Vingo, sem sequelas. Posteriormente ambos ainda apertaram as mãos, aliviados.

Carmine Vingo após um bom início de luta, começa a se assustar com os golpes contundentes de Rocky
Após ser nocauteado por Rocky, Vingo entra em coma e entra num processo angustiante de recuperação,
mas no final, graças à Deus e as orações por parte de Rocky, amigos e familiares , tudo acaba num aperto de mãos
Em 14 de março de 1950, Rocky enfrentou Roland La Starza, vencendo por decisão dividida. La Starza pode ter sido o único boxeador a ter a oportunidade de ter derrotado Marciano na carreira profissional. A pontuação foi equilibrada para ambos os lutadores, mas Rocky foi favorecido por um sistema de ponto suplementar adotado por New York e Massachusetts, na época. O sistema geral adotado não concedia um ponto extra para um nocaute técnico e Marciano teria nocauteado La Starza durante a luta, apesar dele ter se recuperado antes da contagem final do árbitro no ringue. Ambos os lutadores estavam invictos até essa luta, com La Starza sustentando um recorde de 37 vitórias, sem nenhum empate ou derrota.
Na sequência, Rocky Marciano ganhou mais três lutas seguidas por nocaute, em seguida enfrentou Ted Lowry, numa revanche, vencendo-o novamente por decisão unânime. Depois disso ele ganhou mais quatro confrontos por nocaute, e, depois de uma vitória sobre Red Applegate, em abril de 1951, sua luta contra Rex Layne, a quem nocauteou no sexto round, foi o seu primeiro confronto a ser exibido pela TV em rede nacional em 12 de julho de 1951.

Rocky nocauteia seu ídolo, Joe Louis, e adquire credibilidade para a disputa do título mundial
A Luta Decisiva contra Joe Louis, o Demolidor de Detroit - Em 17 de outubro de 1951, surge a grande oportunidade para ser considerado um sério candidato ao título mundial, quando aos 28 anos aceitou enfrentar o lendário ex-campeão dos pesos-pesados, Joe Louis, que planejava retornar aos ringues e recuperar o título. Marciano não desprezou tal oportunidade, mesmo tendo Joe Louis como seu ídolo maior no boxe. Numa luta dura, Rocky não achava Louis que era visivelmente mais rápido e técnico, mas que sentiu o peso da idade com o passar dos rounds, favorecendo assim ao vigoroso Rocky que  o venceu por nocaute no oitavo round, fazendo com que Joe Louis se aposentasse definitivamente. Marciano  não sabia se lamentava ou comemorava a histórica vitória.

Rocky conforta Joe Louis, o Demolidor de Detroit, após o incrível combate em 1951
Em seguida, depois de mais quatro vitórias, incluindo as lutas contra Lee Savold e Harry Matthews, Rocky recebeu finalmente a oportunidade de disputar o título.

Rocky atropela o campeão Jersey Joe Walcott e toma seu título em 1952
A Luta pelo Título Mundial - Rocky Marciano, aos 29 anos de idade, enfrentou o então campeão mundial dos pesos pesados, de 38 anos, Jersey Joe Walcott. O grande evento se realizaou na cidade de Filadelfia, em 23 de setembro de 1952. Walcott fez Marciano cair de Joelhos no primeiro round (apesar dele ter se recobrado imediatamente) e começou a acumular pontos durante os equilibrados rounds que se seguiram; mas, no décimo terceiro round, quando Walcott  fintou para jogar sua pontente direita, Marciano que aguardava friamente pela oportunidade, disparou a “Susie Q” (seu gancho mortal de direita), fazendo com que Walcott caísse de joelhos com seu braço sobre as cordas. Walcott assim ficou até a contagem final do árbitro e, assim, surgiu o novo campeão mundial dos Pesos Pesados, Rocky Marciano, “the Brockton Blockbuster”. 

O campeão, o cinturão e a consagração popular
Marciano com altura de apenas 1,80 m e não mais que 85 quilos, aparentemente não tinha atributos físicos para ser um peso-pesado, mas demonstrou, até então, possuir uma impressionante resistência física, uma capacidade ímpar para absorver golpes e uma força quase sobrenatural nos seus golpes, principalmente os aplicados com a mão direita. E Rocky nunca recuava, sempre tomava a iniciativa partindo para a cima, acuando, pressionando, até conseguir seu intento.

As Duras Defesas do Título Mundial - Sua primeira defesa do título, veio um ano depois, numa revanche contra Walcott, agora com 39 anos, que desta vez foi nocauteado no primeiro round. Rocky confirmava para quem duvidasse, que merecia, de fato, o cinturão mundial dos pesos-pesados.
A próxima defesa foi contra Roland La Starza, em setembro de 1953, a quem já havia enfrentado e vencido por decisão dividida anteriormente.  Depois de estar levando uma pequena vantagem por pontos no decorrer da luta, Marciano consegue impor a La Starza um nocoute técnico no décimo primeiro round, conseguindo assim mais uma vitória, dessa sem contestatação.

Roland La Starza não teve folga no segundo confronto contra Rocky e beijou a lona
Ezzard Charles bem que resistiu, mas perdeu duas seguidas para "the rock"
Depois vieram duas lutas seguidas contra o ex-campeão dos pesos-pesados, Ezzard Charles, considerado uma lenda viva do boxe, de 33 anos. Ezzard foi o único boxeador que resistiu aos golpes de Rocky por 15 assaltos. Mas no final a vitória, em 17 junho de 1954, de Marciano foi incontestável por pontos. Na segunda luta, em 17 de setembro do mesmo ano, Rocky torna a vencer Ezzard, desta vez por nocaute no oitavo round. A próxima luta de Rocky foi contra o campeão britânico e europeu, Don Cockell, que marciano nocauteou no nono round.

Rocky Marciano fechou com "chave de ouro" sua carreira invicta contra o perigoso Archie Moore
O Último Combate - A última grande batalha de Rocky Marciano nos ringues, foi contra o veterano de 38 anos, Archie Moore, em 21 de setembro de 1955. Moore conseguiu fazer com que Marciano dobrasse os joelhos no segundo round, mas após uma breve contagem de quatro, Rocky se levanta e se recupera partindo para cima de Moore, que bravamente resistiu à saraivada de golpes de “The Rocky”, que finalmente o nocauteia no nono round e mantém o seu título invicto.

A Aposentadoria Invicta, embora precoce - E após considerar os riscos de sua carreira como boxeador, as decepções com as trapaças inerentes ao mundo do boxe profissional, e principalmente de seu afastamento nos últimos anos de sua esposa, que na época sofria de câncer e de seus filhos que mal tinham contato com o pai devido aos compromissos que lotavam a sua agenda, Rocky decide se aposentar dos ringues invicto como profissional, com 49 lutas e 49 vitórias, sendo 43 delas por nocaute, aos 32 anos, um feito até hoje nunca igualado por nenhum boxeador profissional. 

Rocky com sua esposa Barbara Cousins e sua filha  Mary Anne
Marciano convocou uma coletiva de imprensa e anunciou sua retirada em 27 de abril de 1956. Rocky considerou retornar em 1959, quando Ingemar Johansson ganhou o título dos pesos- pesados  contra Floyd Patterson em 26 de junho de 1959. Mas depois de apenas um mês de treinamento em quase quatro anos de inatividade, Marciano desconsiderou definitivamente sua volta aos ringues. Após sua aposentadoria, Rocky decidiu explorar o mundo da televisão e Hollywood, apresentando programas relacionados ao boxe e esportes. 


Rocky e seu círculo de amizade com celebridades da época: Frank Sinatra, Louis Armstrong, Marlon Brando e o comediante Jerry Lewis
Chegou a atuar como árbitro em lutas de Wrestling, já que ele chegou a ser um lutador na modalidade na escola. Marciano continuou como  árbitro e comentarista de lutas de boxe televisionadas por muitos anos. Foi assediado por celebridades da época na música e cinema, como Louis Armstrong, Frank Sinatra, os atores Marlon Brando, Dean Martin e o comediante Jerry Lewis, com quem fez parcerias hilárias. Explorou o mundo dos negócios com o parceiro e vice-presidente do Papa Luigi Spaghetti Dens, uma empresa de franquias com sede em San Francisco.

The Super-Fight: Na simulação, Rocky Marciano vence Muhammad Ali
A Super-Luta contra Muhammad Ali - No final de julho de 1969, pouco antes de sua morte, Marciano  participou das filmagens de uma luta imaginária, The Superfight: Marciano versus Ali. Em meados da década de 1960, um promotor de lutas de boxe de Miami tinha um programa de sucesso sobre lutas imaginárias entre campeões do passado. Assim, ele jogou os dados num computador sobre as principais características dos mais recentes campeões dos pesos-pesados (apesar de pertencerem a gerações diferentes), Rocky Marciano e Muhammad Ali, para simular um confronto entre ambos. Os dois campeões na época estavam inativos, Rocky já estava aposentado desde 1956 e Muhammad Ali, se encontrava suspenso e com o título de campeão cassado por ter se recusado ao alistamento militar e a lutar na Guerra do Vietnã, desde 1967. Os dois ex-campeões foram convencidos a encenar a luta com o resultado final já previsto pelo computador. Com certeza os dois estavam precisando de publicidade na época e era uma boa oportunidade de atrair os holofotes. Rocky (um pouco flácido e usando uma peruca) e Ali (sem estar na forma ideal) foram filmados fazendo sparring, sem por força nos golpes e “fazendo sombra”. Em seguida o filme foi editado demonstrando a luta hipotética como se  cada um estivesse em seu auge profissional. A filmagem foi ao ar em 20 de janeiro de 1970, segundo alguns, com duas versões; uma que mostra Ali como vencedor e a outra que teve Rocky como vitorioso no embate. O filme foi exibido em 1.500 salas de cinema nos EUA e Europa e no canal de TV, Wide World of Sports da ABC. Dizem que, posteriormente, todas as cópias foram destruídas, mas é possível ver uma versão no youtube com a vitória de Rocky Marciano. Quando perguntaram a Rocky se ele poderia ter vencido Ali numa luta real, ele respondeu: “Eu poderia ser considerado vaidoso se dissesse que podia, mas estaria mentindo se eu dissesse que não podia”. Quando perguntado a Ali sobre a vitória de Rocky na simulação, ele respondeu brincando e insinuando que seria uma armação racista: “Isso deveria ter sido feito num computador do Mississipi”. A verdade é que depois de Rocky Marciano, a categoria dos pesos pesados foi dominada pelos afro-americanos e muitos diziam que a “simulação” serviria como um “saudosimo racista” pelos caucasianos americanos e europeus. O engraçado é que até hoje muitos acreditam que a luta e resultado foram reais e outros, que tudo foi feito por computação gráfica, pasmem, em 1969! Muhammad Ali teria se arrependido da farsa pouco depois, apesar de admitir que teve uma boa impressão e desenvolvido uma boa amizade com Rocky Marciano durante as filmagens.

O avião fretado por Rocky Marciano colide com árvores num campo próximo a Newton, Iowa, em 1969
A Trágica Morte e o Nascimento de uma Lenda - Em 31 de agosto de 1969, na véspera de seu 46º aniversário, Marciano era um passageiro do pequeno avião particular, um Cessna 172, com destino a Des Moines, Iowa. Era noite e estava chovendo forte. O piloto, Glenn Belz, segundo consta, ainda não tinha horas de vôo suficientes e não era certificado para voar naquelas condições metereológicas guiado pelos instrumentos. Ao perceber que não tinha a mínima condição de prosseguir com o vôo, Belz resolveu baixar a altitude e tentar pousar num pequeno aeródromo próximo a Newton, Iowa. Na manobra arriscada e sem visibilidade, o avião bateu  em uma árvore a duas milhas próximas da pista pretendida. No trágico acidente, além de Rocky Marciano, no impacto morreram Belz e Frankie Farrel, de 22 anos, filho do mafioso italiano, Louis Fratto. Rocky Marciano estava em um jantar em Chicago, na casa de Andy Granatelli, quando foi convidado de última hora para fazer um discurso numa festa de aniversário surpresa para um amigo. Ele esperava chegar ainda pela manhã em sua casa para a festa de seu próprio aniversário preparado por sua esposa. Marciano, agora uma lenda do boxe, foi sepultado no cemitério Forest Lawn Memorial, em fort Lauderdale, na Florida. A esposa de Rocky, Barbara Counsins, faleceu de câncer cinco anos após a morte dele, na idade de 46 anos. O pai de Rocky faleceu em março de 1972 e sua mãe, em janeiro de 1986. A filha de Rocky e Barbara, nascida em 1950, Mary Anne, faleceu aos 58 anos em 2008. O filho adotado em 1952, Rocco Kevin Marciano, ainda está vivo.

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A versão de Rocky Marciano por Silvester Stallone, em 1976: Rocky Balboa
Inspiração para o Cinema - Rocky Marciano foi a inspiração para Sylvester Stallone ter criado o personagem para o filme  (de 1976) que lhe deu fama, o boxeador Rocky Balboa. O que difere Marciano de Balboa  é que o primeiro era inteligente, bem articulado e ambicioso em relação aos seus propósitos e nada ingênuo, sem contar que se aposentou sem nunca ter beijado a lona; o segundo, tinha a mesma força física e obstinação para ser campeão, mas era muito ingênuo e fácil e ser manipulado por pessoas interesseiras e mal intencionadas, e mesmo sendo um personagem fictício, não se aposentou invicto como o lendário e real Rocky Marciano.

"Marciano" de 1976, com Tony Lo Bianco
"Rocky Marciano", com Jon Favreau, de 1999


Foram realizados dois filmes biográficos sobre Rocky Marciano, o primeiro intitulado (originariamente) apenas “Marciano” foi lançado em 1979 e estrelado por Tony Lo Bianco (como Rocky) num enredo que foca a dificuldade de Marciano conciliar sua carreira de boxer e seus deveres de esposo e pai; o segundo, intitulado “Rocky Marciano”, foi lançado em 1999 e estrelado por Jon Favreau (no papel de Rocky) e contou com a participação do ator Tony Lo Bianco (o mesmo que encarnou Rocky no filme anterior), nessa versão se destaca mais o lado do lutador, sua ascensão, suas conquistas e a vida depois da aposentadoria. Ambos são recomendáveis para quem curte boxe e é fã de Rocky Marciano.

Rocky não fintava, não jabeava, ele ia em linha reta para cima do adversário
Rocky e seu Legado - Marciano não era um boxeador ortodoxo, não tinha a leveza do jogo de pernas e a técnica de um Muhammad Ali, mas era um gladiador sem medo que partia para cima em linha reta, não sabia fintar e se  movia como um selvagem que se permitia levar golpes, desde que fosse o único caminho para nocautear seu adversário. Ao lançar seus poderosos golpes no ar, se espunha de tal forma que poderia levar contra-ataques que poderiam levar qualquer um à lona, mas Rocky não era qualquer um, ele suportava qualquer castigo; ele só dobraria o joelho por duas vezes em 49 lutas, a primeira ocorreu na disputa do título mundial contra Jersey Joe Walcott, e a segunda ocorreu na sua última luta como profissional, contra Archie Moore. Não havia como refiná-lo tecnicamente, não havia como domá-lo, ele se valia exclusivamente de sua força e resistência física e do disparo fatal de direita conhecido como “Susie Q”, apesar do seu também poderoso gancho de esquerda. Marciano era um obstinado guerreiro que desprezava a dor e ignorava a derrota. Muitos historiadores  do boxe criticam a real capacidade de Rocky como um grande campeão dos pesos-pesados, pelo fato de que seus adversários na época não serem tão qualificados; ora, sendo qualificados ou não, Rocky fez o que um campeão tinha que fazer, enfrentou a todos e os derrotou um a um e se despediu com uma invencibilidade só igualada a partir de 2009 por pouquíssimos boxeadores até hoje. 


Um peso pesado abaixo das medidas ideais, apenas 1,80 m e 85 kg
Só pelo fato de Rocky ter sido fisicamente inferior aos padrões vigentes para um peso-pesado, isto é, tinha apenas 1,80 de altura, 85 kg e uma envergadura de 1,73 m e mesmo assim conseguir superar todos os seus adversários tecnicamente e fisicamente  mais capacitados, já bastaria para ser considerado como um dos maiores boxeadores de todos os tempos. E na minha opinião, ele está entre os quatro melhores pesos pesados da história, que na minha ordem seriam, Muhammad Ali, Joe Louis, Rocky Marciano e Jacky Dempsey. O poder do golpe de Marciano foi medido em 1963 pela Boxing Illustrated, e chegaram à  conclusão que seu punch gerava mais energia de impacto do que uma bala perfurante e que seria comparável a mesma energia necessária para elevar um elevador de 1000 libras a um pé do chão.

A estátua feita pelos escultores mexicanos de 6 metros e 2 toneladas
Reconhecimento e Homenagens - Rocky Marciano foi nomeado “Lutador do Ano” por três vezes e suas defesas do título (entre 1952-1954) foram eleitas as “Melhores Lutas”, pela Ring. Em 2006, numa pesquisa pela ESPN, o nocaute de Marciano contra Joe Walcott em 1952, foi considerado o maior de todos os tempos. Marciano também recebeu o “Belt Hickock” dado ao melhor atleta profissional de 1952. Em 1955, ele foi eleito o segundo mais importante esportista norte-americano do ano. Rocky Marciano, como não poderia deixar de ser, é membro do Boxing Hall of Fame International e do World Boxing Hall of Fame. Uma estátua de bronze de Rocky Marciano de seis metros de altura e duas toneladas foi confeccionada pelos escultores mexicanos Mario Rendón e Victor Gutiérrez em 2012 e foi inaugurada oficialmente, em setembro do mesmo ano, na Brockton High School por conta do 60º aniversário do título mundial dos pesos-pesados  conquistado por Rocky Marciano, em 1952. Outra estátua de bronze de Marciano foi erguida em Ripa Teatina, na Itália, para comemorar o nascimento do pai de Rocky.

Rocky Marciano: Nunca haverá outro campeão como ele!
Por Eumário J. Teixeira