7 de mar. de 2013

MANFRED VON RICHTHOFEN – A LENDA DO BARÃO VERMELHO


O ÁS DOS ASES


Em abril de 2013 completar-se-ão 95 anos da sua morte, alguns nunca ouviram falar dele, outros já ouviram alguma coisa, muitos acham que não passa de uma lenda, um personagem fictício de filme ou desenho animado; mas na verdade, o Barão Vermelho existiu e dominou parte dos céus da Europa na segunda metade da Primeira Guerra Mundial. Historiadores o classificaram como um sanguinário e impiedoso caçador e outros como um piloto de caça romântico e que era respeitado mesmo até pelos seus adversarios. Vários mitos se criaram em torno de sua breve vida e suas proezas e, certamente, sua fama não se fez do nada. Assim, através desta postagem me permito homenagear ao Red Baron, um homem sem mêdo e que sem dúvida foi o maior e mais temido piloto de caça da história. Não estou fazendo apologia à guerra e muito menos ao imperialismo alemão, apenas reconhecendo o valor de um personagem histórico que se destacou por seus princípios éticos e morais, num ambiente de horror e caos que só um conflito mundial como aquele poderia gerar. Um nobre oficial alemão que foi honrado pelos próprios inimigos no seu túmulo de morte.

Ilustração do Albatros D-V do Barão Vermelho, semelhante ao D-III

Lothar, Albrecht (o pai) e Manfred: caçadores e aristrocatas


Espírito de caçador - Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen nasceu no dia 2 de maio de 1892, em Breslau, na Silésia (hoje Wroclaw, Polônia) que fazia parte do então Império Alemão. Aos nove anos mudou-se com sua família para Schweidnitz (hoje Swidnica, Polônia). Ainda adolescente desenvolveu o gosto pela caça e pela equitação incentivado pelo pai, Albrecht Karl Freiherr von Richthofen, que era oficial da Cavalaria do regimento Uhlan e um nobre proprietário de terras. O título nobiliárquico hereditário de Freiherr (que significa Barão) foi concebido à família pelo Imperador da Prússia Fredererico, o Grande, em 1741. Nas caçadas à javalis, alces, veados e aves, que fazia acompanhado pelo pai e os irmãos Lothar e Karl Bolko, era notório a astúcia e paciência do jovem Manfred para esperar o melhor momento e posicionamento para dar um único tiro fatal que abateria sua presa. Aos 11 anos, Manfred entrou na escola de cadetes prussianos, onde após se formar como cadete-oficial, ingressou-se no 1º Regimento de Cavalaria Uhlan, em 1911 aos 19 anos.


A Guerra - Quando estourou a primeira guerra guerra mundial em agosto de 1914, a sua unidade de cavalaria foi enviada para enfrentar os russos e cabia ao jovem oficial Manfred Richthofen fazer o trabalho de reconhecimento de campo no leste. O cumprimento de forma eficaz de sua função foi reconhecido através da condecoração com a Cruz de Ferro em 23 de setembro de 1914. Em seguida foi deslocado para a frente ocidental onde atuou, a contragosto, na retaguarda sem correr riscos. Percebendo-se que a cavalaria era inútil contra as metralhadoras posicionadas nas trincheiras, se tornando assim obsoleta na guerra moderna,  o regimento foi remanejado como infantaria mesmo permanecendo na retaguarda. Anda insastifeito, Richthofen escreveu ao oficial superior pedindo transferência para a unidade aérea Luftstreikräfte (Forças Aéreas de Combate) que se tornaria no futuro a temida Luftwaffe, destacando-se em sua solicitação as seguintes palavras: “Não vim para a guerra para apanhar queijos e ovos”. 

Manfred von Richthofen, livre para voar

Ânsia por voar - O desejo de Manfred foi atendido e ele foi incorporado ao 69º Esquadrão de Vôo durante a ofensiva a Brestlitovsk, de junho a agosto de 1915. A princípio pilotou aviões de reconhecimento sem participar diretamente das batalhas aéreas. Em pouco tempo foi transferido para Ostend, no front ocidental, com a mesma função de observador. Transferido novamente, desta vez para a região de Champane, alçou vôo como auxiliar do tenente Paul von Osterroth manejando uma metralhadora de ré, conseguindo derrubar seu primeiro avião, de modelo Farm, apesar dessa vitória não ter sido confirmada oficialmente porque o avião caiu em território inimigo. Seu sonho começou a se tornar realidade quando iniciou seu treinamento de piloto em outubro de 1915. Em seu primeiro vôo solo, Manfred danificou seu avião  na aterrisagem. Mas ele insistiu e recebeu o seu certificado de piloto próximo ao Natal de 1915. Em março de 1916 ele aprendeu a pilotar o modelo Albratros B-II, um caça de dois assentos, de motor de 100 hp, que desenvolvia a velocidade de 100 km/h e alcançava o teto de 3.000 m de altitude e que tinha uma metralhadora na parte superior da asa disparando para a frente. Com este avião teria alvejado, no dia 26 de abril de 1916, um modelo Nieuport francês que sobrevoava Verdun. Manfred Richthofen foi novamente enviado para o front russo, onde passou a voar em aviões de reconhecimento e bombardeiros, destruindo estações ferroviárias, pontes e regimentos de cavalaria cossacos com certa segurança, pois o russos não dispunham de muitos aviões para interceptá-los.  Mas ainda não era o que ele almejava, ou seja, os duelos nos ares. 

Oswald Boelcke, o primeiro ás e mentor de Manfred

O encontro com Boelcke e o Jasta 2 - O seu destino começa a mudar quando em agôsto de 1916, ele se encontra  casualmente com o herói nacional e ás da aviação, Oswald Boelcke, o maior piloto de guerra alemão até então, ao lado de Max Immelmann. Boelcke estava selecionando talentos para seu esquadrão Jagdstaffell 2 e Manfred lhe pareceu decidido e impetuoso o bastante para integrá-lo. No Jagdstaffell (ou Jasta) 2 e pilotando um biplano Albatross D-II, Manfred derrubou oficialmente seu primeiro avião em 17 de setembro de 1916, uma aeronave inglesa. O piloto e observador ingleses foram socorridos em  linhas alemãs. Mas não resistiram aos ferimentos e Richthofen, após o sepultamento de ambos, colocou uma pedra no túmulo do piloto em respeito ao inimigo derrotado, uma homenagem que o fez ser considerado mesmo entre os adversários e se tornou uma de suas principais características durante a guerra. Manfred descreveu a experiência de sua primeira vitória  e suas futuras conquistas em um diário que se tornou um livro autobiográfico, “Der rote Kampfflierger”, que poderia ser traduzido como “O Piloto de Combate Vermelho”. Outro hábito desenvolvido por ele, era o de mandar confeccionar pequenas taças ou copos de prata com o tipo de nave abatida e a data de confronto cravados; como também o costume de pegar uma peça do avião inimigo como  recordação, isso quando geralmente o piloto inimigo fosse digno de seu reconhecimento. 

O corpo e o albatross D-II destroçado de Boelcke

A morte de Boelcke - Inesperadamente, em 28 de outubro de 1916, as forças aéreas alemãs sofrem uma grande baixa. O modelo Albatros D-II do ás Oswald Boelcke choca-se com uma aeronave de seu próprio esquadrão, durante uma batalha aérea. Boelcke consegue ainda controlar seu caça e tenta aterrissagem, mas o choque da aeronave no solo foi muito forte e Boelcke sofre um traumatismo craniano fatal. O então idolatrado piloto alemão, que já tinha abatido 40 aeronaves inimigas, morre aos 25 anos de forma tão absurda deixando todo um esquadrão sem sua grande e inspiradora liderança. Manfred Richthofen carregou as condecorações de Boelcke durante o funeral. Em paralelo à tragédia ocorrida para a aviação alemã com a perda de Boelcke, a perícia de piloto de caça de Manfred se destacava abruptamente, pois em apenas dois meses de vôo solo, já havia derrubado 11 aviões inimigos. Uma vitória importante para Manfred foi quando, pilotando um Albatros biplano D-III, derrubou o ás inglês, major Lanoe Hawker, comandante do 24º esquadrão em 23 de novembro de 1916. Manfred levou consigo a metralhadora do avião britânico como souvenir. Essa vitória serviu também como uma resposta à morte de Boelcke. No mesmo dia Manfred foi condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Ordem da Casa Real de Hohenzaollem com Espadas. O comando alemão preocupado com a repercussão negativa da morte de Boelcke na moral de seus combatentes, trataram de promover e achar o seu substituto: o jovem e impetuoso piloto, Manfred Richthofen, ele seria o próximo “deus” invencível dos ares. Richthofen chegou a declarar: “Sobretudo não passo de um piloto de combate, mas Oswadl Boelcke era um verdadeiro herói”.

Manfred von Richthofen exibe em seu peito a Pour Le Mérite

A Ordem Pour Le Mérite e o Jasta 11 - A sua fama crescia na Europa, sendo cada vez mais temido pelos pilotos ingleses e franceses; assim, não foi difícil para ele assumir a liderança de seu próprio esquadrão por indicação direta do Imperador Wilhelm II que também lhe concedeu a maior honraria para um piloto, ser condecorado com a ordem Pour Le Mérite em 12 de janeiro de 1917. O novo esquadrão Jasta 11 era integrado por pilotos ainda inexperientes e cabia a Manfred doutriná-los nas estratégias do combate aéreo. Após um incômodo período de inatividade, muito treinamento e instruções, o Jasta 11 se tornou o celeiro dos mais competentes e destemidos pilotos de caça alemães, que na maioria como Richthofen, eram aristocratas e defendiam seu próprio código de honra e de espírito cavalheiresco. O próprio Manfred pregava aos seus comandados: “Os pilotos são como esportistas que apenas abatem os aviões e não perseguem os pilotos”. Essa idéia de Manfred parecia lhe transportar para um mundo paralelo alheio à realidade cruel da guerra, principalmente nas batalhas ocorridas fem solo nas trincheiras onde os soldados da infantaria eram rasgados nos arames farpados, perfurados pelas baionetas, metralhados pelo fogo inimigo, despedaçados pelas granadas e sufocados ou cegos pelos gases mortais. Nos ares ele se sentia livre como um nobre cavaleiro medieval medindo sua destreza de combate contra um valoroso oponente. Seu irmão Lothar Richthofen inesperadamente se integra ao esquadrão, uma progaganda estratégica do comando de guerra para propagar ao povo germânico a imagem patriótica dos intrépidos irmãos aviadores lutando lado a lado pelo triunfo do império alemão. Mas, ao contrário de Manfred, Lothar tinha sua visão particular e menos romântica da guerra, ou seja, o inimigo teria que ser perseguido até ser totalmente destruído, avião e piloto. Essa foi a razão do irmão mais velho e famoso o classificar como um “sanguinário”. 

O esquadrão colorido do Jasta 11, o Circo Voador de Richthofen

O Barão Vermelho e o Circo Voador no Abril Sangrento - Como comandante do Jasta 11, o tenente Manfred von Richthofen passa a pilotar um modelo biplano Albatros D-III (de comprimento: 7,32 m; envergadura: 8,99m; velocidade máxima: 175 km/h), surpreendendo a todos ao mandar pintar sua aeronave totalmente de vermelho. Daí o surgimento do apelido de “barão vermelho”. Alertado pelos seus comandados que ele se tornaria um alvo visado a longa distância com sua aeronave vermelha, ele retrucou que sua intenção era realmente ser avistado e impor temor aos seus adversários, já que sua fama de invencível e implacável caçador assolava boa parte dos céus da Europa. Em abril de 1917 ele já tinha acumulado 50 vitórias e a lenda do “Barão Vermelho” só aumentava. Neste mês somente ele tinha abatido 21 aviões, sem contar as aeronaves interceptadas pelos seus companheiros. Os ingleses sofreram grandes baixas e denominaram o período de “Bloody April” (abril sangrento). Os outros pilotos do Jasta 11 passam a usar também cores berrantes em seus aviões assim que provassem sua perícia no ar e não demorou muito para que a temida esquadrilha fosse apelidada de “o Circo Voador do Barão Vermelho” justamente em função das fortes cores de suas aeronaves. O esquadrão colorido voava em formação próximo ao front em patrulhas regulares com objetivos táticos, como um circo itinerante. Além do codinome “Red Baron” (barão vermelho), Manfred era também chamado pelos aviadores adversários como “Le Diable Rouge” (o diabo vermelho) ou “Le Petit Rouge” (o pequeno vermelho) pelos franceses e “The Red Knight” (o cavaleiro vermelho) pelos ingleses. 

O Barão Vermelho perseguindo e abatendo aviões ingleses

As características de um implacável caçador - As vitórias acumuladas por Manfred von Richthofen eram devidas principalmente à sua aplicação tática, sua destreza e ao seu sangue-frio mesmo em situações desfavoráveis. Sem mencionar sua dedicação e senso de dever exemplares. Das principais habilidades do Barão Vermelho se destacavam o cálculo preciso de distância do inimigo, sua grande habilidade para manobrar o seu avião e sua capacidade de avaliar friamente uma situação favorável ou desfavorável de combate. Como ele mesmo dizia: “Se você não tem como vencer o adversário, se retire antes que seja abatido por ele.” Nas batalhas sangrentas do Abril Sangrento quando enfrentou os triplanos ingleses, que eram mais potentes e manobráveis mas que sofreram enormes baixas, Manfred concluiu por si mesmo: “O que importa não é a máquina, mas a destreza do piloto.” Oswald Boelcke teria ensinado a Manfred sua melhor estratégia de combate descrita no “Boelcke Diktat”, que era atingir a maior altitude do que o inimigo e procurar vê-lo antes para assim poder atirar primeiro, descendo pela parte traseira do adversário, de preferência com o sol nas costas, dificultando assim sua visão e fuga. Tal estratégia não deixava de ser um estilo aristocrático de cerco à caça adaptado para o combate aéreo.

Manfred (ferido) e a enfermeira Kate Otersdörf, sua amante e companheira

O Barão Vermelho é ferido - Em  06 de julho de 1917, pilotando desta vez, um modelo Albatros D-V vermelho (comprimento: 7,33 m; envergadura: 9,05 m) que atingia a velocidade de 186 km/h, Manfred começou a perseguir um bombardeiro bimotor F. E. 2b. O observador do bombardeiro percebendo sua aproximação eminente,  acionou a sua metralhadora de ré contra o Barão Vermelho e caprichosamente um projétil atinge Manfred na cabeça. Com o impacto da bala ele ficou cego e sem reação por alguns segundos, mas se recobrou a tempo para aterrisar com segurança escoltado por dois companheiros. O Barão Vermelho, ferido, foi submetido a várias intervenções cirúrgicas dolorosas para remover os fragmentos de ossos do crânio. O ferimento lhe trouxe seqüelas permanentes, pois passou a ter dores de cabeça constantes, tendo náuseas sempre que voltava dos vôos. Tais reações colaterais afetaram seu temperamento, passando a ter crises alternadas de humor. Manfred Richthofen, nesse período de recuperação, chegou a sair do esquadrão por ordem do alto comando e assistir a realidade cruel dos  combates nas trincheiras e a viajar pelo país na tentativa de elevar o moral do povo alemão. Nesta época tentaram fazer com que se recolhesse pois temiam perder outro herói nacional em pouco espaço de tempo. Rebatendo as recomendações ele declarou: “Eu me sentiria um miserável se agora, coberto de fama e condecorações, desperdiçasse meu tempo como pensionista, preservando minha vida à nação, enquanto que qualquer pessoa como eu cumpre seu dever, resistindo na trincheira.” No período em que se recuperava do ferimento na cabeça, Manfred teria sido cuidado pela enfermeira Kate Otersdörf, com quem teve um romance significativo para sua  vida, fazendo com que até revesse seus conceitos pessoais e percebesse que seu nome e imagem de um “deus que nunca morre” estavam sendo usados pelo império alemão para justificar toda aquela carnificina gerada pela guerra. O Barão Vermelho que nunca se recuperou inteiramente desse ferimento, não se intimidou e com uma proteção de ataduras e uma touca, não tardou a se lançar novamente aos combates. Além disso era superticioso, usava sempre o mesmo casaco de couro quando voava e dizem que nunca partia sem ser beijado por alguém que amava.

Réplica do lendário Fokker DR-I triplano do Barão Vermelho

O Fokker DR-I Triplano - Em setembro de 1917 Manfred Richthofen, o ás dos ases, é apresentado ao modelo Fokker Dr-I triplano, uma aeronave menor (comprimento: 5,77m; envergadoura: 7,20 m) e mais ágil, em resposta aos triplanos ingleses. Este novo modelo lhe proporcionava mais agilidade nas manobras evasivas e de ataque, apesar de se tornar um alvo mais fácil numa trajetória em linha reta, pois ocorria uma significativa perda de velocidade (atingindo no máximo 185 km/h). Com o Fokker Dr-I alcançou a marca inédita, até então, de 60 vitórias no dia 1º de Setembro de 1917. A ironia é que a imagem do Barão Vermelho ficou mais associada ao Fokker triplano com o qual obteve apenas 20 vitórias, no total impressionante de  aviões derrubados em toda sua carreira; apesar dele ter abatido a maioria de suas vítimas com o Albatros D-III.  Sobre a agilidade do pequeno triplano, o capitão Manfred von Richthofen declarou: “Ele sobe como um macaco e é tão ágil quanto o demônio”. O desempenho de Richthofen incomodou tanto aos aliados que sua cabeça foi posta a prêmio. O piloto que conseguisse derrubá-lo seria bem recompensado. O Barão Vermelho alcança sua 64ª vitória em março de 1918 ao abater o avião do piloto inglês H. J. Parks que se feriu gravemente. Demonstrando seu “espírito esportivo”, Manfred enviou ao adversário hospitalizado, uma caixa de charutos. A 80ª e última vitória de Manfred von Richthofen ocorreu em 20 de abril de 1918, quando abateu o tenente D. E. Lewis que sobreviveu ao confronto e foi capturado pelas forças alemãs.

O Barão Vermelho foi perseguido e abatido em linhas inimigas

A morte do Barão Vermelho - Em 21 de abril de 1918, o esquadrão alemão liderado pelo Barão Vermelho partiu rotineiramente para interceptar mais alguns aviões de observação,  modelo Sopwith Camels ingleses, quando estes faziam um reconhecimento fotográfico. Manfred se desgarrou do esquadrão para perseguir sua 81ª vítima, a aeronave pilotada pelo tenente Wilfrid May  que se desviava em zigue-zague das investidas do Barão Vermelho, que surpreendentemente invadiu as linhas inimigas durante a perseguição, se descuidando também da retaguarda, próximo a Sailly-le-Sac, um território francês controlado pelas forças australianas. Voando a baixa altitude e em linha reta se tornou alvo para a artilharia em terra inimiga e um alvo perfeito para o avião do capitão Canadense Roy Brown que estava colado na sua traseira com um Sopwith Camel. Não se sabia até pouco tempo se foi o fogo da artilharia anti-aérea australiana ou as rajadas disparadas do caça de Brown que derrubou o Barão Vermelho que não teve tempo para retornar em direção às suas linhas, mas o certo é que o avião de Manfred Richthofen foi atingido e pousou com dificuldade no solo. Manfred a essa altura da guerra tinha se tornado o alvo estratégico a ser abatido, seu avião vermelho estava visado e tinha que ser derrubado custe o que custar. 
Perseguindo a provável 81ª vítima, Manfred se descuida

Não me parece improvável a idéia de que um piloto aliado se posicionasse como isca atraindo-o para as linhas inimigas  e outro ficaria de prontidão para abordá-lo pela retaguarda. Se tal hipótese não for razoável, é certo que o Barão Vermelho simplesmente não observou suas próprias regras de auto-preservação se expondo tanto naquele fatídico dia. É certo que desde quando foi ferido na cabeça em julho de 1917, o Barão nunca mais foi o mesmo. De qualquer maneira, Roy Brown, ao que consta, nunca confirmou ou desmentiu seu feito. Os artilheiros australianos Robert Buie e Cedric B. Popkin revindicaram ter dado o tiro fatal. Muitas décadas depois foi revelado através de estudos durante uma reconstituição técnica, que o tiro fatal foi dado por Cedric B. Popkin, que faleceu sem saber que ele era o autor da façanha. Quando a equipe de resgate inimiga se aproximou do Fokker Dr-I, encontraram Manfred Richthofen já sem vida. Ele tinha apenas 25 anos, tal como Oswald Boelcke. Um projétil fatal penetrou no seu lado direito e pecorreu mortalmente os  pulmões e o coração, vazando pelo seu peito esquerdo. O já lendário Fokker Dr-I triplano quase sem danos foi praticamente desmontado pelos soldados aliados que queriam guardar qualquer lembrança do famoso piloto de caça alemão.  

Honrarias inimigas no funeral do Barão Vermelho

Funeral e homenagens dos inimigos - Era o início do mito do Barão Vermelho. Ele foi enterrado em território inglês, com honrarias e salva de 21 tiros. Como um homem assim homenageado pelos inimigos britânicos, poderia ser taxado de vilão, cruel e sanguinário? Logo após as homenagens, os aviões ingleses lançaram panfletos sobre a base aérea alemã anunciando a morte do até então “invencível” Barão Vermelho. Fotografias também foram tiradas do seu funeral.  Os panfletos lançados tinham a seguinte mensagem:  “Para o Corpo Aéreo Alemão: O Capitão Manfred Freiherr von Richthofen foi morto em combate aéreo em 21 de abril de 1918. Ele foi enterrado com todas as honras militares. Assinado: British Royal Air Force.” Sete anos depois de sua morte, o cadáver foi exumado a pedido da família e sepultado em Berlim, com mais honras militares e grande participação popular. Réplicas do triplano Fokker DR-I em que Richthofen foi abatido estão expostas na maioria dos museus de tecnologia e aviação do mundo. Manfred von Richthofen se tornou nome de esquadras, quartéis, praças e ruas por toda a Alemanha. Nos seus poucos anos de vida, Manfred von Richthofen experimentou com intensidade a liberdade que sempre amou desde sua juventude quando caçava livremente nos bosques com seus irmãos, planou e voou como um verdadeiro albatroz nos céus europeus, combatendo lealmente como um desportista seus inimigos sem o espírito sanguinário que injustamente lhe foi atribuído pela história. Ele não fugiu de suas obrigações como militar, combateu fielmente, mas sem experimentar o horror das fétidas trincheiras lotadas de cadáveres e moribundos em terra, pois os vôos pareciam ser destinados apenas aos cavaleiros de espírito nobre como ele, talvez o último representante de uma estirpe que agora só conhecemos nos romances.

Curiosidades e lendas sobre o Barão Vermelho:

O interessante filme O Barão Vermelho, de 2008
O Barão Vermelho no cinema e no imaginário popular – Foi realizado em 2008 um filme sobre o Barão Vermelho, numa co-produção da Alemanha e Reino Unido sob a direção de Nikolai Müllerschön. “Der Rote Baron”/”The Red Baron” (O Barão Vermelho , no Brasil) só foi lançado no Brasil em DVD, em julho de 2010. Os principais locais de filmagem ocorreram na República Checa, França e Alemanha. O filme foi feito na língua inglesa apesar da produção ter sido majoritariamente alemã, para favorecer sua comercialização. No elenco estavam Tomás Koutnik como Manfred von Richthofen (garoto); Matthias Schweighöfer como Manfred von Richthofen (o Barão Vermelho); Lena Headey como Käte Otersdorf; Joseph Fiennes como Tenente Roy Brown e Volker Bruch como Lothar von Richthofen. Outro filme realizado anteriormente em 1971, pela United Artists e MGM, “Von Richthofen and Brown” ('O Barão Vermelho' ou 'Águias  em Duelo', no Brasil), trata principalmente de uma suposta rivalidade entre os pilotos adversários Manfred Richthofen, o Barão Vermelho e o tenente australiano Roy Brown, culminando no duelo final entre os dois. A produção de Gene Corman e Roger Corman teve no elenco John Phillip Law (O Barão Vermelho), Don Stroud (Roy Brown) e Barry Primus.

Outra versão do cinema interessante da história do Barão Vermelho,
"Von Richthofen and Brown", de 1971, com o eclético
John Phillip Law.


O livro auto-biográfico de Manfred Richthofen
O livro auto-biográfico de Manfred von Richthofen - Manfred escreveu um livro autobiográfico durante a guerra, descrevendo sua infância, sua família, sua fascinação pela caça e a natureza selvagem, seu amor pela equitação, sua passagem pela escola de cadetes até chegar a servir no Regimento Uhlan de Cavalaria e seu ingresso na força aérea alemã, descrevendo suas primeiras experiências como observador até se tornar o temível e respeitado Barão Vermelho. O título do livro em alemão é "Der Rot Kampfflieger", traduzido para o inglês como "The Red Fighter Pilot", se fosse traduzido para o português seria algo como "O Piloto de Combate Vermelho".  O livro foi escrito em alemão em 1917 e traduzido para o inglês ainda em 1918 por J. Ellis Barker, com o título "The Red Battle Flyer", debaixo de certa censura na época. Quase um ano depois de sua publicação, o próprio Manfred von Richthofen julgou sua obra como insolente, e antes de sua morte, ele chegou a declarar que não era mais aquele tipo de pessoa.

Batman derrota um seguidor do Barão Vermelho

O Barão Vermelho nos quadrinhos - Na história em quadrinhos desenhada por Neal Adams em 1975, Franz, um suposto descendente de um piloto da 1ª guerra de nome von Hammer, surge com seu Fokker Dr-I vermelho (uma clara referência ao Barão Vermelho) para enfrentar Batman nos ares. Adivinha quem se deu bem no duelo? Batman é claro.

Uma versão hilária do Barão Vermelho na Corrida Maluca
O Barão Vermelho nos desenhos animados - Nos desenhos da TV, lembramos de “A Corrida Maluca” com seus hilários personagens, como Dick Vigarista e seu cão assistente Muttley, Penélope Charmosa, Peter Perfeito e o Barão Vermelho com o nº 4 na fuselagem do seu avião. Em outro desenho animado de mesma produção, chamado “As Máquinas Voadoras”, sobre uma esquadrilha atrapalhada (uma referência ao Circo Voador de Richthofen?!) que persegue um pombo correio em plena 1ª guerra mundial,  temos o mesmo Dick Vigarista como líder pilotando um Fokker Dr-1 vermelho. Outro personagem famoso, o cãozinho Snoopy, de Charlie Brown, tem como terrível adversário em sua imaginação, o Barão Vermelho e seu Fokker Dr-I a quem enfrenta com seu caça ou pilotando sua casinha de cachorro voadora. A imagem de vilão do Barão Vermelho foi assim alimentada no inconsciente popular graças à animações com essas. Mas a história revela o lado heróico e honroso de Manfred von Richthofen, mesmo sabendo que no campo de guerra independentemente do lado pelo qual se luta, existem apenas seres humanos e a grande maioria deles muito jovens e valorosos atirados ao matadouro pelos verdadeiros donos e vilões deste mundo.

Snoopy perseguido pelo Barão Vermelho

O Barão Vermelho foi derrotado por um OVNI ? – A imaginação humana não tem limites, recentemente surgiu uma teoria sobre o que realmente teria abatido o temido Barão Vermelho. Foi divulgado que um outro piloto alemão chamado Peter Waitsnik voava no momento e próximo ao local da queda de Fokker Dr-I de Manfred Richthofen em 1918 e que ele teria afirmado que o Barão teria sido abatido por um OVNI (objeto Voador não identificado) de luzes ondulantes alaranjadas. O objeto brilhante surgiu de repente na frente do avião de Richthofen que reagiu imediatamente abrindo fogo, mas foi atingido mortalmente pelo OVNI  e caiu ao solo. Finaliza  assim Waitsnik em sua suposta declaração: “Ficamos apavorados, pois nunca vimos uma coisa dessa antes...Já estou no fim da vida e não tenho nada a perder ao revelar isso”. Só mesmo um piloto de outro mundo para derrotar o invencível Barão Vermelho, acredite se quiser!

Somente um OVNI poderia acabar com a carreira vitoriosa do Barão Vermelho?!

O fantasma do Barão Vermelho – Diz a lenda que num período aproximado de seis meses entre a morte de Manfred von Richthofen e o fim da primeira guerra, pilotos aliados afirmaram que avistaram durante seus vôos o temido Fokker Dr-I vermelho do Barão. 

A nova Joana d’Arc e o albatross vermelho – Conta-se que durante a fabulosa campanha do esquadrão Jasta 11 no “Abril Sangrento”, um dos pilotos aliados capturados pelos alemães queria saber quem era a destemida piloto do famoso albatross D-III biplano de cor vermelha berrante. O boato que corria entre os aliados era que somente uma mulher  que diziam ser a “nova Joana d’Arc”, poderia pilotar um avião de combate pintado daquela cor. Para a surpresa do inimigo curioso, Manfred von Richthofen que ouvia tudo e estava se contendo para não rir da indagação do jovem piloto aliado, se posicionou frente a frente com o rapaz e se apresentou como o verdadeiro piloto do albatros vermelho.
Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho

O Barão Vermelho no rock – Uma foto do esquadrão Jasta 11 liderada pelo Barão Vermelho, foi usada (com alguns retoques) para a capa do famoso disco Vol. II do Led Zeppelin. Outra banda que teve Manfred von Richthofen como referência foi a criada por Guto Goffi (bateria) e Maurício Barros (teclados) nos anos de 1980 em São Paulo, Brasil. Por sugestão de Guto escolheram o nome “Barão Vermelho”. O grupo de pop rock, baladas & blues era integrado também por Robert Frejat (guitarra), Dé (baixo) e Cazuza (nos vocais). O ápice para Barão Vermelho foi a apresentação no Rock In Rio em 1985. 

Led Zeppelin plagiou uma foto do Jasta 11 para a capa do seu 2º disco

Nota – Em uma próxima postagem, falarei um pouco sobre aquele que foi considerado o pai da aviação de caça em todo o mundo, o herói e mentor de Manfred von Richthofen e o primeiro ás alemão, Oswald Boelcke.

Por Eumário J. Teixeira.

16 de fev. de 2013

ROBERT CRUMB - UMA BREVE BIOGRAFIA

Como havia prometido anteriormente, posto nesta oportunidade, uma biografia mais detalhada do desenhista norte-americano Robert Crumb. O texto foi extraído de uma publicação em espanhol e espero que a minha tradução não comprometa o seu conteúdo original. 

Crumb por ele mesmo
Biografia - Robert Crumb, um dos cinco filhos do militar de carreira Charles V. Crumb, nasce em 30 de agosto de 1943 na Philadelphia (EUA) em um ambiente católico e conservador; com um pai de modos violentos (lhe quebrou a clavícula quando tinha cinco anos) e uma mãe fervorosa torturada pela culpa, Robert e seus irmãos tiveram que aprender a fugirem rapidamente, e para ele nada tão a mão como aqueles quadrinhos de que tanto gostavam.
Ainda que certos biógrafos assegurem que Robert começou a rabiscar hábil e espontaneamente com apenas três anos de idade, sabemos que por imposição Charles – o maior – obrigava a seus irmãos varões a ilustrar uma vez e outras variações sobre a versão cinematográfica de A Ilha do Tesouro (que os havia fascinado), e foi graças a ele que Robert aprendeu a desenhar rápido e bem (“Para sair rápido disso”, diria depois em um das suas muitas revistas autobiográficas): “ Eu gosto de desenhar, isso é tudo, é um hábito que tenho profundamente enraizado, e é devido ao meu irmão Charles. Ele foi quem começou com tudo isto dos quadrinhos quando éramos crianças; estava obcecado por eles, não lhe interessava que faziam os meninos normais, nem jogos, nem os esportes. Não fazia mais que ler quadrinhos, desenhá-los, pensar e falar deles. Eu gostava de desenhar, mas porém me interessavam muitas outras coisas além dos quadrinhos. Eu gostava de desenhar cenas realistas com edifícios, carros, coisas assim; a ele não interessava nada disto, unicamente os quadrinhos. Nos reuníamos e conversávamos sobre quadrinhos. De fato, a companhia dos quadrinhos “o clube de quadrinhos Crumb” éramos os cinco irmãos: Charles, Robert, Carol, Sandy e Maxon.”

Robert seu irmão Charles desfrutando a coleção de gibis
Por meio de Charles e sua coleção, Robert conseguiria despontar preparado no mundo da ilustração satírica, donde mais tarde seria uma figura capital; em 1958 descobriu a revista Mad, ficando fascinado por gente como Harvey Kurtzman, Basil Wolverton e Bill Elder, que inspiraram claramente a Robert e Charles a criar sua primeira fanzine, Foo Crumb Brothers Almanac: Sátiras e Paródias (em referência às antigas revistas de Smokey Stover), onde um Crumb de quinz anos começaria a desevolver um de seus personagens mais famosos, Fritz, The Cat. Infelizmente, o projeto Foo – editado originalmente em setembro de 1958 – não teve o êxito esperado (realmente circularam poucas cópias), e os irmãos desgostosos queimaram a maior parte dos exemplares existentes. Por dedicarem toda atenção a esta sua afeição, os Crumb se transformaram rapidamente em uns “bichos do mato” cuja vida social se reduzia unicamente a ensinar seu trabalho a seus companheiros de estudos e a vendê-lo pela vizinhança (ou ao menos tentar fazê-lo).

Crumb teve um precoce despertar sexual na infância
Além do desenho, Robert não tardaria em mostrar-se muito precoce em outro aspecto que também o marcaria por toda vida: a sexualidade, que foi despertada em tão antecipada idade que – segundo conta ele mesmo – erotizava nada mais e nada menos que o Coelho Pernalonga (Bugs Bunny) de sua mais terna infância... assim como as botas de couro de sua tia e o desejo irrefreável  - e as vezes satisfeito – de cavalgar sobre elas. Com libido infantil, somada a um caráter tímido e introvertido (e uma educação primária de colégio católico que lhe enredou e emaranhou a psique – ainda mais se cabe - até convertê-lo em um pequeno puritano reprimido e desorientado),  não lhe facilitaram em absoluto as coisas na hora de se relacionar com os outros (sobretudo com as meninas), de modo que quando Robert chega a escola superior, se verá incapaz  de integrar-se com seus companheiros: “Recordo que aos treze ou quatorze anos, quando tentava ser um adolescente normal, fazia o ridículo. Tentava me comportar como eles e me tornava ridículo, muito estranho, de modo que deixei de fazê-lo e me tornei uma sombra. Nem sequer estava ali, as pessoas nem sequer estavam conscientes de que eu estivesse ali, em seu mesmo mundo. Aquilo me anulou por completo, já que havia desaparecido a pressão por tentar ser normal. Passei a me interessar pela música antiga, tentei me juntar aos negros, ia de porta em porta procurando por discos velhos, coisas como essas que são inconcebíveis para um adolescente normal. Quando tinha 17 anos passei a ter essa obsessão de que passaria a história com um grande artista e que essa seria minha vingança.”

Crumb na adolescência: um anti-social desprezado
Essa atitude anti-social acompanhará Robert Crumb adiante e para sempre, provocando que – ao menos até os vinte e tantos anos – se sinta profundamente reduzido a nada, reprimido e enojado com tudo que o rodeava.  Em outubro de 1962 toda a família Crumb se muda para Cleveland onde Robert encontra trabalho como ilustrador na empresa de  cartões de felicitações American Greeting Card Company, em que cada empregado desenhava um cartão após outro como uma se fosse uma cadeia de montagem; ao mesmo tempo, e para se desprender de semelhante e tediosa rotina, começa a fazer seus primeiros quadros em algumas publicações underground como Yarrowstalks, realizando além disso ilustrações e tiras semanais para o periódico The East Village Other de Nova York. Ao cabo de dois anos de monótona existência, conheceu Dana Morgan para cumprir a profecia que pai fizera anteriormente de que se casaria com a primeira mulher que encontrasse (com quem teve um filho e rapidamente se desentendeu); entretanto, o LSD aparece em sua vida pela primeira vez para mudá-la absolutamente em tudo. Rapidamente, sua maneira de desenhar se transforma num estilo totalmente psicotrópico e surrealista (conforme os tempos reinantes), de modo que em 1967 – animado pela reação favorável que receberam alguns desenhos seus publicados em fanzines alternativos – decide se mudar com Dana para San Francisco, epicentro do movimento hippie e das comunidades libertárias que então se formavam em pleno auge da psicodelia e do chamado flower power. Porém, e nas palavras do próprio Crumb, ele não se sentia parte desse ambiente: “Deus sabe que tentei. 

Crumb e a amiga Janis Joplin
Vinha aqui todos os dias e tentava ser um deles, naturalmente o fazia para ver se me tocava algo de todo esse amor livre, mas não comi uma rosca, me diziam: - você é dos narcóticos (polícia) – e nas festa todos se afastavam de mim, e eu tinha mais ou menos a aparência de agora. Me lembro que uma vez Janis Joplin me deu um conselho, me disse:  - Crumb o que há com você, não gosta das meninas? - , e eu respondi: - Claro que gosto das meninas, o que acha? – e ela me respondeu: Pois então deixa crescer a barba, vista um dessas camisas de cetim, uma jaqueta de veludo, umas calças boca de sino e uns sapatos modernos e verá como funciona - , mas não podia fazê-lo, todo aquilo me parecia demasiadamente estúpido, não era comigo. Nunca fui um hippie autêntico, eu não era valente o bastante...quero dizer em espírito; em meu espírito habitavam demônios obscuros e os hippies sabiam, eles era capazes de detectar tais vibrações.” 

Harvey Kurtzman, criador da revista Mad
Será nesse molho de cultivo hippie onde Crumb seguirá se formando como artista: começa a colaborar como profissional em outras publicações, entre elas se encontra Help!, revista humorística editada por James Warren onde nosso gênio consegue realizar um de seus maiores sonhos: trabalhar com Harvey Kurtzman, desenhista e criador da revista Mad, a qual Crumb considera  como uma de suas maiores influências. Será nas páginas de Help! Onde Crumb resgata e desenvolve o personagem Fritz, O Gato, uma das criações de sua infância  e possivelmente de maior repercussão; muitos artistas que mais tarde formariam parte do movimento contra-cultural cômico junto com Crumb (como Skip Williamson, Gilbert Shelton ou Jay Lynch) também trabalhariam em Help!. 

Zap Comix, o nascimento dos quadrinhos underground
Foi também em San Francisco, no início de 1968, que Crumb publicaria o primeiro número de sua fanzine Zap Comix, considerada como o registro do nascimento do chamado quadrinhos underground ou comix; durante este período, Crumb seguiu experimentando no mundo das drogas, conseguindo em troca algumas más experiências com o LSD, que levaram a Robert, sem dúvida, a criar alguns de seus mais famosos personagens, incluindo Mr. Natural. Zap Comix se tornou um grande êxito da noite para o dia, e ainda conseguiu atrair a atenção do público, infelizmente também atraiu a das associações feministas, que se queixaram repetidament de que as mulheres nos quadrinhos de Crumb não eram mais que meros objetos sexuais; de fato, a história de 1969 “Joe Blow”, que apareceu publicada no número quatro de Zap, levou Robert aos tribunais por obscenidade e por seu tratamento em relação ao tema do incesto. A este respeito Richard Corben, outro adido das hostes hippies dos quadrinhos também venerado e discutido como Crumb, afirma: “Os anos de 1970 foram também alguns dos momentos mais difíceis para Crumb. No número um de Zap, publicado em 1968, Crumb criou uma história de seis vinhetas em que aparecia um personagem de pés enormes e a frase que se tornou famosa Keep On Truckin’ (Mantenha A Pegada), título de um blues antigo de Blind Boy Fuller. Essa imagem se converteu em um ícone muito popular da contracultura hippie e Crumb receberia os royalties durante anos. Porém um pleito judicial inesperado pôs em dúvida os direitos de autor de Crumb (que nunca foram registrados), e em 1977 um juiz federal acabou determinando que Crumb havia deixado a imagem cair em domínio público, liberando assim aqueles que piratearam  sua imagem de pagar qualquer tipo de direitos a Crumb. Depois foi demandado  (pelo Departamento de Impostos) a pagar uma fatura na fazenda no valor de 30.000 dólares (tendo que mudar-se momentaneamente para Paris onde permaneceu enquanto negociava seu retorno). É por esta data que se divorcia de sua esposa Dana.”

Crumb fez a capa de Cheap Thrills de Janis Joplin
Durante estes anos, encontramos seu trabalho dividido entre dezenas de revistas underground, entre elas Uneeda, Big Ass, Motor City Comics, Oz Magazine, Dirty  Laundry, XYZ e muitas outras; em 1968 Fritz, The Cat consegue um espaço definitivo na revista Cavalier, de onde salta para a fama, sendo também nesta época que Crumb desenha a famosa capa para o disco Cheap Thrills de Janis Joplin and The Big Brother & The Holding Company, passando a ser conhecido em todo o mundo. Mas Crumb não se sente à vontade sendo o centro das atenções, de modo que, cansado de se ver exposto publicamente, recusa-se a fazer outra capa de disco para os Rolling Stones, assim como aparecer como convidado no programa popular da televisão norte americana Saturday Night Live, e se retira da aparição pública: “ Nem falar, não queria aparecer no Saturday Night Live, os Rolling Stones queriam que desenhasse para eles a capa de um álbum, tive um par de propostas assim. Depois de um ano de reconhecimento, da estupidez da fama e tudo isso, sinceramente disse: Vai a merda!. Empenhei-me a desenhar nas minhas revistas a parte mais obscura de mim mesmo, algo que até então se manteve oculto.”

Crumb e sua obsessão de colecionar discos de 78 rpm
Desde o princípio dos anos de 1970, Crumb se instala em um sítio na Califórnia onde, além de desenhar, desenvolve sua outra obsessão: a busca compulsiva por discos antigos de 78 rpm, formando um coleção seletiva de milhares deles fruto de sua paixão pela música negra antiga (blues, jazz, honky tonk, etc.), pois não foi em vão que passou muito tempo de sua adolescência visitando as casas de velhos negros sulistas em busca de gravações em vinil de seus antepassados: “Quando ouvia música antiga era uma das poucas vezes que sinto uma espécie de amor pela humanidade. É como ouvir o que há de melhor na alma de gente normal. É sua forma de expressar a conexão com a eternidade o como queira chamá-lo. A música moderna não é assim, é uma perda lamentável que o povo já não possa se expressar. Nos anos 20 e 30, antes da explosão da cultura de massa e dos instrumentos elétricos, surgiram  nos Estados Unidos  e Europa um grande números de companhias discográficas que
produziam  toda classe de música em discos de 78 rpm.  Havia música dançante, blues, jug bands (grupos que tocam instrumentos não convencionais como jarras, bico de garrafas, etc.), country, folk e jazz. Existia um relação maior entre músico e ouvinte naqueles dias, quando ainda se sabia as letras das canções. Em direção aos anos de 1940, os músicos profissionais haviam se desvinculado de toda marginalidade, assim como  de grande parte da imaginação e talento”. 

A expressão "Keep On Truckin'" foi inspirada no blues de Blind Boy Fuller
Em 1975, o Ministério da Fazenda dos EUA, ameaçou confiscar-lhe a famosa coleção de discos por não pagar impostos,  porém afortunadamente amigos e fãs de Crumb lhe mandaram – em resposta a sua eloqüente petição de ajuda – o suficiente em dinheiro para pagar o resgate. Além de servir para lhe dar semelhantes dores de cabeça (e servir para conhecer o arquivista Harvey Pekar, com quem compartilhava afeição pela a música e pelos quadrinhos, dando lugar a uma parceria em American Splendor de 1976), a coleção de discos também havia servido de musa inspiradora na criação – em 1972 – de uma banda de swing, a Keep On Truckin’ Orchestra (posteriormente mudada para The Cheap Suit Serenaders), composta pelo próprio Crumb – banjo e vocais – e vários de seus amigos (Bob Armstrong – também desenhista de quadrinhos - , Allan Dodge, o produtor Terry Zwigoff, Tom Marion e Bob Brozman) em um mesclado sortido de instrumentos acústicos, incluindo um serrote. Os músicos dos Serenaders eram caseiros que, na qualidade de amadores, faziam apresentações freqüentes nos clubes muitos prestigiados como The Village Gate de Nova York e The Other Café em San Francisco, com uma sonoridade campestre anos 1920 e 1930 de raízes sulistas e múltiplas influências atreladas à letras divertidas beirando o absurdo. 

"Keep On Truckin'": tornou-se de domínio público
A partir de 1978 começam a editar vários livros de bolso do artista, pagando com os benefícios obtidos pela publicação a enorme dívida que contraiu no passado com a Fazenda; será neste mesmo que Crumb conhece aquela que se tornaria sua segunda e atual esposa, a também desenhista de quadrinhos Aline Kominsky, com ela terá um menina por quem Robert babará adiante. Em março de 1981 (depois de colaborar somente em diversas antologias) decide editar seus próprios trabalhos, dando a luz à revista Weirdo (para a qual desenhou grande parte de sua produção dos anos de 1980 e coordenou junto com Aline vinte edições alternadas das vinte e sete que durou o título) e mais tarde a Hup (1987), outro título sozinho desta vez com a editora independente Kitchen Sink, nas mãos do conhecido editor Dennis Kitchen, que desde 1978 já havia compilado muito do trabalho de Crumb em sua revista independente Mondo Snarfo. 

Se durante os anos de 1970 Crumb exorcizava os demônios de sua própria fama através de toda uma série de revistas alternativas e minoritárias, nos anos de 1980 o viram lutar – com característica auto-flagelação – contra a idéia alimentada de que já havia passado o melhor de sua vida e obra; todo o trabalho que nos havia oferecido até então – era um prova irrefutável de que nunca perdeu seu talento. De fato, em meados dessa década a carreira de Crumb conquistou um grande reconhecimento público quando seus desenhos começaram a aparecer em revistas de tirada nacional como Newsweek, People, etc., e incluindo nisso uma aparição em cadeia na televisão britânica BBC; no mais, sua obra se apresentou em uma das mais prestigiosas galerias de arte da cidade de Nova York sob o título “Psycadelic Solution”, enquanto que em 1990 o Museu de Arte Moderna de Nova York incluísse seu trabalho em uma exposição chamada “High & Low” junto com trabalhos de outros famosos desenhistas. Para ele ainda era pouco, começa a colaborar em prestigiosas revistas como Raw (dirigida por Art Spiegelman), enquanto que – paralelamente a realização de suas revistas – inicia sua sóbria carreira como ilustrador tanto de discos compactos, coleções de discos antigos e baralhos de antigos bluesmen como de livros de Bukowski (O capitão saiu para comer e os marinheiros tomaram o barco, 1993) ou Zane Mairowitz (Kafka para principiantes, 1994).

Capa de 'There's a Fungus amung us' de Earl Hooker
Os anos noventa conheceram um Crumb já desencantado com a vida nos Estados Unidos, de modo que em 1993 se muda permanentemente da Califórnia para um pequeno povoado no sul da França onde vive feliz e tranquilamente com Aline e sua filha Sophie (as quais adora e venera em muitas de suas historietas) em uma casa de campo que trocou com seu proprietário e admirador pessoal por seis livros cheios de desenhos e esboços pessoais. Em 1995 – junto com sua esposa Aline – edita duas edições sob o título de Self Loathing Comics, em ambas peculiarmente nos conta as experiências de sua também peculiar vida diária no povoado francês de Aveyron. Ali será premiado em 1999 – em reconhecimento a sua obra e trajetória – com o prestigioso Gran Prêmio do Festival de Quadrinhos de Angulema, presidindo o do ano seguinte e auspiciando a exposição que lhe foi dedicada sob o título de Quem tem medo de Robert Crumb?, que foi motivo de polêmica devido ao cartaz que representava a imagem oficial e publicitária do evento, autocensurado finalmente por mostrar um nu que no parecer era “demasiadamente chocante”. Em abril de 1995 estréia “Crumb”; produzida por David Linch e dirigida por seu amigo e violoncelista nos Cheap Suit Serenaders, Terry Zwigoff, este filme/documentário faz uma deliciosa e detalhista dissecação da vida e obra do artista pela mão do próprio Crumb, que aborda sua singular idiossincrasia e particular visão do mundo que o rodeia, buscando em suas paixões e obsessões mais recorrentes num roteiro que captura, surpreende e sobressalta por momentos o espectador. 

Crumb e sua segunda paixão: a boa música
Mesmo que a idade o tenha acalmado (já não trai a sua mulher – ou quase -), e não se droga há muito tempo – ou quase -), dedicando-se a sua filha e ter vivido um crescimento espiritual através da meditação, Robert Crumb permanece inquietando-se “regularmente” com recordações de uma imaginação febril e alucinada por mais que passem os anos. O que todavia é para agradecer num mundo de uniformidade mental e global onde tanto ele como nós vivemos. Atualmente – e por infortúnio – desenha cada vez menos quadrinhos, ainda que (para compensar) aparecem com mais frequência livros com seus esboços e ilustrações mais intimistas, como são Miettes (Migalhas), The R. Crumb Handbook (que inclue autobiografia, uma enorme recopilação de vinhetas e um cd com gravações do próprio Crumb acompanhado por grupos diferentes realizadas entre 1972 e 2003), os numerosos Crumb’s Sketchbook (diários ilustrados) ou Waiting for Food e Waiting For Breakfast, todos eles magníficas amostras de um humor mais irônico, refinado e comedido, ou se quiser, simplesmente mais maduro e meditativo. 

Crumb em atividade
Robert Crumb, um dos maiores nomes dos quadrinhos undergrounds americanos e mundiais, recebeu em 2012, homenagem a altura: uma antologia de mais mil páginas com obras selecionadas por ele mesmo. São seis livros em capa dura, chamados Robert Crumb - The Sketchbooks 1982-2011. Com 1344 páginas das maluquices saídas da mente do roteirista, e além das obras reunidas, no pacote estão mais 400 desenhos inéditos, esboços, anotações e outras coisas mais como desenhos inéditos autografados e introdução escrita do próprio punho de Crumb. Os primeiros seis volumes farão as seleções de melhores obras de Crumb de 1964 e 1981, ainda não têm a data de lançamento. A má notícia é que a coleção lançada pela Taschen Books, não é nada barata, está por volta de mil dólares,  acessível apenas para os fãs mais fanáticos e de classe privilegiada.
R. Crumb Sketchbooks, a obra definitiva para poucos
Por Eumário J. Teixeira.