7 de mar. de 2013

MANFRED VON RICHTHOFEN – A LENDA DO BARÃO VERMELHO


O ÁS DOS ASES


Em abril de 2013 completar-se-ão 95 anos da sua morte, alguns nunca ouviram falar dele, outros já ouviram alguma coisa, muitos acham que não passa de uma lenda, um personagem fictício de filme ou desenho animado; mas na verdade, o Barão Vermelho existiu e dominou parte dos céus da Europa na segunda metade da Primeira Guerra Mundial. Historiadores o classificaram como um sanguinário e impiedoso caçador e outros como um piloto de caça romântico e que era respeitado mesmo até pelos seus adversarios. Vários mitos se criaram em torno de sua breve vida e suas proezas e, certamente, sua fama não se fez do nada. Assim, através desta postagem me permito homenagear ao Red Baron, um homem sem mêdo e que sem dúvida foi o maior e mais temido piloto de caça da história. Não estou fazendo apologia à guerra e muito menos ao imperialismo alemão, apenas reconhecendo o valor de um personagem histórico que se destacou por seus princípios éticos e morais, num ambiente de horror e caos que só um conflito mundial como aquele poderia gerar. Um nobre oficial alemão que foi honrado pelos próprios inimigos no seu túmulo de morte.

Ilustração do Albatros D-V do Barão Vermelho, semelhante ao D-III

Lothar, Albrecht (o pai) e Manfred: caçadores e aristrocatas


Espírito de caçador - Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen nasceu no dia 2 de maio de 1892, em Breslau, na Silésia (hoje Wroclaw, Polônia) que fazia parte do então Império Alemão. Aos nove anos mudou-se com sua família para Schweidnitz (hoje Swidnica, Polônia). Ainda adolescente desenvolveu o gosto pela caça e pela equitação incentivado pelo pai, Albrecht Karl Freiherr von Richthofen, que era oficial da Cavalaria do regimento Uhlan e um nobre proprietário de terras. O título nobiliárquico hereditário de Freiherr (que significa Barão) foi concebido à família pelo Imperador da Prússia Fredererico, o Grande, em 1741. Nas caçadas à javalis, alces, veados e aves, que fazia acompanhado pelo pai e os irmãos Lothar e Karl Bolko, era notório a astúcia e paciência do jovem Manfred para esperar o melhor momento e posicionamento para dar um único tiro fatal que abateria sua presa. Aos 11 anos, Manfred entrou na escola de cadetes prussianos, onde após se formar como cadete-oficial, ingressou-se no 1º Regimento de Cavalaria Uhlan, em 1911 aos 19 anos.


A Guerra - Quando estourou a primeira guerra guerra mundial em agosto de 1914, a sua unidade de cavalaria foi enviada para enfrentar os russos e cabia ao jovem oficial Manfred Richthofen fazer o trabalho de reconhecimento de campo no leste. O cumprimento de forma eficaz de sua função foi reconhecido através da condecoração com a Cruz de Ferro em 23 de setembro de 1914. Em seguida foi deslocado para a frente ocidental onde atuou, a contragosto, na retaguarda sem correr riscos. Percebendo-se que a cavalaria era inútil contra as metralhadoras posicionadas nas trincheiras, se tornando assim obsoleta na guerra moderna,  o regimento foi remanejado como infantaria mesmo permanecendo na retaguarda. Anda insastifeito, Richthofen escreveu ao oficial superior pedindo transferência para a unidade aérea Luftstreikräfte (Forças Aéreas de Combate) que se tornaria no futuro a temida Luftwaffe, destacando-se em sua solicitação as seguintes palavras: “Não vim para a guerra para apanhar queijos e ovos”. 

Manfred von Richthofen, livre para voar

Ânsia por voar - O desejo de Manfred foi atendido e ele foi incorporado ao 69º Esquadrão de Vôo durante a ofensiva a Brestlitovsk, de junho a agosto de 1915. A princípio pilotou aviões de reconhecimento sem participar diretamente das batalhas aéreas. Em pouco tempo foi transferido para Ostend, no front ocidental, com a mesma função de observador. Transferido novamente, desta vez para a região de Champane, alçou vôo como auxiliar do tenente Paul von Osterroth manejando uma metralhadora de ré, conseguindo derrubar seu primeiro avião, de modelo Farm, apesar dessa vitória não ter sido confirmada oficialmente porque o avião caiu em território inimigo. Seu sonho começou a se tornar realidade quando iniciou seu treinamento de piloto em outubro de 1915. Em seu primeiro vôo solo, Manfred danificou seu avião  na aterrisagem. Mas ele insistiu e recebeu o seu certificado de piloto próximo ao Natal de 1915. Em março de 1916 ele aprendeu a pilotar o modelo Albratros B-II, um caça de dois assentos, de motor de 100 hp, que desenvolvia a velocidade de 100 km/h e alcançava o teto de 3.000 m de altitude e que tinha uma metralhadora na parte superior da asa disparando para a frente. Com este avião teria alvejado, no dia 26 de abril de 1916, um modelo Nieuport francês que sobrevoava Verdun. Manfred Richthofen foi novamente enviado para o front russo, onde passou a voar em aviões de reconhecimento e bombardeiros, destruindo estações ferroviárias, pontes e regimentos de cavalaria cossacos com certa segurança, pois o russos não dispunham de muitos aviões para interceptá-los.  Mas ainda não era o que ele almejava, ou seja, os duelos nos ares. 

Oswald Boelcke, o primeiro ás e mentor de Manfred

O encontro com Boelcke e o Jasta 2 - O seu destino começa a mudar quando em agôsto de 1916, ele se encontra  casualmente com o herói nacional e ás da aviação, Oswald Boelcke, o maior piloto de guerra alemão até então, ao lado de Max Immelmann. Boelcke estava selecionando talentos para seu esquadrão Jagdstaffell 2 e Manfred lhe pareceu decidido e impetuoso o bastante para integrá-lo. No Jagdstaffell (ou Jasta) 2 e pilotando um biplano Albatross D-II, Manfred derrubou oficialmente seu primeiro avião em 17 de setembro de 1916, uma aeronave inglesa. O piloto e observador ingleses foram socorridos em  linhas alemãs. Mas não resistiram aos ferimentos e Richthofen, após o sepultamento de ambos, colocou uma pedra no túmulo do piloto em respeito ao inimigo derrotado, uma homenagem que o fez ser considerado mesmo entre os adversários e se tornou uma de suas principais características durante a guerra. Manfred descreveu a experiência de sua primeira vitória  e suas futuras conquistas em um diário que se tornou um livro autobiográfico, “Der rote Kampfflierger”, que poderia ser traduzido como “O Piloto de Combate Vermelho”. Outro hábito desenvolvido por ele, era o de mandar confeccionar pequenas taças ou copos de prata com o tipo de nave abatida e a data de confronto cravados; como também o costume de pegar uma peça do avião inimigo como  recordação, isso quando geralmente o piloto inimigo fosse digno de seu reconhecimento. 

O corpo e o albatross D-II destroçado de Boelcke

A morte de Boelcke - Inesperadamente, em 28 de outubro de 1916, as forças aéreas alemãs sofrem uma grande baixa. O modelo Albatros D-II do ás Oswald Boelcke choca-se com uma aeronave de seu próprio esquadrão, durante uma batalha aérea. Boelcke consegue ainda controlar seu caça e tenta aterrissagem, mas o choque da aeronave no solo foi muito forte e Boelcke sofre um traumatismo craniano fatal. O então idolatrado piloto alemão, que já tinha abatido 40 aeronaves inimigas, morre aos 25 anos de forma tão absurda deixando todo um esquadrão sem sua grande e inspiradora liderança. Manfred Richthofen carregou as condecorações de Boelcke durante o funeral. Em paralelo à tragédia ocorrida para a aviação alemã com a perda de Boelcke, a perícia de piloto de caça de Manfred se destacava abruptamente, pois em apenas dois meses de vôo solo, já havia derrubado 11 aviões inimigos. Uma vitória importante para Manfred foi quando, pilotando um Albatros biplano D-III, derrubou o ás inglês, major Lanoe Hawker, comandante do 24º esquadrão em 23 de novembro de 1916. Manfred levou consigo a metralhadora do avião britânico como souvenir. Essa vitória serviu também como uma resposta à morte de Boelcke. No mesmo dia Manfred foi condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Ordem da Casa Real de Hohenzaollem com Espadas. O comando alemão preocupado com a repercussão negativa da morte de Boelcke na moral de seus combatentes, trataram de promover e achar o seu substituto: o jovem e impetuoso piloto, Manfred Richthofen, ele seria o próximo “deus” invencível dos ares. Richthofen chegou a declarar: “Sobretudo não passo de um piloto de combate, mas Oswadl Boelcke era um verdadeiro herói”.

Manfred von Richthofen exibe em seu peito a Pour Le Mérite

A Ordem Pour Le Mérite e o Jasta 11 - A sua fama crescia na Europa, sendo cada vez mais temido pelos pilotos ingleses e franceses; assim, não foi difícil para ele assumir a liderança de seu próprio esquadrão por indicação direta do Imperador Wilhelm II que também lhe concedeu a maior honraria para um piloto, ser condecorado com a ordem Pour Le Mérite em 12 de janeiro de 1917. O novo esquadrão Jasta 11 era integrado por pilotos ainda inexperientes e cabia a Manfred doutriná-los nas estratégias do combate aéreo. Após um incômodo período de inatividade, muito treinamento e instruções, o Jasta 11 se tornou o celeiro dos mais competentes e destemidos pilotos de caça alemães, que na maioria como Richthofen, eram aristocratas e defendiam seu próprio código de honra e de espírito cavalheiresco. O próprio Manfred pregava aos seus comandados: “Os pilotos são como esportistas que apenas abatem os aviões e não perseguem os pilotos”. Essa idéia de Manfred parecia lhe transportar para um mundo paralelo alheio à realidade cruel da guerra, principalmente nas batalhas ocorridas fem solo nas trincheiras onde os soldados da infantaria eram rasgados nos arames farpados, perfurados pelas baionetas, metralhados pelo fogo inimigo, despedaçados pelas granadas e sufocados ou cegos pelos gases mortais. Nos ares ele se sentia livre como um nobre cavaleiro medieval medindo sua destreza de combate contra um valoroso oponente. Seu irmão Lothar Richthofen inesperadamente se integra ao esquadrão, uma progaganda estratégica do comando de guerra para propagar ao povo germânico a imagem patriótica dos intrépidos irmãos aviadores lutando lado a lado pelo triunfo do império alemão. Mas, ao contrário de Manfred, Lothar tinha sua visão particular e menos romântica da guerra, ou seja, o inimigo teria que ser perseguido até ser totalmente destruído, avião e piloto. Essa foi a razão do irmão mais velho e famoso o classificar como um “sanguinário”. 

O esquadrão colorido do Jasta 11, o Circo Voador de Richthofen

O Barão Vermelho e o Circo Voador no Abril Sangrento - Como comandante do Jasta 11, o tenente Manfred von Richthofen passa a pilotar um modelo biplano Albatros D-III (de comprimento: 7,32 m; envergadura: 8,99m; velocidade máxima: 175 km/h), surpreendendo a todos ao mandar pintar sua aeronave totalmente de vermelho. Daí o surgimento do apelido de “barão vermelho”. Alertado pelos seus comandados que ele se tornaria um alvo visado a longa distância com sua aeronave vermelha, ele retrucou que sua intenção era realmente ser avistado e impor temor aos seus adversários, já que sua fama de invencível e implacável caçador assolava boa parte dos céus da Europa. Em abril de 1917 ele já tinha acumulado 50 vitórias e a lenda do “Barão Vermelho” só aumentava. Neste mês somente ele tinha abatido 21 aviões, sem contar as aeronaves interceptadas pelos seus companheiros. Os ingleses sofreram grandes baixas e denominaram o período de “Bloody April” (abril sangrento). Os outros pilotos do Jasta 11 passam a usar também cores berrantes em seus aviões assim que provassem sua perícia no ar e não demorou muito para que a temida esquadrilha fosse apelidada de “o Circo Voador do Barão Vermelho” justamente em função das fortes cores de suas aeronaves. O esquadrão colorido voava em formação próximo ao front em patrulhas regulares com objetivos táticos, como um circo itinerante. Além do codinome “Red Baron” (barão vermelho), Manfred era também chamado pelos aviadores adversários como “Le Diable Rouge” (o diabo vermelho) ou “Le Petit Rouge” (o pequeno vermelho) pelos franceses e “The Red Knight” (o cavaleiro vermelho) pelos ingleses. 

O Barão Vermelho perseguindo e abatendo aviões ingleses

As características de um implacável caçador - As vitórias acumuladas por Manfred von Richthofen eram devidas principalmente à sua aplicação tática, sua destreza e ao seu sangue-frio mesmo em situações desfavoráveis. Sem mencionar sua dedicação e senso de dever exemplares. Das principais habilidades do Barão Vermelho se destacavam o cálculo preciso de distância do inimigo, sua grande habilidade para manobrar o seu avião e sua capacidade de avaliar friamente uma situação favorável ou desfavorável de combate. Como ele mesmo dizia: “Se você não tem como vencer o adversário, se retire antes que seja abatido por ele.” Nas batalhas sangrentas do Abril Sangrento quando enfrentou os triplanos ingleses, que eram mais potentes e manobráveis mas que sofreram enormes baixas, Manfred concluiu por si mesmo: “O que importa não é a máquina, mas a destreza do piloto.” Oswald Boelcke teria ensinado a Manfred sua melhor estratégia de combate descrita no “Boelcke Diktat”, que era atingir a maior altitude do que o inimigo e procurar vê-lo antes para assim poder atirar primeiro, descendo pela parte traseira do adversário, de preferência com o sol nas costas, dificultando assim sua visão e fuga. Tal estratégia não deixava de ser um estilo aristocrático de cerco à caça adaptado para o combate aéreo.

Manfred (ferido) e a enfermeira Kate Otersdörf, sua amante e companheira

O Barão Vermelho é ferido - Em  06 de julho de 1917, pilotando desta vez, um modelo Albatros D-V vermelho (comprimento: 7,33 m; envergadura: 9,05 m) que atingia a velocidade de 186 km/h, Manfred começou a perseguir um bombardeiro bimotor F. E. 2b. O observador do bombardeiro percebendo sua aproximação eminente,  acionou a sua metralhadora de ré contra o Barão Vermelho e caprichosamente um projétil atinge Manfred na cabeça. Com o impacto da bala ele ficou cego e sem reação por alguns segundos, mas se recobrou a tempo para aterrisar com segurança escoltado por dois companheiros. O Barão Vermelho, ferido, foi submetido a várias intervenções cirúrgicas dolorosas para remover os fragmentos de ossos do crânio. O ferimento lhe trouxe seqüelas permanentes, pois passou a ter dores de cabeça constantes, tendo náuseas sempre que voltava dos vôos. Tais reações colaterais afetaram seu temperamento, passando a ter crises alternadas de humor. Manfred Richthofen, nesse período de recuperação, chegou a sair do esquadrão por ordem do alto comando e assistir a realidade cruel dos  combates nas trincheiras e a viajar pelo país na tentativa de elevar o moral do povo alemão. Nesta época tentaram fazer com que se recolhesse pois temiam perder outro herói nacional em pouco espaço de tempo. Rebatendo as recomendações ele declarou: “Eu me sentiria um miserável se agora, coberto de fama e condecorações, desperdiçasse meu tempo como pensionista, preservando minha vida à nação, enquanto que qualquer pessoa como eu cumpre seu dever, resistindo na trincheira.” No período em que se recuperava do ferimento na cabeça, Manfred teria sido cuidado pela enfermeira Kate Otersdörf, com quem teve um romance significativo para sua  vida, fazendo com que até revesse seus conceitos pessoais e percebesse que seu nome e imagem de um “deus que nunca morre” estavam sendo usados pelo império alemão para justificar toda aquela carnificina gerada pela guerra. O Barão Vermelho que nunca se recuperou inteiramente desse ferimento, não se intimidou e com uma proteção de ataduras e uma touca, não tardou a se lançar novamente aos combates. Além disso era superticioso, usava sempre o mesmo casaco de couro quando voava e dizem que nunca partia sem ser beijado por alguém que amava.

Réplica do lendário Fokker DR-I triplano do Barão Vermelho

O Fokker DR-I Triplano - Em setembro de 1917 Manfred Richthofen, o ás dos ases, é apresentado ao modelo Fokker Dr-I triplano, uma aeronave menor (comprimento: 5,77m; envergadoura: 7,20 m) e mais ágil, em resposta aos triplanos ingleses. Este novo modelo lhe proporcionava mais agilidade nas manobras evasivas e de ataque, apesar de se tornar um alvo mais fácil numa trajetória em linha reta, pois ocorria uma significativa perda de velocidade (atingindo no máximo 185 km/h). Com o Fokker Dr-I alcançou a marca inédita, até então, de 60 vitórias no dia 1º de Setembro de 1917. A ironia é que a imagem do Barão Vermelho ficou mais associada ao Fokker triplano com o qual obteve apenas 20 vitórias, no total impressionante de  aviões derrubados em toda sua carreira; apesar dele ter abatido a maioria de suas vítimas com o Albatros D-III.  Sobre a agilidade do pequeno triplano, o capitão Manfred von Richthofen declarou: “Ele sobe como um macaco e é tão ágil quanto o demônio”. O desempenho de Richthofen incomodou tanto aos aliados que sua cabeça foi posta a prêmio. O piloto que conseguisse derrubá-lo seria bem recompensado. O Barão Vermelho alcança sua 64ª vitória em março de 1918 ao abater o avião do piloto inglês H. J. Parks que se feriu gravemente. Demonstrando seu “espírito esportivo”, Manfred enviou ao adversário hospitalizado, uma caixa de charutos. A 80ª e última vitória de Manfred von Richthofen ocorreu em 20 de abril de 1918, quando abateu o tenente D. E. Lewis que sobreviveu ao confronto e foi capturado pelas forças alemãs.

O Barão Vermelho foi perseguido e abatido em linhas inimigas

A morte do Barão Vermelho - Em 21 de abril de 1918, o esquadrão alemão liderado pelo Barão Vermelho partiu rotineiramente para interceptar mais alguns aviões de observação,  modelo Sopwith Camels ingleses, quando estes faziam um reconhecimento fotográfico. Manfred se desgarrou do esquadrão para perseguir sua 81ª vítima, a aeronave pilotada pelo tenente Wilfrid May  que se desviava em zigue-zague das investidas do Barão Vermelho, que surpreendentemente invadiu as linhas inimigas durante a perseguição, se descuidando também da retaguarda, próximo a Sailly-le-Sac, um território francês controlado pelas forças australianas. Voando a baixa altitude e em linha reta se tornou alvo para a artilharia em terra inimiga e um alvo perfeito para o avião do capitão Canadense Roy Brown que estava colado na sua traseira com um Sopwith Camel. Não se sabia até pouco tempo se foi o fogo da artilharia anti-aérea australiana ou as rajadas disparadas do caça de Brown que derrubou o Barão Vermelho que não teve tempo para retornar em direção às suas linhas, mas o certo é que o avião de Manfred Richthofen foi atingido e pousou com dificuldade no solo. Manfred a essa altura da guerra tinha se tornado o alvo estratégico a ser abatido, seu avião vermelho estava visado e tinha que ser derrubado custe o que custar. 
Perseguindo a provável 81ª vítima, Manfred se descuida

Não me parece improvável a idéia de que um piloto aliado se posicionasse como isca atraindo-o para as linhas inimigas  e outro ficaria de prontidão para abordá-lo pela retaguarda. Se tal hipótese não for razoável, é certo que o Barão Vermelho simplesmente não observou suas próprias regras de auto-preservação se expondo tanto naquele fatídico dia. É certo que desde quando foi ferido na cabeça em julho de 1917, o Barão nunca mais foi o mesmo. De qualquer maneira, Roy Brown, ao que consta, nunca confirmou ou desmentiu seu feito. Os artilheiros australianos Robert Buie e Cedric B. Popkin revindicaram ter dado o tiro fatal. Muitas décadas depois foi revelado através de estudos durante uma reconstituição técnica, que o tiro fatal foi dado por Cedric B. Popkin, que faleceu sem saber que ele era o autor da façanha. Quando a equipe de resgate inimiga se aproximou do Fokker Dr-I, encontraram Manfred Richthofen já sem vida. Ele tinha apenas 25 anos, tal como Oswald Boelcke. Um projétil fatal penetrou no seu lado direito e pecorreu mortalmente os  pulmões e o coração, vazando pelo seu peito esquerdo. O já lendário Fokker Dr-I triplano quase sem danos foi praticamente desmontado pelos soldados aliados que queriam guardar qualquer lembrança do famoso piloto de caça alemão.  

Honrarias inimigas no funeral do Barão Vermelho

Funeral e homenagens dos inimigos - Era o início do mito do Barão Vermelho. Ele foi enterrado em território inglês, com honrarias e salva de 21 tiros. Como um homem assim homenageado pelos inimigos britânicos, poderia ser taxado de vilão, cruel e sanguinário? Logo após as homenagens, os aviões ingleses lançaram panfletos sobre a base aérea alemã anunciando a morte do até então “invencível” Barão Vermelho. Fotografias também foram tiradas do seu funeral.  Os panfletos lançados tinham a seguinte mensagem:  “Para o Corpo Aéreo Alemão: O Capitão Manfred Freiherr von Richthofen foi morto em combate aéreo em 21 de abril de 1918. Ele foi enterrado com todas as honras militares. Assinado: British Royal Air Force.” Sete anos depois de sua morte, o cadáver foi exumado a pedido da família e sepultado em Berlim, com mais honras militares e grande participação popular. Réplicas do triplano Fokker DR-I em que Richthofen foi abatido estão expostas na maioria dos museus de tecnologia e aviação do mundo. Manfred von Richthofen se tornou nome de esquadras, quartéis, praças e ruas por toda a Alemanha. Nos seus poucos anos de vida, Manfred von Richthofen experimentou com intensidade a liberdade que sempre amou desde sua juventude quando caçava livremente nos bosques com seus irmãos, planou e voou como um verdadeiro albatroz nos céus europeus, combatendo lealmente como um desportista seus inimigos sem o espírito sanguinário que injustamente lhe foi atribuído pela história. Ele não fugiu de suas obrigações como militar, combateu fielmente, mas sem experimentar o horror das fétidas trincheiras lotadas de cadáveres e moribundos em terra, pois os vôos pareciam ser destinados apenas aos cavaleiros de espírito nobre como ele, talvez o último representante de uma estirpe que agora só conhecemos nos romances.

Curiosidades e lendas sobre o Barão Vermelho:

O interessante filme O Barão Vermelho, de 2008
O Barão Vermelho no cinema e no imaginário popular – Foi realizado em 2008 um filme sobre o Barão Vermelho, numa co-produção da Alemanha e Reino Unido sob a direção de Nikolai Müllerschön. “Der Rote Baron”/”The Red Baron” (O Barão Vermelho , no Brasil) só foi lançado no Brasil em DVD, em julho de 2010. Os principais locais de filmagem ocorreram na República Checa, França e Alemanha. O filme foi feito na língua inglesa apesar da produção ter sido majoritariamente alemã, para favorecer sua comercialização. No elenco estavam Tomás Koutnik como Manfred von Richthofen (garoto); Matthias Schweighöfer como Manfred von Richthofen (o Barão Vermelho); Lena Headey como Käte Otersdorf; Joseph Fiennes como Tenente Roy Brown e Volker Bruch como Lothar von Richthofen. Outro filme realizado anteriormente em 1971, pela United Artists e MGM, “Von Richthofen and Brown” ('O Barão Vermelho' ou 'Águias  em Duelo', no Brasil), trata principalmente de uma suposta rivalidade entre os pilotos adversários Manfred Richthofen, o Barão Vermelho e o tenente australiano Roy Brown, culminando no duelo final entre os dois. A produção de Gene Corman e Roger Corman teve no elenco John Phillip Law (O Barão Vermelho), Don Stroud (Roy Brown) e Barry Primus.

Outra versão do cinema interessante da história do Barão Vermelho,
"Von Richthofen and Brown", de 1971, com o eclético
John Phillip Law.


O livro auto-biográfico de Manfred Richthofen
O livro auto-biográfico de Manfred von Richthofen - Manfred escreveu um livro autobiográfico durante a guerra, descrevendo sua infância, sua família, sua fascinação pela caça e a natureza selvagem, seu amor pela equitação, sua passagem pela escola de cadetes até chegar a servir no Regimento Uhlan de Cavalaria e seu ingresso na força aérea alemã, descrevendo suas primeiras experiências como observador até se tornar o temível e respeitado Barão Vermelho. O título do livro em alemão é "Der Rot Kampfflieger", traduzido para o inglês como "The Red Fighter Pilot", se fosse traduzido para o português seria algo como "O Piloto de Combate Vermelho".  O livro foi escrito em alemão em 1917 e traduzido para o inglês ainda em 1918 por J. Ellis Barker, com o título "The Red Battle Flyer", debaixo de certa censura na época. Quase um ano depois de sua publicação, o próprio Manfred von Richthofen julgou sua obra como insolente, e antes de sua morte, ele chegou a declarar que não era mais aquele tipo de pessoa.

Batman derrota um seguidor do Barão Vermelho

O Barão Vermelho nos quadrinhos - Na história em quadrinhos desenhada por Neal Adams em 1975, Franz, um suposto descendente de um piloto da 1ª guerra de nome von Hammer, surge com seu Fokker Dr-I vermelho (uma clara referência ao Barão Vermelho) para enfrentar Batman nos ares. Adivinha quem se deu bem no duelo? Batman é claro.

Uma versão hilária do Barão Vermelho na Corrida Maluca
O Barão Vermelho nos desenhos animados - Nos desenhos da TV, lembramos de “A Corrida Maluca” com seus hilários personagens, como Dick Vigarista e seu cão assistente Muttley, Penélope Charmosa, Peter Perfeito e o Barão Vermelho com o nº 4 na fuselagem do seu avião. Em outro desenho animado de mesma produção, chamado “As Máquinas Voadoras”, sobre uma esquadrilha atrapalhada (uma referência ao Circo Voador de Richthofen?!) que persegue um pombo correio em plena 1ª guerra mundial,  temos o mesmo Dick Vigarista como líder pilotando um Fokker Dr-1 vermelho. Outro personagem famoso, o cãozinho Snoopy, de Charlie Brown, tem como terrível adversário em sua imaginação, o Barão Vermelho e seu Fokker Dr-I a quem enfrenta com seu caça ou pilotando sua casinha de cachorro voadora. A imagem de vilão do Barão Vermelho foi assim alimentada no inconsciente popular graças à animações com essas. Mas a história revela o lado heróico e honroso de Manfred von Richthofen, mesmo sabendo que no campo de guerra independentemente do lado pelo qual se luta, existem apenas seres humanos e a grande maioria deles muito jovens e valorosos atirados ao matadouro pelos verdadeiros donos e vilões deste mundo.

Snoopy perseguido pelo Barão Vermelho

O Barão Vermelho foi derrotado por um OVNI ? – A imaginação humana não tem limites, recentemente surgiu uma teoria sobre o que realmente teria abatido o temido Barão Vermelho. Foi divulgado que um outro piloto alemão chamado Peter Waitsnik voava no momento e próximo ao local da queda de Fokker Dr-I de Manfred Richthofen em 1918 e que ele teria afirmado que o Barão teria sido abatido por um OVNI (objeto Voador não identificado) de luzes ondulantes alaranjadas. O objeto brilhante surgiu de repente na frente do avião de Richthofen que reagiu imediatamente abrindo fogo, mas foi atingido mortalmente pelo OVNI  e caiu ao solo. Finaliza  assim Waitsnik em sua suposta declaração: “Ficamos apavorados, pois nunca vimos uma coisa dessa antes...Já estou no fim da vida e não tenho nada a perder ao revelar isso”. Só mesmo um piloto de outro mundo para derrotar o invencível Barão Vermelho, acredite se quiser!

Somente um OVNI poderia acabar com a carreira vitoriosa do Barão Vermelho?!

O fantasma do Barão Vermelho – Diz a lenda que num período aproximado de seis meses entre a morte de Manfred von Richthofen e o fim da primeira guerra, pilotos aliados afirmaram que avistaram durante seus vôos o temido Fokker Dr-I vermelho do Barão. 

A nova Joana d’Arc e o albatross vermelho – Conta-se que durante a fabulosa campanha do esquadrão Jasta 11 no “Abril Sangrento”, um dos pilotos aliados capturados pelos alemães queria saber quem era a destemida piloto do famoso albatross D-III biplano de cor vermelha berrante. O boato que corria entre os aliados era que somente uma mulher  que diziam ser a “nova Joana d’Arc”, poderia pilotar um avião de combate pintado daquela cor. Para a surpresa do inimigo curioso, Manfred von Richthofen que ouvia tudo e estava se contendo para não rir da indagação do jovem piloto aliado, se posicionou frente a frente com o rapaz e se apresentou como o verdadeiro piloto do albatros vermelho.
Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho

O Barão Vermelho no rock – Uma foto do esquadrão Jasta 11 liderada pelo Barão Vermelho, foi usada (com alguns retoques) para a capa do famoso disco Vol. II do Led Zeppelin. Outra banda que teve Manfred von Richthofen como referência foi a criada por Guto Goffi (bateria) e Maurício Barros (teclados) nos anos de 1980 em São Paulo, Brasil. Por sugestão de Guto escolheram o nome “Barão Vermelho”. O grupo de pop rock, baladas & blues era integrado também por Robert Frejat (guitarra), Dé (baixo) e Cazuza (nos vocais). O ápice para Barão Vermelho foi a apresentação no Rock In Rio em 1985. 

Led Zeppelin plagiou uma foto do Jasta 11 para a capa do seu 2º disco

Nota – Em uma próxima postagem, falarei um pouco sobre aquele que foi considerado o pai da aviação de caça em todo o mundo, o herói e mentor de Manfred von Richthofen e o primeiro ás alemão, Oswald Boelcke.

Por Eumário J. Teixeira.

16 de fev. de 2013

ROBERT CRUMB - UMA BREVE BIOGRAFIA

Como havia prometido anteriormente, posto nesta oportunidade, uma biografia mais detalhada do desenhista norte-americano Robert Crumb. O texto foi extraído de uma publicação em espanhol e espero que a minha tradução não comprometa o seu conteúdo original. 

Crumb por ele mesmo
Biografia - Robert Crumb, um dos cinco filhos do militar de carreira Charles V. Crumb, nasce em 30 de agosto de 1943 na Philadelphia (EUA) em um ambiente católico e conservador; com um pai de modos violentos (lhe quebrou a clavícula quando tinha cinco anos) e uma mãe fervorosa torturada pela culpa, Robert e seus irmãos tiveram que aprender a fugirem rapidamente, e para ele nada tão a mão como aqueles quadrinhos de que tanto gostavam.
Ainda que certos biógrafos assegurem que Robert começou a rabiscar hábil e espontaneamente com apenas três anos de idade, sabemos que por imposição Charles – o maior – obrigava a seus irmãos varões a ilustrar uma vez e outras variações sobre a versão cinematográfica de A Ilha do Tesouro (que os havia fascinado), e foi graças a ele que Robert aprendeu a desenhar rápido e bem (“Para sair rápido disso”, diria depois em um das suas muitas revistas autobiográficas): “ Eu gosto de desenhar, isso é tudo, é um hábito que tenho profundamente enraizado, e é devido ao meu irmão Charles. Ele foi quem começou com tudo isto dos quadrinhos quando éramos crianças; estava obcecado por eles, não lhe interessava que faziam os meninos normais, nem jogos, nem os esportes. Não fazia mais que ler quadrinhos, desenhá-los, pensar e falar deles. Eu gostava de desenhar, mas porém me interessavam muitas outras coisas além dos quadrinhos. Eu gostava de desenhar cenas realistas com edifícios, carros, coisas assim; a ele não interessava nada disto, unicamente os quadrinhos. Nos reuníamos e conversávamos sobre quadrinhos. De fato, a companhia dos quadrinhos “o clube de quadrinhos Crumb” éramos os cinco irmãos: Charles, Robert, Carol, Sandy e Maxon.”

Robert seu irmão Charles desfrutando a coleção de gibis
Por meio de Charles e sua coleção, Robert conseguiria despontar preparado no mundo da ilustração satírica, donde mais tarde seria uma figura capital; em 1958 descobriu a revista Mad, ficando fascinado por gente como Harvey Kurtzman, Basil Wolverton e Bill Elder, que inspiraram claramente a Robert e Charles a criar sua primeira fanzine, Foo Crumb Brothers Almanac: Sátiras e Paródias (em referência às antigas revistas de Smokey Stover), onde um Crumb de quinz anos começaria a desevolver um de seus personagens mais famosos, Fritz, The Cat. Infelizmente, o projeto Foo – editado originalmente em setembro de 1958 – não teve o êxito esperado (realmente circularam poucas cópias), e os irmãos desgostosos queimaram a maior parte dos exemplares existentes. Por dedicarem toda atenção a esta sua afeição, os Crumb se transformaram rapidamente em uns “bichos do mato” cuja vida social se reduzia unicamente a ensinar seu trabalho a seus companheiros de estudos e a vendê-lo pela vizinhança (ou ao menos tentar fazê-lo).

Crumb teve um precoce despertar sexual na infância
Além do desenho, Robert não tardaria em mostrar-se muito precoce em outro aspecto que também o marcaria por toda vida: a sexualidade, que foi despertada em tão antecipada idade que – segundo conta ele mesmo – erotizava nada mais e nada menos que o Coelho Pernalonga (Bugs Bunny) de sua mais terna infância... assim como as botas de couro de sua tia e o desejo irrefreável  - e as vezes satisfeito – de cavalgar sobre elas. Com libido infantil, somada a um caráter tímido e introvertido (e uma educação primária de colégio católico que lhe enredou e emaranhou a psique – ainda mais se cabe - até convertê-lo em um pequeno puritano reprimido e desorientado),  não lhe facilitaram em absoluto as coisas na hora de se relacionar com os outros (sobretudo com as meninas), de modo que quando Robert chega a escola superior, se verá incapaz  de integrar-se com seus companheiros: “Recordo que aos treze ou quatorze anos, quando tentava ser um adolescente normal, fazia o ridículo. Tentava me comportar como eles e me tornava ridículo, muito estranho, de modo que deixei de fazê-lo e me tornei uma sombra. Nem sequer estava ali, as pessoas nem sequer estavam conscientes de que eu estivesse ali, em seu mesmo mundo. Aquilo me anulou por completo, já que havia desaparecido a pressão por tentar ser normal. Passei a me interessar pela música antiga, tentei me juntar aos negros, ia de porta em porta procurando por discos velhos, coisas como essas que são inconcebíveis para um adolescente normal. Quando tinha 17 anos passei a ter essa obsessão de que passaria a história com um grande artista e que essa seria minha vingança.”

Crumb na adolescência: um anti-social desprezado
Essa atitude anti-social acompanhará Robert Crumb adiante e para sempre, provocando que – ao menos até os vinte e tantos anos – se sinta profundamente reduzido a nada, reprimido e enojado com tudo que o rodeava.  Em outubro de 1962 toda a família Crumb se muda para Cleveland onde Robert encontra trabalho como ilustrador na empresa de  cartões de felicitações American Greeting Card Company, em que cada empregado desenhava um cartão após outro como uma se fosse uma cadeia de montagem; ao mesmo tempo, e para se desprender de semelhante e tediosa rotina, começa a fazer seus primeiros quadros em algumas publicações underground como Yarrowstalks, realizando além disso ilustrações e tiras semanais para o periódico The East Village Other de Nova York. Ao cabo de dois anos de monótona existência, conheceu Dana Morgan para cumprir a profecia que pai fizera anteriormente de que se casaria com a primeira mulher que encontrasse (com quem teve um filho e rapidamente se desentendeu); entretanto, o LSD aparece em sua vida pela primeira vez para mudá-la absolutamente em tudo. Rapidamente, sua maneira de desenhar se transforma num estilo totalmente psicotrópico e surrealista (conforme os tempos reinantes), de modo que em 1967 – animado pela reação favorável que receberam alguns desenhos seus publicados em fanzines alternativos – decide se mudar com Dana para San Francisco, epicentro do movimento hippie e das comunidades libertárias que então se formavam em pleno auge da psicodelia e do chamado flower power. Porém, e nas palavras do próprio Crumb, ele não se sentia parte desse ambiente: “Deus sabe que tentei. 

Crumb e a amiga Janis Joplin
Vinha aqui todos os dias e tentava ser um deles, naturalmente o fazia para ver se me tocava algo de todo esse amor livre, mas não comi uma rosca, me diziam: - você é dos narcóticos (polícia) – e nas festa todos se afastavam de mim, e eu tinha mais ou menos a aparência de agora. Me lembro que uma vez Janis Joplin me deu um conselho, me disse:  - Crumb o que há com você, não gosta das meninas? - , e eu respondi: - Claro que gosto das meninas, o que acha? – e ela me respondeu: Pois então deixa crescer a barba, vista um dessas camisas de cetim, uma jaqueta de veludo, umas calças boca de sino e uns sapatos modernos e verá como funciona - , mas não podia fazê-lo, todo aquilo me parecia demasiadamente estúpido, não era comigo. Nunca fui um hippie autêntico, eu não era valente o bastante...quero dizer em espírito; em meu espírito habitavam demônios obscuros e os hippies sabiam, eles era capazes de detectar tais vibrações.” 

Harvey Kurtzman, criador da revista Mad
Será nesse molho de cultivo hippie onde Crumb seguirá se formando como artista: começa a colaborar como profissional em outras publicações, entre elas se encontra Help!, revista humorística editada por James Warren onde nosso gênio consegue realizar um de seus maiores sonhos: trabalhar com Harvey Kurtzman, desenhista e criador da revista Mad, a qual Crumb considera  como uma de suas maiores influências. Será nas páginas de Help! Onde Crumb resgata e desenvolve o personagem Fritz, O Gato, uma das criações de sua infância  e possivelmente de maior repercussão; muitos artistas que mais tarde formariam parte do movimento contra-cultural cômico junto com Crumb (como Skip Williamson, Gilbert Shelton ou Jay Lynch) também trabalhariam em Help!. 

Zap Comix, o nascimento dos quadrinhos underground
Foi também em San Francisco, no início de 1968, que Crumb publicaria o primeiro número de sua fanzine Zap Comix, considerada como o registro do nascimento do chamado quadrinhos underground ou comix; durante este período, Crumb seguiu experimentando no mundo das drogas, conseguindo em troca algumas más experiências com o LSD, que levaram a Robert, sem dúvida, a criar alguns de seus mais famosos personagens, incluindo Mr. Natural. Zap Comix se tornou um grande êxito da noite para o dia, e ainda conseguiu atrair a atenção do público, infelizmente também atraiu a das associações feministas, que se queixaram repetidament de que as mulheres nos quadrinhos de Crumb não eram mais que meros objetos sexuais; de fato, a história de 1969 “Joe Blow”, que apareceu publicada no número quatro de Zap, levou Robert aos tribunais por obscenidade e por seu tratamento em relação ao tema do incesto. A este respeito Richard Corben, outro adido das hostes hippies dos quadrinhos também venerado e discutido como Crumb, afirma: “Os anos de 1970 foram também alguns dos momentos mais difíceis para Crumb. No número um de Zap, publicado em 1968, Crumb criou uma história de seis vinhetas em que aparecia um personagem de pés enormes e a frase que se tornou famosa Keep On Truckin’ (Mantenha A Pegada), título de um blues antigo de Blind Boy Fuller. Essa imagem se converteu em um ícone muito popular da contracultura hippie e Crumb receberia os royalties durante anos. Porém um pleito judicial inesperado pôs em dúvida os direitos de autor de Crumb (que nunca foram registrados), e em 1977 um juiz federal acabou determinando que Crumb havia deixado a imagem cair em domínio público, liberando assim aqueles que piratearam  sua imagem de pagar qualquer tipo de direitos a Crumb. Depois foi demandado  (pelo Departamento de Impostos) a pagar uma fatura na fazenda no valor de 30.000 dólares (tendo que mudar-se momentaneamente para Paris onde permaneceu enquanto negociava seu retorno). É por esta data que se divorcia de sua esposa Dana.”

Crumb fez a capa de Cheap Thrills de Janis Joplin
Durante estes anos, encontramos seu trabalho dividido entre dezenas de revistas underground, entre elas Uneeda, Big Ass, Motor City Comics, Oz Magazine, Dirty  Laundry, XYZ e muitas outras; em 1968 Fritz, The Cat consegue um espaço definitivo na revista Cavalier, de onde salta para a fama, sendo também nesta época que Crumb desenha a famosa capa para o disco Cheap Thrills de Janis Joplin and The Big Brother & The Holding Company, passando a ser conhecido em todo o mundo. Mas Crumb não se sente à vontade sendo o centro das atenções, de modo que, cansado de se ver exposto publicamente, recusa-se a fazer outra capa de disco para os Rolling Stones, assim como aparecer como convidado no programa popular da televisão norte americana Saturday Night Live, e se retira da aparição pública: “ Nem falar, não queria aparecer no Saturday Night Live, os Rolling Stones queriam que desenhasse para eles a capa de um álbum, tive um par de propostas assim. Depois de um ano de reconhecimento, da estupidez da fama e tudo isso, sinceramente disse: Vai a merda!. Empenhei-me a desenhar nas minhas revistas a parte mais obscura de mim mesmo, algo que até então se manteve oculto.”

Crumb e sua obsessão de colecionar discos de 78 rpm
Desde o princípio dos anos de 1970, Crumb se instala em um sítio na Califórnia onde, além de desenhar, desenvolve sua outra obsessão: a busca compulsiva por discos antigos de 78 rpm, formando um coleção seletiva de milhares deles fruto de sua paixão pela música negra antiga (blues, jazz, honky tonk, etc.), pois não foi em vão que passou muito tempo de sua adolescência visitando as casas de velhos negros sulistas em busca de gravações em vinil de seus antepassados: “Quando ouvia música antiga era uma das poucas vezes que sinto uma espécie de amor pela humanidade. É como ouvir o que há de melhor na alma de gente normal. É sua forma de expressar a conexão com a eternidade o como queira chamá-lo. A música moderna não é assim, é uma perda lamentável que o povo já não possa se expressar. Nos anos 20 e 30, antes da explosão da cultura de massa e dos instrumentos elétricos, surgiram  nos Estados Unidos  e Europa um grande números de companhias discográficas que
produziam  toda classe de música em discos de 78 rpm.  Havia música dançante, blues, jug bands (grupos que tocam instrumentos não convencionais como jarras, bico de garrafas, etc.), country, folk e jazz. Existia um relação maior entre músico e ouvinte naqueles dias, quando ainda se sabia as letras das canções. Em direção aos anos de 1940, os músicos profissionais haviam se desvinculado de toda marginalidade, assim como  de grande parte da imaginação e talento”. 

A expressão "Keep On Truckin'" foi inspirada no blues de Blind Boy Fuller
Em 1975, o Ministério da Fazenda dos EUA, ameaçou confiscar-lhe a famosa coleção de discos por não pagar impostos,  porém afortunadamente amigos e fãs de Crumb lhe mandaram – em resposta a sua eloqüente petição de ajuda – o suficiente em dinheiro para pagar o resgate. Além de servir para lhe dar semelhantes dores de cabeça (e servir para conhecer o arquivista Harvey Pekar, com quem compartilhava afeição pela a música e pelos quadrinhos, dando lugar a uma parceria em American Splendor de 1976), a coleção de discos também havia servido de musa inspiradora na criação – em 1972 – de uma banda de swing, a Keep On Truckin’ Orchestra (posteriormente mudada para The Cheap Suit Serenaders), composta pelo próprio Crumb – banjo e vocais – e vários de seus amigos (Bob Armstrong – também desenhista de quadrinhos - , Allan Dodge, o produtor Terry Zwigoff, Tom Marion e Bob Brozman) em um mesclado sortido de instrumentos acústicos, incluindo um serrote. Os músicos dos Serenaders eram caseiros que, na qualidade de amadores, faziam apresentações freqüentes nos clubes muitos prestigiados como The Village Gate de Nova York e The Other Café em San Francisco, com uma sonoridade campestre anos 1920 e 1930 de raízes sulistas e múltiplas influências atreladas à letras divertidas beirando o absurdo. 

"Keep On Truckin'": tornou-se de domínio público
A partir de 1978 começam a editar vários livros de bolso do artista, pagando com os benefícios obtidos pela publicação a enorme dívida que contraiu no passado com a Fazenda; será neste mesmo que Crumb conhece aquela que se tornaria sua segunda e atual esposa, a também desenhista de quadrinhos Aline Kominsky, com ela terá um menina por quem Robert babará adiante. Em março de 1981 (depois de colaborar somente em diversas antologias) decide editar seus próprios trabalhos, dando a luz à revista Weirdo (para a qual desenhou grande parte de sua produção dos anos de 1980 e coordenou junto com Aline vinte edições alternadas das vinte e sete que durou o título) e mais tarde a Hup (1987), outro título sozinho desta vez com a editora independente Kitchen Sink, nas mãos do conhecido editor Dennis Kitchen, que desde 1978 já havia compilado muito do trabalho de Crumb em sua revista independente Mondo Snarfo. 

Se durante os anos de 1970 Crumb exorcizava os demônios de sua própria fama através de toda uma série de revistas alternativas e minoritárias, nos anos de 1980 o viram lutar – com característica auto-flagelação – contra a idéia alimentada de que já havia passado o melhor de sua vida e obra; todo o trabalho que nos havia oferecido até então – era um prova irrefutável de que nunca perdeu seu talento. De fato, em meados dessa década a carreira de Crumb conquistou um grande reconhecimento público quando seus desenhos começaram a aparecer em revistas de tirada nacional como Newsweek, People, etc., e incluindo nisso uma aparição em cadeia na televisão britânica BBC; no mais, sua obra se apresentou em uma das mais prestigiosas galerias de arte da cidade de Nova York sob o título “Psycadelic Solution”, enquanto que em 1990 o Museu de Arte Moderna de Nova York incluísse seu trabalho em uma exposição chamada “High & Low” junto com trabalhos de outros famosos desenhistas. Para ele ainda era pouco, começa a colaborar em prestigiosas revistas como Raw (dirigida por Art Spiegelman), enquanto que – paralelamente a realização de suas revistas – inicia sua sóbria carreira como ilustrador tanto de discos compactos, coleções de discos antigos e baralhos de antigos bluesmen como de livros de Bukowski (O capitão saiu para comer e os marinheiros tomaram o barco, 1993) ou Zane Mairowitz (Kafka para principiantes, 1994).

Capa de 'There's a Fungus amung us' de Earl Hooker
Os anos noventa conheceram um Crumb já desencantado com a vida nos Estados Unidos, de modo que em 1993 se muda permanentemente da Califórnia para um pequeno povoado no sul da França onde vive feliz e tranquilamente com Aline e sua filha Sophie (as quais adora e venera em muitas de suas historietas) em uma casa de campo que trocou com seu proprietário e admirador pessoal por seis livros cheios de desenhos e esboços pessoais. Em 1995 – junto com sua esposa Aline – edita duas edições sob o título de Self Loathing Comics, em ambas peculiarmente nos conta as experiências de sua também peculiar vida diária no povoado francês de Aveyron. Ali será premiado em 1999 – em reconhecimento a sua obra e trajetória – com o prestigioso Gran Prêmio do Festival de Quadrinhos de Angulema, presidindo o do ano seguinte e auspiciando a exposição que lhe foi dedicada sob o título de Quem tem medo de Robert Crumb?, que foi motivo de polêmica devido ao cartaz que representava a imagem oficial e publicitária do evento, autocensurado finalmente por mostrar um nu que no parecer era “demasiadamente chocante”. Em abril de 1995 estréia “Crumb”; produzida por David Linch e dirigida por seu amigo e violoncelista nos Cheap Suit Serenaders, Terry Zwigoff, este filme/documentário faz uma deliciosa e detalhista dissecação da vida e obra do artista pela mão do próprio Crumb, que aborda sua singular idiossincrasia e particular visão do mundo que o rodeia, buscando em suas paixões e obsessões mais recorrentes num roteiro que captura, surpreende e sobressalta por momentos o espectador. 

Crumb e sua segunda paixão: a boa música
Mesmo que a idade o tenha acalmado (já não trai a sua mulher – ou quase -), e não se droga há muito tempo – ou quase -), dedicando-se a sua filha e ter vivido um crescimento espiritual através da meditação, Robert Crumb permanece inquietando-se “regularmente” com recordações de uma imaginação febril e alucinada por mais que passem os anos. O que todavia é para agradecer num mundo de uniformidade mental e global onde tanto ele como nós vivemos. Atualmente – e por infortúnio – desenha cada vez menos quadrinhos, ainda que (para compensar) aparecem com mais frequência livros com seus esboços e ilustrações mais intimistas, como são Miettes (Migalhas), The R. Crumb Handbook (que inclue autobiografia, uma enorme recopilação de vinhetas e um cd com gravações do próprio Crumb acompanhado por grupos diferentes realizadas entre 1972 e 2003), os numerosos Crumb’s Sketchbook (diários ilustrados) ou Waiting for Food e Waiting For Breakfast, todos eles magníficas amostras de um humor mais irônico, refinado e comedido, ou se quiser, simplesmente mais maduro e meditativo. 

Crumb em atividade
Robert Crumb, um dos maiores nomes dos quadrinhos undergrounds americanos e mundiais, recebeu em 2012, homenagem a altura: uma antologia de mais mil páginas com obras selecionadas por ele mesmo. São seis livros em capa dura, chamados Robert Crumb - The Sketchbooks 1982-2011. Com 1344 páginas das maluquices saídas da mente do roteirista, e além das obras reunidas, no pacote estão mais 400 desenhos inéditos, esboços, anotações e outras coisas mais como desenhos inéditos autografados e introdução escrita do próprio punho de Crumb. Os primeiros seis volumes farão as seleções de melhores obras de Crumb de 1964 e 1981, ainda não têm a data de lançamento. A má notícia é que a coleção lançada pela Taschen Books, não é nada barata, está por volta de mil dólares,  acessível apenas para os fãs mais fanáticos e de classe privilegiada.
R. Crumb Sketchbooks, a obra definitiva para poucos
Por Eumário J. Teixeira.

6 de jan. de 2013

OS 10 MAIORES GUITARRISTAS – PARTE IV - DE JAZZ & FUSION


Muitas listas com os nomes dos maiores guitarristas da história da música circulam pela internet e revistas especializadas. A cada classificação de tais nomes geralmente é baseada na capacidade técnica e habilidade de cada músico, o que é o bastante para gerar muita controvérsia. Para exemplificar, há certo consenso no que se diz respeito sobre quem seria o número um da lista, o maior de todos. O nome que mais aparece no primeiro lugar é o de Jimi Hendrix. Já a partir do segundo classificado acontecem muitas variações, revezando os nomes de Eric Clapton, Jeff Beck, Jimmy Page, Eddie Van Halen, etc. Como alguns gêneros musicais são desprezados nessas relações e nomes como Django Reinhardt e Dick Dale, geralmente ficam de fora, elaborei quatro listas com guitarristas considerados especialistas em seu gênero musical, sendo que a classificação de cada relação vai de um a dez. Não considerei apenas a habilidade técnica do guitarrista, mas também sua importância dentro do(s) gênero(s) que representa. Não sou um conhecedor profundo do assunto, nem ao menos sou músico, mas me baseei nos discos que já ouvi e no que li sobre a história da música em geral, considerando também o meu gosto pessoal. As listas estão divididas em quatro gêneros assim classificados: 1 – Jump Blues, Rock & Roll, Surf & Instrumental Rock; 2 – Blues Acústico & Elétrico; 3 - Blues Rock & Heavy Rock; e 4 – Jazz & Fusion. 

01 – CHARLIE CHRISTIAN – Guitarrista afro-americano nascido em 29 de julho de 1916, diretamente responsável por colocar a guitarra elétrica no mesmo patamar dos metais na época de ouro das big bands. Charles Henry Christian se iniciou na música através do saxofone, mas foi seduzido pelo som da guitarra em seguida. Christian não foi o primeiro a utilizar a guitarra elétrica numa orquestra, coube a Eddie Durham o privilégio; mas Christian foi quem desenvolveu uma nova linguagem para o instrumento. Antes de Christian a guitarra não passava de um instrumento da seção rítmica recuada, após Christian a guitarra conquistou seu direito de alçar solos livremente na frente da banda. A sua excepcional técnica de solar em legato com as notas praticamente ligadas, fazia sua guitarra soar como um instrumento de sopro ou violino. Ele também foi pioneiro em explorar as dissonâncias e acordes intermediários, rompendo as limitações das harmonias básicas. Christian foi descoberto no Texas em 1939 pelo produtor e caçador de talentos, John Hammond, que o levou para Nova York e o apresentou para o clarinetista e líder de banda, Benny Goodman, que por sua vez o contratou de imediato. Charlie Christian, mestre do swing e jazz tradicional, foi considerado peça fundamental para a formação de novos estilos de jazz conhecidos como bebop e cool jazz; pois após as apresentações com o sexteto de Goodman, Christian se refugia nos clubes do Harlem onde participava de jams sessions junto a músicos de jazz renomados como Charlie Parker, Dizzy Gillepsie e Thelonious Monk em reuniões que foram certamente o ponto de partida para a criação do bebop. Especialistas de jazz afirmam que a maioria dos guitarristas de jazz (e até mesmo de blues) que surgiram após Charlie Christian, foram influenciados por seu estilo inovador. Dentre os mais conhecidos, podemos citar Lonnie Johnson, T-Bone Walker e B. B. King, no blues; Oscar Moore, Les Paul, Kenny Burrell, Grant Green, Wes Montgomery e George Benson, no jazz; Chuck Berry, Scotty Moore, Carlos Santana e Jimi Hendrix, no rock. Charles Christian integrava o sexteto de Benny Godman até ser internado com tuberculose em 1940, nunca mais se recuperou totalmente, vindo a falecer em 02 de março de 1942, aos precoces 25 anos de idade. O modelo de guitarra preferido de Christian era a Gibson ES-150, equipada com o pick-up (captador) que mais tarde levou seu nome. Alguns registros em discos resgataram um pouco do seu imenso legado, como os cds Charlie Christian With The Benny Goodman Sextet And Orchestra; Solo Flight: The Genius of Charlie Christian; Solo Flight: Live Performances as Member of the Benny Goodman Sextet; Genius of the Eletric Guitar – 1939-1941 Recordings; e Live at Minton’s Playhouse 1941.

02 – DJANGO REINHARDT – Guitarrista belga, nascido em 1910. Ele foi um dos primeiros guitarristas de jazz branco e europeu. Filho de ciganos, Jean-Baptiste “Django” Reinhardt passou boa parte de sua vida vagando com a família por toda a Europa. A música melancólica cigana o inspirou para criar um estilo único de tocar, mesclando rara habilidade e leveza. Django começou a ser notado num acampamento cigano próximo a Paris, quando ainda muito jovem já tocava banjo, violino e guitarra acústica; logo ele começaria a tocar em tocar em algumas danceterias da capital francesa. Casado já aos 18 anos, sobreviveu a uma tragédia que mudaria para sempre sua vida. Ao se preparar para dormir em sua casa, após mais uma noite de apresentação, ele derrubou um vela acesa que queimou rapidamente um material inflamável usado por sua esposa para fazer flores artificiais. O resultado foi que Django teve queimaduras de primeiro e segundo grau na metade do corpo, em conseqüência das queimaduras teve sua perna direita paralisada e sua mão esquerda gravemente ferida. Em mais ou menos um ano, Django já podia andar de muletas e graças ao incentivo do irmão Joseph Reindhardt, também um grande guitarrista, ele volta a praticar com a guitarra mesmo com dois dedos (anular e mínimo) da mão esquerda, parcialmente paralisados. Ele ainda conseguia usar esses dois dedos para tocar, embora não conseguisse utilizá-los para solar no braço da guitarra. Embora sua reabilitação fosse dolorosa e difícil, Django conseguiu desenvolver um novo modo de tocar que o deixou famoso, superando assim suas limitações físicas. Poucos anos depois, na Paris de 1934, o Quintette du Hot Club de France composto por Django Reinhardt, Joseph Reinhardt e Roger Chaput nas guitarras; Stéphane Grappelli, no violino; e Louis Vola, no baixo, era a sensação nos clubes noturnos. Sua fama crescente fez com se aproximasse e gravasse com estrelas do jazz norte-americano como Coleman Hawkins, Benny Carter, Rex Stewart e Louis Armstrong, apesar de ser analfabeto e não conseguir ler partituras. Durante a Segunda Guerra Mundial, Django se virou como pode, abandonou a excursão que fazia com Grappelli na Inglaterra e largou sua esposa, retornando definitivamente para Paris e temendo pelas perseguições nazistas aos ciganos. Em 1943 casou-se novamente e logo após o fim da guerra volta para a Inglaterra para se juntar a Grappelli. Em seguida foram para os EUA onde abriram shows para Duke Ellington e fizeram apresentações no Carnegie Hall. Voltando para a França, Django se reintegra à vida cigana, estava no seu sangue, ele não conseguia se adaptar aos confortos das grandes metrópoles. Entendidos de jazz dizem que foi do Quintette Du Hot Club De France que nasceu o conceito “lead guitar” se referindo ao papel de Django como solista no grupo e “rhythm guitars” em referência a Joseph Reinhardt e Roger Chaput, que o acompanhavam no ritmo ou na percussão usando o corpo das próprias guitarras. Mas Django experimentou uma banda com baixo, piano e percussão também, composta por músicos italianos de jazz resultando no trabalho denominado Djangology, que contou com a participação do eterno parceiro Stephane Grappelli e seu violino. O modelo de guitarra preferido de Django era acústica Selmer-Maccaferi, era o instrumento que lhe deixava a vontade para voltar às suas origens ciganas, já que tinha experimentado sem muito sucesso as guitarras amplificadas e ter se deixado influenciar de alguma maneira pelo jazz norte-americano. Suas maiores influências além da própria cultura cigana, foram os guitarristas de jazz Charlie Christian e Eddie Lang, e o trompetista Louis Armstrong. Dentre seus seguidores, podemos citar os guitarristas Grant Green, Joe Pass, Les Paul, Larry Coryell, Bucky Pizarelli, etc. Django faleceu devido a uma hemorragia cerebral em 16 de maio de 1953 aos 43 anos, em Fontainebleau, França. De sua discografia, as gravações que são altamente recomendadas são At Club St. Germain (1951), Django Reinhardt et Ses Rythmes (1953) e The Great Artistry Of  Django Reinhardt (1954).

03 – WES MONTGOMERY – Guitarrista afro-americano nascido em 06 de março de 1923, considerado um herdeiro do estilo de Charlie Christian, ou ainda, uma extensão natural do guitarrista texano. John Leslie “Wes” Montgomery era autodidata, por forças das circunstâncias usava o dedo polegar para dedilhar as cordas de sua guitarra, o que é considerado tecnicamente errado pelos puristas. Wes era o segundo de três irmãos, todos músicos talentosos e que tocaram e se apresentaram juntos no início de suas carreiras profissionais. Os outros dois eram Buddy e Monk Montgomery, mas Wes foi considerado por um crítico como “a melhor coisa que aconteceu com a guitarra depois de Charlie Christian”, trazendo ainda inovações para o jazz. O incrível é que Wes Montgomery começou seu aprendizado aos 19 anos, uma idade em que normalmente músicos de jazz já têm um estilo próprio definido; vale lembrar que Charlie Christian faleceu com apenas 25 anos. Dizem que Wes não desenvolveu a técnica com o dedo polegar por vontade própria, foi a única alternativa que teve, pois durante seu aprendizado ao tocar normalmente com a palheta, a sonoridade gerada incomodava a esposa que precisava dormir para acordar cedo para o trabalho e os vizinhos, assim passou a dedilhar com o polegar produzindo um som mais abafado, menos agressivo, mais agradável e melódico. Seu progresso foi espantoso e já no final da década de 1940, Wes Montgomery foi convocado para a banda de Lionel Hampton. Pouco depois, Wes volta se unir aos dois irmãos, e com Buddy no vibrafone e Monk no baixo elétrico, formam o grupo Mastersounds, mudado em seguida para Montgomery Brothers. Com essa formação que contava ainda com um trompetista de 17 anos chamado Freddie Hubbard, gravaram o bom disco Fingerpickin’ (1958). Durante toda sua carreira Wes Montgomery fez parceria com músicos renomados como o vibrafonista Milt Jackson e o organista Jimmy Smith. Mas ele foi reconhecido definitivamente na comunidade jazzística ao lançar o primoroso disco The Incredible Jazz Guitar of Wes Montgomery (1960), que junto aos posteriores Movin’ Along (1960) e Full House (1962), são obrigatórios na discoteca básica de qualquer colecionador e estudioso de jazz. O modelo de guitarra preferido de Wes Montgomery era a Gibson L-5 CES, suas maiores influências foram Charlie Christian e Django Reinhardt. Ele não deixaria de influenciar outros guitarristas que surgiriam após seu breve, mas intenso reinado e alguns que beberam de sua fonte foram os guitarristas de jazz, Grant Green, George Benson, Kenny Burrell e Pat Metheny; e os guitarristas de rock, Steve Howe do Yes e Jimi Hendrix, só para citar alguns. No auge da fama e reconhecimento, Wes Montgomery sofre um ataque cardíaco fulminante, em 15 de junho de 1968, aos precoces 45 anos. Outros discos de Wes Montgomery que vale a pena ouvir são Far Wes (1959); Bags Meets Wes! (1961), com Milt Jackson; So Much Guitar (1961); Live at Ronnie Scott’s (1964); Smokin’ at the Half Note (1965);  Jimmy & Wes: The Dynamic Duo (1966) com Jimmy Smith.

04 – GRANT GREEN – Guitarrista e compositor afro-americano, nascido em 06 de junho de 1935. Green transmitia muita simplicidade no palco, geralmente sentado com as pernas cruzadas e com os olhos fechados, se deixava levar pelas notas que emitia de sua guitarra modelo Gibson ES-330 - D’Aquisto, destilando sua música orgânica, límpida e suave, que parecia refletir seu estado de espírito e sua satisfação de estar ali tocando naquele momento. Seu fraseado era facilmente reconhecido, seus fãs certamente poderiam identificá-lo com apenas o primeiro acorde tocado. É verdade que Grant Green não agradava a cem por cento dos críticos e especialistas de jazz, já que incorporava à sua música elementos de outros gêneros como o blues, boogie & woogie, R & B, spiritual, gospel, soul, funk e até rock. Precoce, Green começou a tocar profissionalmente desde os treze anos de idade, incentivado pelo pai que era também guitarrista. No início da década de 1950 já acompanhava e gravava com músicos de jazz renomados como os saxofonistas Jimmy Forrest e Lou Donaldson, e o trompetista Harry Edison. E foi graças ao empurrãozinho de Lou Donaldson, ele conseguiria gravar seu primeiro disco pelo selo Blue Note em 1961, que foi denominado Grant’s First Stand. Durante a década de 1960 ele desfrutou da colaboração de músicos consagrados no seu trabalho e participou das gravações de vários outros como Jimmy Smith, Larry Young, Sonny Clark, Yusef Lateef, Herbie Hancock, Big John Patton, McCoy Tyner, etc. Grant Green teve um forte influência do guitarrista de jazz norte-americano Jimmy Raney (1927-1995) e também de Charlie Christian, Django Reinhardt e Wes Montgomery, embora afirmasse que sua maior fonte de inspiração viesse dos saxofonistas Charlie Parker e John Coltrane. Em 1965, grava o clássico Idle Moments, um trabalho inspirado, esbanjando criatividade e fluidez, situando-se entre simplicidade e sentimento do blues à elegância e sofisticação do jazz.  Nesse disco consta a belíssima faixa “Django”, em homenagem ao guitarrista cigano Django Reinhardt. Mas, como boa parte dos músicos de jazz, Green era viciado em drogas, principalmente heroína, que comprometeu uma parcela considerável de sua carreira. Ele chegou na década de 1970 muito debilitado pelo vício, até que em 31 de janeiro de 1979, Green sofreu um ataque cardíaco fulminante dentro do seu carro enquanto se dirigia para a festa de lançamento do disco Breezin’ de seu amigo guitarrista, George Benson, um de seus devotos seguidores. Dos seus trabalhos posso destacar alguns discos (cds) indispensáveis, como os já citados anteriormente Grant’s First Stand e Idle Moments;  Gooden’s Corner (1961); Oleo (1962); Born To Be Blue (1962); The Matador (1964); Talkin’ About (1964); I Want To Hold Your Hand (1965), Alive 1970; Live At Lighthouse (1972) e o póstumo The Complete Quartets – with Sonny Clark (1997).

05 – LES PAUL – Guitarrista, banjolista, gaitista, compositor e inventor norte-americano nascido em 09 de junho de 1915. Lester William Polfus, considerado o “pai da guitarra elétrica”, foi simplesmente o inventor do famoso modelo de guitarra Gibson que foi batizada com seu nome artístico, “Les Paul”. Esse modelo de guitarra foi o preferido de astros do rock, como Jimmy Page, Peter Green, Mike Bloomfield, Duane Allman, Pete Townshend, dentre outros. Les Paul começou a sua carreira de músico tocando banjo, depois gaita (ou harmônica) e aos treze anos de idade já era músico profissional, tocando inicialmente country music. Nessa época, já insatisfeito com o som do seu violão acústico, começou a investir em amplificações de guitarras e não tardou que ele criasse o primeiro modelo de guitarra de corpo de madeira sólido até chegar ao design atual que hoje conhecemos como gibson les paul. Entre 1941 e 1942 criou seu primeiro modelo de guitarra de corpo de madeira maciço que foi denominado “tronco” (The Log), tendo um formato quadrado com dois captadores (pickups) que prolongava eletricamente as notas tocadas nas cordas de aço. Seu dom nato para inovações e invenções não ficou restrito apenas aos instrumentos musicais elétricos, mas foi dirigido também para novas técnicas de estúdio revolucionárias, como gravação multicanal, por volta de 1948, que o fez se destacar precocemente no universo fonográfico em geral. Algumas das características técnicas de Les Paul como guitarrista eram sua virtuosidade e velocidade anormal nos solos. Les Paul foi influenciado pelo guitarrista belga Dejango Reinhardt e nos anos de 1930 e 1940 fez grandes parcerias com os cantores Bing Crosby e Frank Sinatra; também tocou com o trompetista, vocalista e líder dos All Stars, Louis Armostrong. Suas composições em parceria com sua então esposa Mary Ford, fizeram dele um ídolo em meados dos anos de 1950, as mais famosas foram as canções “Vaya Con Dyos”, “Mockin’ Bird Hill”, “Bye Bye Blues”, “Nola” e “How High The Moon”. Mas Les Paul sempre foi um sujeito discreto, pacato e anti-estrelismo, e talvez por isso fosse tão querido e lhe foi permitido, por Deus, desfrutar uma longa vida sem maiores incidentes. Les Paul, sobretudo persistente e otimista em relação à vida, não se deixava abater quando situações difíceis surgiam. Um fato que ilustra isso ocorreu em 1948, quando sofreu um grave acidente automobilístico. Os médicos disseram que ele não recuperaria o movimento normal do ombro atingido. Les Paul então instruiu os cirurgiões que o operassem de tal maneira que não o impedissem de tocar novamente, e assim foi feito. O modelo famoso da gibson les paul dourada que conhecemos hoje, foi lançada oficialmente no verão de 1952 nos EUA, ao preço de US$ 210,00. O jovem Lester William Polfus foi o próprio garoto-propaganda. Les Paul faleceu em 12 de agosto de 2009, aos bem vividos 94 anos de idade, em decorrência de complicações de pneumonia ao lado de seus quatro filhos e sua segunda esposa Arlene Palmer. E dizem que pouco antes de sua saúde complicar ele estava tocando sua “invenção” surpreendentemente muito bem.

06 – JOE PASS – Guitarrista e compositor norte-americano nascido em 13 de janeiro de 1929. Desde menino, Josephy Anthony Jacobi Passalaqua demonstrou sua aptidão pela música, aos nove anos ganhou a primeira guitarra dada pelo pai que o incentivava e já tinha o hábito de escutar os discos dos guitarristas Django Reinhardt e Charlie Christian. Seguindo o curso dos acontecimentos, foi atraído pelo movimento bebop encabeçados por Charlie Parker e Dizzy Gillespie, o que fez sua cabeça definitivamente. Quando completou dezoito anos abandonou os estudos de vez e mudou-se para Nova York onde pôde acompanhar de perto seus ídolos. No berço do jazz, Joe Pass passa a estudar teoria musical com o guitarrista Harry Volpe enquanto atuava nas bandas de Charlie barnet e Ray McKinley, tocando também como freelancer em clubes diversos de Manhattan e New Jersey. Mas a boa vida acabou, quando foi convocado e serviu à marinha por aproximadamente um ano. De volta, tudo se transforma para a pior, Joe Pass começa a se envolver com drogas em meados dos anos de 1950 e aquele futuro promissor para um dos maiores guitarristas de jazz surgidos no pós-guerra parecia cada vez mais distante, suas performances caem em qualidade e ele passa a ser comparado à guitarristas menos talentosos. Desesperado mudou-se para a cidade de New Orleans, onde chegou a tocar em boates de strip-tease, afundando-se cada vez mais no vício. Ele chegou ao ponto de roubar instrumentos musicais dos colegas para sustentar sua dependência química. Pass, foi preso por duas vezes na década de 1950 portando drogas, passou também por duas internações tentando se reabilitar, totalizando sete anos de sua vida lutando contra a dependência de heroína. Como ele mesmo disse, foi uma “década perdida”, suas prioridades naqueles dias eram “em primeiro lugar ficar chapado, em seguida vinham a música e as garotas.” E ainda completa, “Só que as drogas minavam todo o meu  dinheiro e energia.” Em 1962, definitivamente curado, Joe Pass lança o disco Sounds Of Synanon em parceria com o pianista (e ex-viciado) Arnold Ross e outros músicos, que conheceu no Centro de Internação e Reabilitação de Synanon. Foi a volta por cima de Joe Pass, o trabalho foi um sucesso de público e crítica, ele estava de novo nos trilhos.  Por um bom período estabeleceu-se em Santa Mônica, Los Angeles, onde teve oportunidade para trabalhar com músicos do quilate de Chet Baker, Johnny Mathis, Sarah Vaughan, Benny Goodman, Les McCann, Frank Sinatra, Joe Williams, Carmen McRae, só para citar alguns. Sai então, seu primeiro trabalho solo, denominado Catch Me (1963); Pass estava no auge da forma técnica e foi considerado “o mais espetacular guitarrista a surgir na cena jazzística, desde o aparecimento de Wes Montgomery, no final dos anos de 1950”, segundo a crítica. Foi chamado também de “Charlie Parker da guitarra” e o próprio Wes Montgomery disse que Pass era seu guitarrista favorito. Joe Pass tecnicamente tocando possuía articulação, destreza e técnica apuradas fazendo com que a complexidade harmônica do bebop soasse como a coisa mais simples do mundo. Os críticos diziam que “Pass suavizava o nervosismo do bebop e impunha à obviedade do swing uma complexidade avessa a hermetismos.” Dono de um fraseado dos mais sofisticados dentre os guitarristas de jazz e de uma técnica soberba, nunca se pôde acusar Joe Pass de exibicionista, pois ele era a própria simplicidade em pessoa, mas era senhor de uma sonoridade cristalina, graciosa e com tal leveza que parecia vir de um som acústico, mesmo quando amplificado. Seus modelos de guitarrras favoritos eram as D’Aquisto e Ibanez. Joe Pass atravessou as décadas de 1970 e 1980 gravando obras primas fazendo parcerias regulares com o pianista Oscar Peterson, Ella Fitzgerald, o saxofonista Benny Carter, dentre outros. Excursionou por todo o mundo, inclusive no Brasil, fazendo versões admiráveis de obras consagradas de compositores como Ivan Lins, Milton Nascimento, Luis Bonfá e Tom Jobim. Em 1987 fez uma apresentação no Clube Blue Note, em Nova Iorque, ao lado do violonista brasileiríssimo, Baden Powell. Em 1992, descobriu um câncer no fígado, mas mesmo debilitado continuou a trabalhar até que em 23 de maio de 1994, faleceu aos 65 anos de idade. Dentro da vasta discografia de Joe Pass, os trabalhos essenciais além dos já citados Sounds Of Synanon e Catch Me, são igualmente indispensáveis, Joy Spring (1964); For Django (1964); Virtuoso (1973), talvez sua obra-prima, que gerou uma seqüência de mais dois volumes; Portrait Of Duke Ellington (1974); Chops (1978); We’ll Be Together Again (1988); Live At Yoshi’s – Vols. 1 & 2 (1992); e Finally: Live In Stockholm (1992).
 
 07 – KENNY BURREL – Guitarrista norte-americano nascido em 31 de julho de 1931. Kenneth Earl Burrell simplesmente não poderia ignorar a música, pois sua mãe era corista de uma igreja batista e pianista, seu pai tocava banjo e seus dois irmãos mais velhos eram guitarristas. Inicialmente Burrell aprendeu a tocar baixo e em seguida passou para a guitarra. Ele nunca negou suas influências no jazz, citando nomes de guitarristas como Oscar Moore, Charlie Christian, Django Reinhardt, Eddie Lang e Freddie Green. Da mesma forma teve fortes influências no blues, destacando os nomes de T-Bone Walker e Muddy Waters, para a surpresa de alguns puristas. Eclético, Burrel admirava também a música erudita e chegou a praticar violão clássico sob a orientação de Joseph (Joe) Fava. Nos anos de 1950 as coisas começam a acontecer para o jovem Burrell, na cidade de Detroit em 1951, fez sua primeira gravação colaborando com um grupo sob o comando de Dizzy Gillespie e que contava ainda com John Coltrane, Milt Jackson e Percy Heath. E após concluir seus estudos na universidade, excursionou com a banda de Oscar Peterson, que já conhecia a técnica impressionante do jovem guitarrista. Mudando para Nova York, a meca do jazz, Kenny Burrell tornou-se em pouco tempo um dos mais requisitados guitarristas da época, tocando ao lado de mestres do jazz como  John Coltrane, Stan Getz, Benny Goodman, Coleman Hawkins, Billie Holiday, Ray Charles, Herbie Hanckock, Miles Davis e Charlie Parker, só para citar os mais famosos. Já era tempo de Burrell, com tanto prestígio, iniciar sua carreira solo. Ele já era considerado um dos mais completos da história do jazz, tinha um fraseado elegante e lírico, explorando com facilidade as complexas harmonias do bebop quanto os ritmos compassados do blues, rhythm & blues ou funk. Burrell chegou a tocar para soulman James Brown. Jimi Hendrix chegou a declarar que Burrell tinha desenvolvido o som que ele (Hendrix) sempre buscou. Não foi a toa que diziam que Burell era “o mais negro dos guitarristas brancos de jazz”. Alguns afirmavam que ele era o guitarrista preferido de Duke Ellington, apesar de nunca terem gravado juntos, apenas terem dividido o palco em algumas ocasiões. Não foi por acaso que Kenny Burrell gravou uma série de discos dedicados à obra de Ellington na década de 1970. O veterano guitarrista teve sua obra reconhecida ainda em vida, em 2005 recebeu o título de Jazz Máster pela National Endowment for the Arts (NEA), além do prêmio Jazz Educator of the Year, pela revista Down Beat em 2004. Em 2010 foi homenageado no Grammy com o prêmio Salute to Jazz. Kenny Burrell publicou dois livros, Jazz Guitar e Jazz Guitar Solos e fundou uma entidade destinada à preservação e promoção do jazz, a Jazz Heritage Foundation. A lista dos guitarristas influenciados por Burrell é extensa, mas vale citar alguns como, Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan no rock; George Benson, Lary Coryell, Joe Pizzarelli, Joe Martino e Stanley Jordan, no jazz. Seus trabalhos essenciais e que deveriam estar na discoteca de qualquer entendido de jazz são, Introducing Kenny Burrell (1956); All Night Long (1956); Blue Moods (1957); The Cats (1957); Blue Lights Vols. 1 & 2 (1958); Kenny Burrell and John Coltrane (1958); Midnight Blue (1967); Up the Street, ‘round the Corner, Down the Block (1974); Ellington is Forever Vols. 1 & 2 (1975/77); e Tenderly (2011). Kenny Burrell está atualmente, com 81 anos de idade.

08 – PAT METHENY – Guitarrista e compositor norte americano nascido em 12 de agosto de 1954. Patricky Bruce Metheny faz parte de uma geração de novos guitarristas surgidos em meados dos anos de 1970 que chamou a atenção do público jovem geralmente alheio ao jazz. Seu modo descontraído de se vestir e seu carisma natural, seu talento para improvisações, além de rapidez e técnica impressionantes, contribuíram muito para cativar fãs por todo o mundo. O que contribuiu também para sua popularidade foi que Metheny investiu até em vídeo-clipes exibidos pela MTV, nas décadas de 1980, para divulgar seu trabalho. Como a maioria dos músicos natos, Pat, que era filho de um trompetista, iniciou-se precocemente, primeiro com o saxofone aos oito anos, passando para a guitarra aos doze, e aos quinze anos de idade já tocava profissionalmente com músicos experientes no Kansas, Missouri. O modelo de guitarra favorito de Matheny é a tradicional Gibson ES-175. Além das guitarras, Metheny domina também com maestria, o violão e a Sitar indiana. Segundo os críticos, ele teria reinventado o som tradicional das guitarras de jazz e tornando-se uma figura chave para o gênero e variações, jazz rock, jazz fusion, progressive jazz, jazz contemporâneo e post-bop, dos últimos 20 anos, abrindo os horizontes para uma leva de guitarristas emergentes. Seu estilo criativo para tocar foi desenvolvido sob influência de músicos consagrados como os guitarristas Jim Hall, Wes Montgomery, John MacLaughlin e Jimi Hendrix, o trompetista Miles Davis e os saxofonistas John Coltrane e Ornette Colleman. Ao longo de sua produtiva carreira Pat Metheny ganhou vários prêmios e títulos como “Melhor Guitarrista de Jazz” e prêmios Grammy de “Melhor Rock Instrumental”, “Melhor Gravação de Jazz Contemporâneo”, “Melhor Solo Instrumental de Jazz” e “Melhor Gravação Instrumental”; sendo por essas e por outras que ele foi acusado de ser comercial demais para os puristas de jazz, mas de qualquer forma seus trabalhos, dentro de sua proposta, são geralmente de primeira qualidade. Aberto a novas influências, Pat Metheny trabalhou com músicos de gêneros diversos, passando por Herbie Hanckock no jazz, Milton Nascimento na nossa MPB até David Bowie no glamour & pop rock. Suas experiências não param por aí, ele foi um dos pioneiros da música eletrônica e um dos primeiros músicos de jazz a tratar o sintetizador com seriedade. Seu lado inventor e criativo contribuiu também para o surgimento da guitarra acústica soprano, a guitarra Pikasso de 42 cordas e a guitarra Ibanez Pm-100, dentre outras invenções. Dos trabalhos de Pat Metheny, posso destacar os seguintes, Bright Size Live (1975); American Garage (1980); 80/81 (duplo, 1980); Rejoicing (1983);  The Falcon and the Snow Man (1984); Secret History (1992); Like Minds (1998); e The Way Up (2005).

09 – STANLEY JORDAN – Guitarrista, pianista e compositor norte-americano nascido em 31 de julho de 1959. Famoso por ter popularizado a técnica de “tapping” (uma variação da técnica de notas ligadas) para a guitarra e outra série de inovações musicais para o instrumento. A técnica do tapping consiste em “martelar” ou “digitar” notas na escala do braço da guitarra (violão ou baixo), ligando-as e adquirindo efeito de grande velocidade. Outros guitarristas que contribuíram para a divulgação dessa técnica foram Roy Smeck nos anos de 1930, Jimmy Webster nos anos de 1950, Steve Hackett (do Genesis) nos anos de 1970 e Eddie Van Halen, nos anos de 1980. Voltando ao jazz, o estilo de Jordan pode ser classificado como jazz fusion, pois agrega ao jazz elementos não convencionais ao gênero tradicional. Stanley Jordan teria começado estudar piano aos seis anos de idade e aos onze, se voltou para a guitarra. Inicialmente tocava temas de rock e soul, se destacando posteriormente em diversos festivais pelo mundo como o Kool Jazz Festival de 1984, Concord Jazz Festival e Montreaux International Jazz Festival, ambos de 1985. Stanley Jordan foi descoberto nas ruas e não nos palcos. Ele seguiu os passos dos incontáveis músicos anônimos que tocam nas ruas de grandes centros em troca de algumas moedas. Jordan, ao contrário da maioria, não passou em branco, pois ficou conhecido como “o guitarrista incrível que toca por alguns cents” nas ruas de Nova York, Filadélfia e outras cidades do Meio Oeste e Sul dos EUA; até que ele foi notado por empresário musical que o convidou para gravar um disco. Mas Jordan recusou a oferta na ocasião por achar que não estava preparado tecnicamente para assumir o compromisso. Pouco mais de um ano depois ele foi novamente abordado pelo mesmo agente e desta vez aceitou o convite, resultando no bom disco de estréia, Touch Sensitive (1982), que foi seguido pelo trabalho homônimo (1984) e o famoso Magic Touch (1985). Este último disco foi considerado uma síntese de vários estilos de jazz e classificado como um padrão definitivo para o jazz contemporâneo. Mas Jordan não se acomodou em seus experimentos e continuou inovando, como em Cornucopia (1990), onde vez uma versão groove-orientada do tema erudito “Bolero”, de Ravel. Além de ter tido a oportunidade de tocar com lendas do jazz, como Dizzy Gillespie e Bennie Carter, Stanley Jordan foi influenciado por músicos de gêneros diversos, como os guitarristas de blues & rock, Carlos Santana, Jimi Hendrix e Roy Buchanan; e os guitarristas de jazz consagrados como Wes Montgomery, George Benson e o húngaro Gabor Szabo. Ultimamente Stanley Jordan tem se apresentado regularmente no Brasil, contando com músicos brasileiros num trio de guitarra, baixo e bateria; sendo habitual em seu repertório interpretações surpreendentes de temas consagrados da nossa MPB. Da discografia de Stanley Jordan posso indicar os seguintes trabalhos, o já citado Magic Touch (1985); Standards Vol. 1 (1986); Cornucopia (1990); Stolen Moments (1991); Bolero (1994); Live in New York (1998) e Friends (2011).

10 – GEORGE BENSON – Guitarrista e vocalista afro-americano nascido em 22 de março de 1943. Criado numa família de músicos amadores, George Benson já tocava um ukele (violão pequeno com quatro cordas) ainda criança e aos 10 anos fez a sua primeira gravação tocando “She Makes Me Mad”. A década de 1960 foi de muito aprendizado para George Benson, que teve o privilégio de tocar ao lado de lendas do jazz como Miles Davis, Herbie Hanckock e Ron Carter, o que fez crescer sua fama de um dos melhores guitarristas de jazz na época. Assim, ele lançaria seu primeiro disco como profissional, The New Boss Guitar Of George Benson (1964). Os álbuns que se seguiram, apesar da boa qualidade, não tiveram o reconhecimento merecido de público e crítica. Em 1971, Benson começa a enveredar por um caminho que fez os puristas de jazz “torcerem” o nariz, ao acrescentar na sua sonoridade, elementos de música pop, tentando alcançar um mercado mais abrangente. Mas só em 1975 que ele alcança o sucesso desejado com a gravação do hit “Supership”. Claramente ele ia se afastando da linha pura do jazz, mas não deixando de gravar temas clássicos do gênero. Em 1976, seu disco Breezin’, bateu o recorde de vendas para um disco de jazz, ganhou o Grammy além do disco de ouro e platina, mas a partir daí notadamente em boa parte de suas interpretações, seu vocal estava se destacando mais do que sua guitarra. Benson ainda conseguiu agradar boa parte da crítica e público nas versões de grandes clássicos como “This Masquarade”; “Breezin”; “The Flight”; “Nature Boy”; “On Broadway” e “Take Five”. Ele estava claramente direcionando seu trabalho para uma sonoridade mais suave e dançante, almejando alcançar o público além das fronteiras restritas do jazz e de certa forma, alcançou o que queria. A sua versão de “On Broadwy” foi usada no filme All That Jazz (O Show Deve Continuar) de 1979, que lhe trouxe ainda mais popularidade. Em 1981, a faixa “Turn Your Love Around” chegou ao top das paradas, enquanto que no ano seguinte, emplacou outro sucesso, “Never Give Up On A Good Thing”. Benson tinha toda a pinta de músico de jazz, mas ao contrário da maioria que preferia certo anonimato, ele optava pelos holofotes. Talvez por isso tenha se desviado um pouco do foco inicial, que seria desenvolver ao menos um bom jazz contemporâneo, já que fora influenciado por mestres tradicionais de jazz guitar como Charlie Christian, Eddie Lang, Wes Montgomery, Grant Green e pelos vocais de Joe Williams e Louis Armstrong. George Benson nunca foi unanimidade, os músicos puristas de jazz sempre o rejeitaram devido ao seu visual de soulman, o pessoal do R&B e soul o achavam sofisticado demais para um ambiente esfumaçado e barulhento, só restou para Benson aventurar-se no mundo menos exigente da pop music, criando um estilo que flutua entre o jazz, o pop e o soul. Apesar dos prós e contras, George Benson realizou grandes trabalhos e inegavelmente contribuiu para a divulgação do jazz entre o público do rock e do pop. Posso indicar alguns essenciais como o já citado The New Boss Guitar Of George Benson; It´s Uptown (1965); Shape Of  Things To Come (1968); The Other Side Of Abbey Road (1970); Jazz on a Sunday Afternoon Vols. 1 & 2; Beyond The Blue Horizon (1973); In Concert: Carnegie Hall (1975); Good King Bad (1975); Breezin’ (1976); Weekend in L. A. (1977); Give Me the Night (1980); Tenderly (1989);  e Big Boss Band (1990). Nos últimos anos George Benson tenta resgatar suas origens jazzísticas, tocando seus modelos Ibanez G B 10 e G B 200 Signature.

- Com essa quarta lista dos 10 Maiores Guitarristas, encerro um trabalho prazeroso de pesquisa e espero ter contribuído com o acréscimo de informações interessantes para o conhecimento de quem procura aprender um pouco mais sobre a boa música.

Por Eumário J. Teixeira.