6 de jan. de 2013

OS 10 MAIORES GUITARRISTAS – PARTE IV - DE JAZZ & FUSION


Muitas listas com os nomes dos maiores guitarristas da história da música circulam pela internet e revistas especializadas. A cada classificação de tais nomes geralmente é baseada na capacidade técnica e habilidade de cada músico, o que é o bastante para gerar muita controvérsia. Para exemplificar, há certo consenso no que se diz respeito sobre quem seria o número um da lista, o maior de todos. O nome que mais aparece no primeiro lugar é o de Jimi Hendrix. Já a partir do segundo classificado acontecem muitas variações, revezando os nomes de Eric Clapton, Jeff Beck, Jimmy Page, Eddie Van Halen, etc. Como alguns gêneros musicais são desprezados nessas relações e nomes como Django Reinhardt e Dick Dale, geralmente ficam de fora, elaborei quatro listas com guitarristas considerados especialistas em seu gênero musical, sendo que a classificação de cada relação vai de um a dez. Não considerei apenas a habilidade técnica do guitarrista, mas também sua importância dentro do(s) gênero(s) que representa. Não sou um conhecedor profundo do assunto, nem ao menos sou músico, mas me baseei nos discos que já ouvi e no que li sobre a história da música em geral, considerando também o meu gosto pessoal. As listas estão divididas em quatro gêneros assim classificados: 1 – Jump Blues, Rock & Roll, Surf & Instrumental Rock; 2 – Blues Acústico & Elétrico; 3 - Blues Rock & Heavy Rock; e 4 – Jazz & Fusion. 

01 – CHARLIE CHRISTIAN – Guitarrista afro-americano nascido em 29 de julho de 1916, diretamente responsável por colocar a guitarra elétrica no mesmo patamar dos metais na época de ouro das big bands. Charles Henry Christian se iniciou na música através do saxofone, mas foi seduzido pelo som da guitarra em seguida. Christian não foi o primeiro a utilizar a guitarra elétrica numa orquestra, coube a Eddie Durham o privilégio; mas Christian foi quem desenvolveu uma nova linguagem para o instrumento. Antes de Christian a guitarra não passava de um instrumento da seção rítmica recuada, após Christian a guitarra conquistou seu direito de alçar solos livremente na frente da banda. A sua excepcional técnica de solar em legato com as notas praticamente ligadas, fazia sua guitarra soar como um instrumento de sopro ou violino. Ele também foi pioneiro em explorar as dissonâncias e acordes intermediários, rompendo as limitações das harmonias básicas. Christian foi descoberto no Texas em 1939 pelo produtor e caçador de talentos, John Hammond, que o levou para Nova York e o apresentou para o clarinetista e líder de banda, Benny Goodman, que por sua vez o contratou de imediato. Charlie Christian, mestre do swing e jazz tradicional, foi considerado peça fundamental para a formação de novos estilos de jazz conhecidos como bebop e cool jazz; pois após as apresentações com o sexteto de Goodman, Christian se refugia nos clubes do Harlem onde participava de jams sessions junto a músicos de jazz renomados como Charlie Parker, Dizzy Gillepsie e Thelonious Monk em reuniões que foram certamente o ponto de partida para a criação do bebop. Especialistas de jazz afirmam que a maioria dos guitarristas de jazz (e até mesmo de blues) que surgiram após Charlie Christian, foram influenciados por seu estilo inovador. Dentre os mais conhecidos, podemos citar Lonnie Johnson, T-Bone Walker e B. B. King, no blues; Oscar Moore, Les Paul, Kenny Burrell, Grant Green, Wes Montgomery e George Benson, no jazz; Chuck Berry, Scotty Moore, Carlos Santana e Jimi Hendrix, no rock. Charles Christian integrava o sexteto de Benny Godman até ser internado com tuberculose em 1940, nunca mais se recuperou totalmente, vindo a falecer em 02 de março de 1942, aos precoces 25 anos de idade. O modelo de guitarra preferido de Christian era a Gibson ES-150, equipada com o pick-up (captador) que mais tarde levou seu nome. Alguns registros em discos resgataram um pouco do seu imenso legado, como os cds Charlie Christian With The Benny Goodman Sextet And Orchestra; Solo Flight: The Genius of Charlie Christian; Solo Flight: Live Performances as Member of the Benny Goodman Sextet; Genius of the Eletric Guitar – 1939-1941 Recordings; e Live at Minton’s Playhouse 1941.

02 – DJANGO REINHARDT – Guitarrista belga, nascido em 1910. Ele foi um dos primeiros guitarristas de jazz branco e europeu. Filho de ciganos, Jean-Baptiste “Django” Reinhardt passou boa parte de sua vida vagando com a família por toda a Europa. A música melancólica cigana o inspirou para criar um estilo único de tocar, mesclando rara habilidade e leveza. Django começou a ser notado num acampamento cigano próximo a Paris, quando ainda muito jovem já tocava banjo, violino e guitarra acústica; logo ele começaria a tocar em tocar em algumas danceterias da capital francesa. Casado já aos 18 anos, sobreviveu a uma tragédia que mudaria para sempre sua vida. Ao se preparar para dormir em sua casa, após mais uma noite de apresentação, ele derrubou um vela acesa que queimou rapidamente um material inflamável usado por sua esposa para fazer flores artificiais. O resultado foi que Django teve queimaduras de primeiro e segundo grau na metade do corpo, em conseqüência das queimaduras teve sua perna direita paralisada e sua mão esquerda gravemente ferida. Em mais ou menos um ano, Django já podia andar de muletas e graças ao incentivo do irmão Joseph Reindhardt, também um grande guitarrista, ele volta a praticar com a guitarra mesmo com dois dedos (anular e mínimo) da mão esquerda, parcialmente paralisados. Ele ainda conseguia usar esses dois dedos para tocar, embora não conseguisse utilizá-los para solar no braço da guitarra. Embora sua reabilitação fosse dolorosa e difícil, Django conseguiu desenvolver um novo modo de tocar que o deixou famoso, superando assim suas limitações físicas. Poucos anos depois, na Paris de 1934, o Quintette du Hot Club de France composto por Django Reinhardt, Joseph Reinhardt e Roger Chaput nas guitarras; Stéphane Grappelli, no violino; e Louis Vola, no baixo, era a sensação nos clubes noturnos. Sua fama crescente fez com se aproximasse e gravasse com estrelas do jazz norte-americano como Coleman Hawkins, Benny Carter, Rex Stewart e Louis Armstrong, apesar de ser analfabeto e não conseguir ler partituras. Durante a Segunda Guerra Mundial, Django se virou como pode, abandonou a excursão que fazia com Grappelli na Inglaterra e largou sua esposa, retornando definitivamente para Paris e temendo pelas perseguições nazistas aos ciganos. Em 1943 casou-se novamente e logo após o fim da guerra volta para a Inglaterra para se juntar a Grappelli. Em seguida foram para os EUA onde abriram shows para Duke Ellington e fizeram apresentações no Carnegie Hall. Voltando para a França, Django se reintegra à vida cigana, estava no seu sangue, ele não conseguia se adaptar aos confortos das grandes metrópoles. Entendidos de jazz dizem que foi do Quintette Du Hot Club De France que nasceu o conceito “lead guitar” se referindo ao papel de Django como solista no grupo e “rhythm guitars” em referência a Joseph Reinhardt e Roger Chaput, que o acompanhavam no ritmo ou na percussão usando o corpo das próprias guitarras. Mas Django experimentou uma banda com baixo, piano e percussão também, composta por músicos italianos de jazz resultando no trabalho denominado Djangology, que contou com a participação do eterno parceiro Stephane Grappelli e seu violino. O modelo de guitarra preferido de Django era acústica Selmer-Maccaferi, era o instrumento que lhe deixava a vontade para voltar às suas origens ciganas, já que tinha experimentado sem muito sucesso as guitarras amplificadas e ter se deixado influenciar de alguma maneira pelo jazz norte-americano. Suas maiores influências além da própria cultura cigana, foram os guitarristas de jazz Charlie Christian e Eddie Lang, e o trompetista Louis Armstrong. Dentre seus seguidores, podemos citar os guitarristas Grant Green, Joe Pass, Les Paul, Larry Coryell, Bucky Pizarelli, etc. Django faleceu devido a uma hemorragia cerebral em 16 de maio de 1953 aos 43 anos, em Fontainebleau, França. De sua discografia, as gravações que são altamente recomendadas são At Club St. Germain (1951), Django Reinhardt et Ses Rythmes (1953) e The Great Artistry Of  Django Reinhardt (1954).

03 – WES MONTGOMERY – Guitarrista afro-americano nascido em 06 de março de 1923, considerado um herdeiro do estilo de Charlie Christian, ou ainda, uma extensão natural do guitarrista texano. John Leslie “Wes” Montgomery era autodidata, por forças das circunstâncias usava o dedo polegar para dedilhar as cordas de sua guitarra, o que é considerado tecnicamente errado pelos puristas. Wes era o segundo de três irmãos, todos músicos talentosos e que tocaram e se apresentaram juntos no início de suas carreiras profissionais. Os outros dois eram Buddy e Monk Montgomery, mas Wes foi considerado por um crítico como “a melhor coisa que aconteceu com a guitarra depois de Charlie Christian”, trazendo ainda inovações para o jazz. O incrível é que Wes Montgomery começou seu aprendizado aos 19 anos, uma idade em que normalmente músicos de jazz já têm um estilo próprio definido; vale lembrar que Charlie Christian faleceu com apenas 25 anos. Dizem que Wes não desenvolveu a técnica com o dedo polegar por vontade própria, foi a única alternativa que teve, pois durante seu aprendizado ao tocar normalmente com a palheta, a sonoridade gerada incomodava a esposa que precisava dormir para acordar cedo para o trabalho e os vizinhos, assim passou a dedilhar com o polegar produzindo um som mais abafado, menos agressivo, mais agradável e melódico. Seu progresso foi espantoso e já no final da década de 1940, Wes Montgomery foi convocado para a banda de Lionel Hampton. Pouco depois, Wes volta se unir aos dois irmãos, e com Buddy no vibrafone e Monk no baixo elétrico, formam o grupo Mastersounds, mudado em seguida para Montgomery Brothers. Com essa formação que contava ainda com um trompetista de 17 anos chamado Freddie Hubbard, gravaram o bom disco Fingerpickin’ (1958). Durante toda sua carreira Wes Montgomery fez parceria com músicos renomados como o vibrafonista Milt Jackson e o organista Jimmy Smith. Mas ele foi reconhecido definitivamente na comunidade jazzística ao lançar o primoroso disco The Incredible Jazz Guitar of Wes Montgomery (1960), que junto aos posteriores Movin’ Along (1960) e Full House (1962), são obrigatórios na discoteca básica de qualquer colecionador e estudioso de jazz. O modelo de guitarra preferido de Wes Montgomery era a Gibson L-5 CES, suas maiores influências foram Charlie Christian e Django Reinhardt. Ele não deixaria de influenciar outros guitarristas que surgiriam após seu breve, mas intenso reinado e alguns que beberam de sua fonte foram os guitarristas de jazz, Grant Green, George Benson, Kenny Burrell e Pat Metheny; e os guitarristas de rock, Steve Howe do Yes e Jimi Hendrix, só para citar alguns. No auge da fama e reconhecimento, Wes Montgomery sofre um ataque cardíaco fulminante, em 15 de junho de 1968, aos precoces 45 anos. Outros discos de Wes Montgomery que vale a pena ouvir são Far Wes (1959); Bags Meets Wes! (1961), com Milt Jackson; So Much Guitar (1961); Live at Ronnie Scott’s (1964); Smokin’ at the Half Note (1965);  Jimmy & Wes: The Dynamic Duo (1966) com Jimmy Smith.

04 – GRANT GREEN – Guitarrista e compositor afro-americano, nascido em 06 de junho de 1935. Green transmitia muita simplicidade no palco, geralmente sentado com as pernas cruzadas e com os olhos fechados, se deixava levar pelas notas que emitia de sua guitarra modelo Gibson ES-330 - D’Aquisto, destilando sua música orgânica, límpida e suave, que parecia refletir seu estado de espírito e sua satisfação de estar ali tocando naquele momento. Seu fraseado era facilmente reconhecido, seus fãs certamente poderiam identificá-lo com apenas o primeiro acorde tocado. É verdade que Grant Green não agradava a cem por cento dos críticos e especialistas de jazz, já que incorporava à sua música elementos de outros gêneros como o blues, boogie & woogie, R & B, spiritual, gospel, soul, funk e até rock. Precoce, Green começou a tocar profissionalmente desde os treze anos de idade, incentivado pelo pai que era também guitarrista. No início da década de 1950 já acompanhava e gravava com músicos de jazz renomados como os saxofonistas Jimmy Forrest e Lou Donaldson, e o trompetista Harry Edison. E foi graças ao empurrãozinho de Lou Donaldson, ele conseguiria gravar seu primeiro disco pelo selo Blue Note em 1961, que foi denominado Grant’s First Stand. Durante a década de 1960 ele desfrutou da colaboração de músicos consagrados no seu trabalho e participou das gravações de vários outros como Jimmy Smith, Larry Young, Sonny Clark, Yusef Lateef, Herbie Hancock, Big John Patton, McCoy Tyner, etc. Grant Green teve um forte influência do guitarrista de jazz norte-americano Jimmy Raney (1927-1995) e também de Charlie Christian, Django Reinhardt e Wes Montgomery, embora afirmasse que sua maior fonte de inspiração viesse dos saxofonistas Charlie Parker e John Coltrane. Em 1965, grava o clássico Idle Moments, um trabalho inspirado, esbanjando criatividade e fluidez, situando-se entre simplicidade e sentimento do blues à elegância e sofisticação do jazz.  Nesse disco consta a belíssima faixa “Django”, em homenagem ao guitarrista cigano Django Reinhardt. Mas, como boa parte dos músicos de jazz, Green era viciado em drogas, principalmente heroína, que comprometeu uma parcela considerável de sua carreira. Ele chegou na década de 1970 muito debilitado pelo vício, até que em 31 de janeiro de 1979, Green sofreu um ataque cardíaco fulminante dentro do seu carro enquanto se dirigia para a festa de lançamento do disco Breezin’ de seu amigo guitarrista, George Benson, um de seus devotos seguidores. Dos seus trabalhos posso destacar alguns discos (cds) indispensáveis, como os já citados anteriormente Grant’s First Stand e Idle Moments;  Gooden’s Corner (1961); Oleo (1962); Born To Be Blue (1962); The Matador (1964); Talkin’ About (1964); I Want To Hold Your Hand (1965), Alive 1970; Live At Lighthouse (1972) e o póstumo The Complete Quartets – with Sonny Clark (1997).

05 – LES PAUL – Guitarrista, banjolista, gaitista, compositor e inventor norte-americano nascido em 09 de junho de 1915. Lester William Polfus, considerado o “pai da guitarra elétrica”, foi simplesmente o inventor do famoso modelo de guitarra Gibson que foi batizada com seu nome artístico, “Les Paul”. Esse modelo de guitarra foi o preferido de astros do rock, como Jimmy Page, Peter Green, Mike Bloomfield, Duane Allman, Pete Townshend, dentre outros. Les Paul começou a sua carreira de músico tocando banjo, depois gaita (ou harmônica) e aos treze anos de idade já era músico profissional, tocando inicialmente country music. Nessa época, já insatisfeito com o som do seu violão acústico, começou a investir em amplificações de guitarras e não tardou que ele criasse o primeiro modelo de guitarra de corpo de madeira sólido até chegar ao design atual que hoje conhecemos como gibson les paul. Entre 1941 e 1942 criou seu primeiro modelo de guitarra de corpo de madeira maciço que foi denominado “tronco” (The Log), tendo um formato quadrado com dois captadores (pickups) que prolongava eletricamente as notas tocadas nas cordas de aço. Seu dom nato para inovações e invenções não ficou restrito apenas aos instrumentos musicais elétricos, mas foi dirigido também para novas técnicas de estúdio revolucionárias, como gravação multicanal, por volta de 1948, que o fez se destacar precocemente no universo fonográfico em geral. Algumas das características técnicas de Les Paul como guitarrista eram sua virtuosidade e velocidade anormal nos solos. Les Paul foi influenciado pelo guitarrista belga Dejango Reinhardt e nos anos de 1930 e 1940 fez grandes parcerias com os cantores Bing Crosby e Frank Sinatra; também tocou com o trompetista, vocalista e líder dos All Stars, Louis Armostrong. Suas composições em parceria com sua então esposa Mary Ford, fizeram dele um ídolo em meados dos anos de 1950, as mais famosas foram as canções “Vaya Con Dyos”, “Mockin’ Bird Hill”, “Bye Bye Blues”, “Nola” e “How High The Moon”. Mas Les Paul sempre foi um sujeito discreto, pacato e anti-estrelismo, e talvez por isso fosse tão querido e lhe foi permitido, por Deus, desfrutar uma longa vida sem maiores incidentes. Les Paul, sobretudo persistente e otimista em relação à vida, não se deixava abater quando situações difíceis surgiam. Um fato que ilustra isso ocorreu em 1948, quando sofreu um grave acidente automobilístico. Os médicos disseram que ele não recuperaria o movimento normal do ombro atingido. Les Paul então instruiu os cirurgiões que o operassem de tal maneira que não o impedissem de tocar novamente, e assim foi feito. O modelo famoso da gibson les paul dourada que conhecemos hoje, foi lançada oficialmente no verão de 1952 nos EUA, ao preço de US$ 210,00. O jovem Lester William Polfus foi o próprio garoto-propaganda. Les Paul faleceu em 12 de agosto de 2009, aos bem vividos 94 anos de idade, em decorrência de complicações de pneumonia ao lado de seus quatro filhos e sua segunda esposa Arlene Palmer. E dizem que pouco antes de sua saúde complicar ele estava tocando sua “invenção” surpreendentemente muito bem.

06 – JOE PASS – Guitarrista e compositor norte-americano nascido em 13 de janeiro de 1929. Desde menino, Josephy Anthony Jacobi Passalaqua demonstrou sua aptidão pela música, aos nove anos ganhou a primeira guitarra dada pelo pai que o incentivava e já tinha o hábito de escutar os discos dos guitarristas Django Reinhardt e Charlie Christian. Seguindo o curso dos acontecimentos, foi atraído pelo movimento bebop encabeçados por Charlie Parker e Dizzy Gillespie, o que fez sua cabeça definitivamente. Quando completou dezoito anos abandonou os estudos de vez e mudou-se para Nova York onde pôde acompanhar de perto seus ídolos. No berço do jazz, Joe Pass passa a estudar teoria musical com o guitarrista Harry Volpe enquanto atuava nas bandas de Charlie barnet e Ray McKinley, tocando também como freelancer em clubes diversos de Manhattan e New Jersey. Mas a boa vida acabou, quando foi convocado e serviu à marinha por aproximadamente um ano. De volta, tudo se transforma para a pior, Joe Pass começa a se envolver com drogas em meados dos anos de 1950 e aquele futuro promissor para um dos maiores guitarristas de jazz surgidos no pós-guerra parecia cada vez mais distante, suas performances caem em qualidade e ele passa a ser comparado à guitarristas menos talentosos. Desesperado mudou-se para a cidade de New Orleans, onde chegou a tocar em boates de strip-tease, afundando-se cada vez mais no vício. Ele chegou ao ponto de roubar instrumentos musicais dos colegas para sustentar sua dependência química. Pass, foi preso por duas vezes na década de 1950 portando drogas, passou também por duas internações tentando se reabilitar, totalizando sete anos de sua vida lutando contra a dependência de heroína. Como ele mesmo disse, foi uma “década perdida”, suas prioridades naqueles dias eram “em primeiro lugar ficar chapado, em seguida vinham a música e as garotas.” E ainda completa, “Só que as drogas minavam todo o meu  dinheiro e energia.” Em 1962, definitivamente curado, Joe Pass lança o disco Sounds Of Synanon em parceria com o pianista (e ex-viciado) Arnold Ross e outros músicos, que conheceu no Centro de Internação e Reabilitação de Synanon. Foi a volta por cima de Joe Pass, o trabalho foi um sucesso de público e crítica, ele estava de novo nos trilhos.  Por um bom período estabeleceu-se em Santa Mônica, Los Angeles, onde teve oportunidade para trabalhar com músicos do quilate de Chet Baker, Johnny Mathis, Sarah Vaughan, Benny Goodman, Les McCann, Frank Sinatra, Joe Williams, Carmen McRae, só para citar alguns. Sai então, seu primeiro trabalho solo, denominado Catch Me (1963); Pass estava no auge da forma técnica e foi considerado “o mais espetacular guitarrista a surgir na cena jazzística, desde o aparecimento de Wes Montgomery, no final dos anos de 1950”, segundo a crítica. Foi chamado também de “Charlie Parker da guitarra” e o próprio Wes Montgomery disse que Pass era seu guitarrista favorito. Joe Pass tecnicamente tocando possuía articulação, destreza e técnica apuradas fazendo com que a complexidade harmônica do bebop soasse como a coisa mais simples do mundo. Os críticos diziam que “Pass suavizava o nervosismo do bebop e impunha à obviedade do swing uma complexidade avessa a hermetismos.” Dono de um fraseado dos mais sofisticados dentre os guitarristas de jazz e de uma técnica soberba, nunca se pôde acusar Joe Pass de exibicionista, pois ele era a própria simplicidade em pessoa, mas era senhor de uma sonoridade cristalina, graciosa e com tal leveza que parecia vir de um som acústico, mesmo quando amplificado. Seus modelos de guitarrras favoritos eram as D’Aquisto e Ibanez. Joe Pass atravessou as décadas de 1970 e 1980 gravando obras primas fazendo parcerias regulares com o pianista Oscar Peterson, Ella Fitzgerald, o saxofonista Benny Carter, dentre outros. Excursionou por todo o mundo, inclusive no Brasil, fazendo versões admiráveis de obras consagradas de compositores como Ivan Lins, Milton Nascimento, Luis Bonfá e Tom Jobim. Em 1987 fez uma apresentação no Clube Blue Note, em Nova Iorque, ao lado do violonista brasileiríssimo, Baden Powell. Em 1992, descobriu um câncer no fígado, mas mesmo debilitado continuou a trabalhar até que em 23 de maio de 1994, faleceu aos 65 anos de idade. Dentro da vasta discografia de Joe Pass, os trabalhos essenciais além dos já citados Sounds Of Synanon e Catch Me, são igualmente indispensáveis, Joy Spring (1964); For Django (1964); Virtuoso (1973), talvez sua obra-prima, que gerou uma seqüência de mais dois volumes; Portrait Of Duke Ellington (1974); Chops (1978); We’ll Be Together Again (1988); Live At Yoshi’s – Vols. 1 & 2 (1992); e Finally: Live In Stockholm (1992).
 
 07 – KENNY BURREL – Guitarrista norte-americano nascido em 31 de julho de 1931. Kenneth Earl Burrell simplesmente não poderia ignorar a música, pois sua mãe era corista de uma igreja batista e pianista, seu pai tocava banjo e seus dois irmãos mais velhos eram guitarristas. Inicialmente Burrell aprendeu a tocar baixo e em seguida passou para a guitarra. Ele nunca negou suas influências no jazz, citando nomes de guitarristas como Oscar Moore, Charlie Christian, Django Reinhardt, Eddie Lang e Freddie Green. Da mesma forma teve fortes influências no blues, destacando os nomes de T-Bone Walker e Muddy Waters, para a surpresa de alguns puristas. Eclético, Burrel admirava também a música erudita e chegou a praticar violão clássico sob a orientação de Joseph (Joe) Fava. Nos anos de 1950 as coisas começam a acontecer para o jovem Burrell, na cidade de Detroit em 1951, fez sua primeira gravação colaborando com um grupo sob o comando de Dizzy Gillespie e que contava ainda com John Coltrane, Milt Jackson e Percy Heath. E após concluir seus estudos na universidade, excursionou com a banda de Oscar Peterson, que já conhecia a técnica impressionante do jovem guitarrista. Mudando para Nova York, a meca do jazz, Kenny Burrell tornou-se em pouco tempo um dos mais requisitados guitarristas da época, tocando ao lado de mestres do jazz como  John Coltrane, Stan Getz, Benny Goodman, Coleman Hawkins, Billie Holiday, Ray Charles, Herbie Hanckock, Miles Davis e Charlie Parker, só para citar os mais famosos. Já era tempo de Burrell, com tanto prestígio, iniciar sua carreira solo. Ele já era considerado um dos mais completos da história do jazz, tinha um fraseado elegante e lírico, explorando com facilidade as complexas harmonias do bebop quanto os ritmos compassados do blues, rhythm & blues ou funk. Burrell chegou a tocar para soulman James Brown. Jimi Hendrix chegou a declarar que Burrell tinha desenvolvido o som que ele (Hendrix) sempre buscou. Não foi a toa que diziam que Burell era “o mais negro dos guitarristas brancos de jazz”. Alguns afirmavam que ele era o guitarrista preferido de Duke Ellington, apesar de nunca terem gravado juntos, apenas terem dividido o palco em algumas ocasiões. Não foi por acaso que Kenny Burrell gravou uma série de discos dedicados à obra de Ellington na década de 1970. O veterano guitarrista teve sua obra reconhecida ainda em vida, em 2005 recebeu o título de Jazz Máster pela National Endowment for the Arts (NEA), além do prêmio Jazz Educator of the Year, pela revista Down Beat em 2004. Em 2010 foi homenageado no Grammy com o prêmio Salute to Jazz. Kenny Burrell publicou dois livros, Jazz Guitar e Jazz Guitar Solos e fundou uma entidade destinada à preservação e promoção do jazz, a Jazz Heritage Foundation. A lista dos guitarristas influenciados por Burrell é extensa, mas vale citar alguns como, Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan no rock; George Benson, Lary Coryell, Joe Pizzarelli, Joe Martino e Stanley Jordan, no jazz. Seus trabalhos essenciais e que deveriam estar na discoteca de qualquer entendido de jazz são, Introducing Kenny Burrell (1956); All Night Long (1956); Blue Moods (1957); The Cats (1957); Blue Lights Vols. 1 & 2 (1958); Kenny Burrell and John Coltrane (1958); Midnight Blue (1967); Up the Street, ‘round the Corner, Down the Block (1974); Ellington is Forever Vols. 1 & 2 (1975/77); e Tenderly (2011). Kenny Burrell está atualmente, com 81 anos de idade.

08 – PAT METHENY – Guitarrista e compositor norte americano nascido em 12 de agosto de 1954. Patricky Bruce Metheny faz parte de uma geração de novos guitarristas surgidos em meados dos anos de 1970 que chamou a atenção do público jovem geralmente alheio ao jazz. Seu modo descontraído de se vestir e seu carisma natural, seu talento para improvisações, além de rapidez e técnica impressionantes, contribuíram muito para cativar fãs por todo o mundo. O que contribuiu também para sua popularidade foi que Metheny investiu até em vídeo-clipes exibidos pela MTV, nas décadas de 1980, para divulgar seu trabalho. Como a maioria dos músicos natos, Pat, que era filho de um trompetista, iniciou-se precocemente, primeiro com o saxofone aos oito anos, passando para a guitarra aos doze, e aos quinze anos de idade já tocava profissionalmente com músicos experientes no Kansas, Missouri. O modelo de guitarra favorito de Matheny é a tradicional Gibson ES-175. Além das guitarras, Metheny domina também com maestria, o violão e a Sitar indiana. Segundo os críticos, ele teria reinventado o som tradicional das guitarras de jazz e tornando-se uma figura chave para o gênero e variações, jazz rock, jazz fusion, progressive jazz, jazz contemporâneo e post-bop, dos últimos 20 anos, abrindo os horizontes para uma leva de guitarristas emergentes. Seu estilo criativo para tocar foi desenvolvido sob influência de músicos consagrados como os guitarristas Jim Hall, Wes Montgomery, John MacLaughlin e Jimi Hendrix, o trompetista Miles Davis e os saxofonistas John Coltrane e Ornette Colleman. Ao longo de sua produtiva carreira Pat Metheny ganhou vários prêmios e títulos como “Melhor Guitarrista de Jazz” e prêmios Grammy de “Melhor Rock Instrumental”, “Melhor Gravação de Jazz Contemporâneo”, “Melhor Solo Instrumental de Jazz” e “Melhor Gravação Instrumental”; sendo por essas e por outras que ele foi acusado de ser comercial demais para os puristas de jazz, mas de qualquer forma seus trabalhos, dentro de sua proposta, são geralmente de primeira qualidade. Aberto a novas influências, Pat Metheny trabalhou com músicos de gêneros diversos, passando por Herbie Hanckock no jazz, Milton Nascimento na nossa MPB até David Bowie no glamour & pop rock. Suas experiências não param por aí, ele foi um dos pioneiros da música eletrônica e um dos primeiros músicos de jazz a tratar o sintetizador com seriedade. Seu lado inventor e criativo contribuiu também para o surgimento da guitarra acústica soprano, a guitarra Pikasso de 42 cordas e a guitarra Ibanez Pm-100, dentre outras invenções. Dos trabalhos de Pat Metheny, posso destacar os seguintes, Bright Size Live (1975); American Garage (1980); 80/81 (duplo, 1980); Rejoicing (1983);  The Falcon and the Snow Man (1984); Secret History (1992); Like Minds (1998); e The Way Up (2005).

09 – STANLEY JORDAN – Guitarrista, pianista e compositor norte-americano nascido em 31 de julho de 1959. Famoso por ter popularizado a técnica de “tapping” (uma variação da técnica de notas ligadas) para a guitarra e outra série de inovações musicais para o instrumento. A técnica do tapping consiste em “martelar” ou “digitar” notas na escala do braço da guitarra (violão ou baixo), ligando-as e adquirindo efeito de grande velocidade. Outros guitarristas que contribuíram para a divulgação dessa técnica foram Roy Smeck nos anos de 1930, Jimmy Webster nos anos de 1950, Steve Hackett (do Genesis) nos anos de 1970 e Eddie Van Halen, nos anos de 1980. Voltando ao jazz, o estilo de Jordan pode ser classificado como jazz fusion, pois agrega ao jazz elementos não convencionais ao gênero tradicional. Stanley Jordan teria começado estudar piano aos seis anos de idade e aos onze, se voltou para a guitarra. Inicialmente tocava temas de rock e soul, se destacando posteriormente em diversos festivais pelo mundo como o Kool Jazz Festival de 1984, Concord Jazz Festival e Montreaux International Jazz Festival, ambos de 1985. Stanley Jordan foi descoberto nas ruas e não nos palcos. Ele seguiu os passos dos incontáveis músicos anônimos que tocam nas ruas de grandes centros em troca de algumas moedas. Jordan, ao contrário da maioria, não passou em branco, pois ficou conhecido como “o guitarrista incrível que toca por alguns cents” nas ruas de Nova York, Filadélfia e outras cidades do Meio Oeste e Sul dos EUA; até que ele foi notado por empresário musical que o convidou para gravar um disco. Mas Jordan recusou a oferta na ocasião por achar que não estava preparado tecnicamente para assumir o compromisso. Pouco mais de um ano depois ele foi novamente abordado pelo mesmo agente e desta vez aceitou o convite, resultando no bom disco de estréia, Touch Sensitive (1982), que foi seguido pelo trabalho homônimo (1984) e o famoso Magic Touch (1985). Este último disco foi considerado uma síntese de vários estilos de jazz e classificado como um padrão definitivo para o jazz contemporâneo. Mas Jordan não se acomodou em seus experimentos e continuou inovando, como em Cornucopia (1990), onde vez uma versão groove-orientada do tema erudito “Bolero”, de Ravel. Além de ter tido a oportunidade de tocar com lendas do jazz, como Dizzy Gillespie e Bennie Carter, Stanley Jordan foi influenciado por músicos de gêneros diversos, como os guitarristas de blues & rock, Carlos Santana, Jimi Hendrix e Roy Buchanan; e os guitarristas de jazz consagrados como Wes Montgomery, George Benson e o húngaro Gabor Szabo. Ultimamente Stanley Jordan tem se apresentado regularmente no Brasil, contando com músicos brasileiros num trio de guitarra, baixo e bateria; sendo habitual em seu repertório interpretações surpreendentes de temas consagrados da nossa MPB. Da discografia de Stanley Jordan posso indicar os seguintes trabalhos, o já citado Magic Touch (1985); Standards Vol. 1 (1986); Cornucopia (1990); Stolen Moments (1991); Bolero (1994); Live in New York (1998) e Friends (2011).

10 – GEORGE BENSON – Guitarrista e vocalista afro-americano nascido em 22 de março de 1943. Criado numa família de músicos amadores, George Benson já tocava um ukele (violão pequeno com quatro cordas) ainda criança e aos 10 anos fez a sua primeira gravação tocando “She Makes Me Mad”. A década de 1960 foi de muito aprendizado para George Benson, que teve o privilégio de tocar ao lado de lendas do jazz como Miles Davis, Herbie Hanckock e Ron Carter, o que fez crescer sua fama de um dos melhores guitarristas de jazz na época. Assim, ele lançaria seu primeiro disco como profissional, The New Boss Guitar Of George Benson (1964). Os álbuns que se seguiram, apesar da boa qualidade, não tiveram o reconhecimento merecido de público e crítica. Em 1971, Benson começa a enveredar por um caminho que fez os puristas de jazz “torcerem” o nariz, ao acrescentar na sua sonoridade, elementos de música pop, tentando alcançar um mercado mais abrangente. Mas só em 1975 que ele alcança o sucesso desejado com a gravação do hit “Supership”. Claramente ele ia se afastando da linha pura do jazz, mas não deixando de gravar temas clássicos do gênero. Em 1976, seu disco Breezin’, bateu o recorde de vendas para um disco de jazz, ganhou o Grammy além do disco de ouro e platina, mas a partir daí notadamente em boa parte de suas interpretações, seu vocal estava se destacando mais do que sua guitarra. Benson ainda conseguiu agradar boa parte da crítica e público nas versões de grandes clássicos como “This Masquarade”; “Breezin”; “The Flight”; “Nature Boy”; “On Broadway” e “Take Five”. Ele estava claramente direcionando seu trabalho para uma sonoridade mais suave e dançante, almejando alcançar o público além das fronteiras restritas do jazz e de certa forma, alcançou o que queria. A sua versão de “On Broadwy” foi usada no filme All That Jazz (O Show Deve Continuar) de 1979, que lhe trouxe ainda mais popularidade. Em 1981, a faixa “Turn Your Love Around” chegou ao top das paradas, enquanto que no ano seguinte, emplacou outro sucesso, “Never Give Up On A Good Thing”. Benson tinha toda a pinta de músico de jazz, mas ao contrário da maioria que preferia certo anonimato, ele optava pelos holofotes. Talvez por isso tenha se desviado um pouco do foco inicial, que seria desenvolver ao menos um bom jazz contemporâneo, já que fora influenciado por mestres tradicionais de jazz guitar como Charlie Christian, Eddie Lang, Wes Montgomery, Grant Green e pelos vocais de Joe Williams e Louis Armstrong. George Benson nunca foi unanimidade, os músicos puristas de jazz sempre o rejeitaram devido ao seu visual de soulman, o pessoal do R&B e soul o achavam sofisticado demais para um ambiente esfumaçado e barulhento, só restou para Benson aventurar-se no mundo menos exigente da pop music, criando um estilo que flutua entre o jazz, o pop e o soul. Apesar dos prós e contras, George Benson realizou grandes trabalhos e inegavelmente contribuiu para a divulgação do jazz entre o público do rock e do pop. Posso indicar alguns essenciais como o já citado The New Boss Guitar Of George Benson; It´s Uptown (1965); Shape Of  Things To Come (1968); The Other Side Of Abbey Road (1970); Jazz on a Sunday Afternoon Vols. 1 & 2; Beyond The Blue Horizon (1973); In Concert: Carnegie Hall (1975); Good King Bad (1975); Breezin’ (1976); Weekend in L. A. (1977); Give Me the Night (1980); Tenderly (1989);  e Big Boss Band (1990). Nos últimos anos George Benson tenta resgatar suas origens jazzísticas, tocando seus modelos Ibanez G B 10 e G B 200 Signature.

- Com essa quarta lista dos 10 Maiores Guitarristas, encerro um trabalho prazeroso de pesquisa e espero ter contribuído com o acréscimo de informações interessantes para o conhecimento de quem procura aprender um pouco mais sobre a boa música.

Por Eumário J. Teixeira.

22 de dez. de 2012

OBITUÁRIO 2012 - DO ROCK, SOUL, BLUES, R&B & JAZZ

Eles partiram antes do fim do mundo e deixaram a música mais pobre.
- 20/01/2012 - Etta James (Jamesetta Hawkins), cantora de voz poderosa e marcante de soul, blues, r&b e jazz, infuenciou grandes nomes como Tina Turner e teve seu melhor momento na década de 1960 com vários hits como "At Last", "Tell Mama", "Security", "Trust Me" e "Something's Got A Hold Of Me". Durante sua carreira lutou contra o excesso de peso e sua dependência de heroína; em 2000 fez uma operação de redução de estômago e perdeu quase 100 kg; em 2003 gravou um cd premiado: "Let's Roll", com blues e soul; em 2004 outro cd aclamado e recheado de blues: "Blues To Be Bone". Etta faleceu em decorrência de complicações da leucemia aos 73 anos.
- 13/05/2012 – Donald “Duck” Dunn, baixista, compositor e produtor musical dos mais influentes da música Soul e do R & B afro-americano. Apesar da pele branca, ele e o guitarrista Steve Cropper, seu companheiro de infância, deram uma contribuição significativa para o desenvolvimento da soul music nos EUA, tocando, compondo e produzindo para astros negros da black music como Albert King, Sam & Dave, Otis Redding, Eddie Floyd, Rufus Thomas, etc. Gravou também com Muddy Waters, Jerry Lee Lewis, Bob Dylan, Eric Clapton e Neil Young, só para citar alguns. Foi inesquecível a participação da dupla Dunn e Cropper na banda dos The Blues Brothers de John Belushi e Dan Aykroyd, em filmes, discos e shows. Mas Donald Duck Dunn já era reconhecido como grande músico em meados da década de 1960, quando gravou com The Mar-Keys e integrou o legendário Booker T. & The MG’s, agora definitivamente desfeito com a passagem do “Pato”. Não há como imaginar The MG’s sem ele no baixo elétrico. Donald morreu dormindo num quarto de hotel em Tóquio, no Japão, aos 70 anos de idade após uma apresentação no Blue Note Night Club. Só ouviremos novamente “Green Onions” marcada com o som mágico das quatro cordas do baixo de Duck em discos, cds e dvds. Saudades do garoto que recebeu o apelido de “pato” por ser fanático pelos desenhos animados e quadrinhos do Pato Donald. Depois de Donald Duck, a galera começou a prestar a atenção na performance e importância de um bom baixista dentro de um banda. Antes de Paul McCartney, Jack Bruce, John Paul Jones, John Entwistle, Geezer Butler, Geddy Lee, existia o “Duck”...
- 07/06/2012 – Bob Welch (Robert Lawrence Welch, Jr.), foi vocalista, guitarrista e compositor da banda de rock inglesa Fleetwood Mac (na fase pop-rock). Bob era californiano e substituiu o guitarrista-slide de blues Jeremy Spencer, que saiu da banda meses depois da também retirada do outro guitarrista e gênio do blues, Peter Green. Welch foi recepcionado com a certeza de ser decisivo na revitalização do grupo, dentre os remanescentes ainda estava o jovem guitarrista Danny Kirwan (protegido de Peter Green) que sairia após o segundo disco gravado com Welch (Bare Trees). Bob permaneceu na banda de 1971 a 1974. Sua contribuição para a nova fase do grupo, longe da linha do blues, foi essencial para a recuperação do conjunto. Os álbuns que se destacaram com Welch foram: Future Games (1971); Bare Trees (1972), que trazia a belíssima canção “Sentimental Lady” de sua autoria, que também seria seu maior sucesso durante sua carreira solo; e Heroes Are Hard To Find (1974). Welch foi encontrado morto pela esposa, com um ferimento à bala no peito, indicando que se tratava de um suicídio. Ele teria deixado um bilhete de despedida, estava com 66 anos. As investigações continuam.
- 16/07/2012 - John Lord (Jonathan Douglas Lord) era o tecladista de vastos bigodes e co-fundador da banda britânica Deep Purple. A banda era considerada um componente da trindade do rock pesado dos anos de 1970, junto com o Led Zeppelin e Black Sabbath. Sua contribuição para banda que mais marcaram são os riffs dos clássicos “Child In Time” e “Smoke On The Water”. Participou também como integrante do grupo Whitesnake de David Coverdale durante o período de inatividade do Purple. Os teclados de John Lord davam ao Deep Purple um tom sofisticado à banda, apesar do som permanecer essencialmente pesado, mas era o que a diferenciava dos seus dois principais rivais, Zeppelin e Sabbath. John Lord morreu aos 71 anos vítima de embolia pulmonar (obstrução das artérias dos pulmões), ele já estava lutando com um câncer no pâncreas desde 2011, quando tinha parado de tocar.
- 06/08/2012 – Celso Blues Boy (Celso Ricardo Furtado de Carvalho), guitarrista e vocalista de blues e rock; considerado por muitos como o pioneiro do blues no Brasil; aos 17 anos começa a tocar como profissional na banda do ícone do rock nacional, Raul Seixas; tocou também para Sá & Guarabyra e Luiz Melodia. O “blues boy” de seu nome artístico seria uma homenagem ao seu grande ídolo do blues, B. B. King (ou Riley “Blues Boy” King), com quem chegou a tocar em 1986, durante as apresentações do “rei do blues” aqui no Brasil. Celso foi o líder das bandas nacionais Legião Estrangeira e Aero Blues, essa última considerada a primeira banda de blues do Brasil. Vertendo também para o rock, seu primeiro disco foi Som Na Guitarra (1984), no qual se destacou a faixa “Aumenta que isso aí é Rock’n Roll”. Remando contra a maré do mercado fonográfico brasileiro vieram outros álbuns, entre eles estão, Marginal Blues (1986); Blues Forever (1988), com versões pessoais de sucessos do blues, soul e rock, como “Built For Confort” de Willie Dixon, “Sittin On Dock Of Bay” de Otis Redding, e “Honk Tonk Women” dos Rolling Stones; Quando A Noite Cai (1989); Indiana Blues (1996) – destacando a faixa “Mississipi” com a participação de ninguém menos que B. B. King na faixa e no clip promocional; Vagabundo Errante (1999); e seu último CD “Por Um Monte De Cerveja” (2011). Celso Blues Boy gravou em 2008 seu único DVD ao vivo no Circo Voador, no Rio de Janeiro, também lançado em CD; participou de grandes festivais como o de Montreaux (na Suíça), onde chegou a tocar com a banda de James Brown em jam sessions. Com sua guitarra stratocaster destilando blues, Celso certamente inspirou o surgimento de outras bandas de blues no Brasil, tais como Blues Etílicos e Baseado em Blues, e como a maioria dos bluesmen, não conseguiu fazer fortuna com seu blues-rock. O nosso herói da guitarra, um fumante inveterado, faleceu prematuramente em Joinville, Santa Catarina, aos 56 anos, em decorrência câncer na laringe, ele já sofria de bócio, causado pela perda de iodo no organismo. 

Por Eumário J. Teixeira.

16 de dez. de 2012

Desenhos na parede - Homenagem ao saudoso João Bosco

 
Há mais ou menos uns 30 anos atrás, por volta de 1982, eu já subia regularmente o famoso “morro do bispo” próximo ao centro de Teófilo Otoni para cortejar uma jovem de olhos verdes, que por acaso era minha colega de ginásio e, hoje, minha esposa. Naquela época eu tinha 20 anos de idade, mas não me lembro se foi ela ou sua irmã sabendo que eu gostava de filmes, desenhos e revista em quadrinhos, tinha me falado sobre o excêntrico vizinho da casa ao lado, que era um desenhista fora de série, intelectual e um autodidata com conhecimentos básicos de marcenaria, alvenaria e eletricidade. Seu nome era João Bosco, um jovem mestre e artista de múltiplas habilidades e, sobretudo, um crítico sarcástico com um senso de humor peculiar, impaciente com a mediocridade e geralmente não compreendido. Ele era, digamos, do tipo “reservado”, mas poderia conversar normalmente com você e tirar “onda da sua cara” sem o menor constrangimento, ainda mais se você não compartilhasse com sua visão do mundo. Finalmente, e totalmente curioso sobre os desenhos do misterioso vizinho, tomei a coragem de bater em sua porta e assim foi. Ele me recebeu muito bem, mas fiquei medindo as palavras para não dar um “fora” ou causar uma má impressão. Então ele me levou a sua “oficina”, onde permanecia alguma parte do seu tempo lendo livros sobre filosofia e outros assuntos do seu interesse ou desenhando. E lá estavam aquelas figuras incríveis retratadas apenas com lápis e propositalmente inacabadas, mas aos meus olhos, perfeitas! Fiquei boquiaberto, não só pelo excelência de sua técnica, mas também pelos temas que ele tinha retratado na parede de seu quarto! Era habitual pregar posters ou quadros nas paredes dos quartos, mas desenhar..., aquilo me pareceu genial. Os desenhos tinham traços tão precisos que pareciam uma reprodução fotográfica em grande escala de alguma revista. Minha surpresa foi ainda maior ao reconhecer os temas retratados. Para começar, Bruce Lee, na época meu ídolo incontestável; a seguir a figura de Lampião, o rei do cangaço, um personagem quase surreal que sempre me fascinou; a próxima imagem que identifiquei foi a do ator Steve McQueen, que me marcou por alguns filmes, como Pappilon e Tom Horn. Os outros dois desenhos eram do caboclo com um cachimbo na boca e de um sujeito para mim desconhecido com pinta de galã, que na verdade se tratava do escritor e filósofo francês, Albert Camus. Depois de uma boa prosa, saí de lá animado a continuar com os meus desenhos. O tempo passou e me casei com minha colega de sala; e poucos anos antes do seu falecimento, João Bosco me deu a honra de sua visita quando o encontrei casualmente no centro de Teófilo Otoni, pois ele já residia algum tempo em Belo Horizonte. Conversamos sobre tudo um pouco, música, desenhos, política, família, ele me falou dos seus projetos futuros, estava com interesse de praticar boxe, e talvez alpinismo; comentou sobre sua aversão de se transformar num sujeito caseiro e  acomodado que se contentava com o churrasco nos fins de semana e que alimentava com orgulho a famosa “barriguinha de cerveja” e outras amenidades. Foi a última fez que conversamos, foi por volta de 1999 ou 2000. Sua visita me fez relembrar aqueles desenhos na parede e já que meus dois filhos já tinham também a inclinação para a arte, resolvi em certo instante, desenhar na parede do quarto deles inspirado nos desenhos de João Bosco. È claro que fiz o melhor que podia, mas não havia como comparar. Entretanto, de alguma forma, serviu de inspiração aos meninos, hoje já rapazes. Se me recordo, eu tinha desenhado na época, um rosto de Elvis Presley, Sansão derrubando as colunas do templo de Baal, Batman saltando, uma cabeça de um E. T. (tipo grey), um astronauta das missões Apolo e um OVNI; noutro quarto fiz um enorme homem-Aranha, um Homem de Ferro e outras figuras; até que ficou legal. Mas veio uma reforma e pintura da casa e tudo foi apagado, ou coberto. Arrependi de não ter tirado umas fotos para registro.  O que não aconteceu com os desenhos de João Bosco, pois quando sua família decidiu por vender a casa, mesmo com o novo dono prometendo preservar os desenhos na parede, sua irmã teria tirado algumas fotos para recordação. São estas que postei numa sincera homenagem ao João Bosco, morto de forma tão inesperada num acidente de moto em 2009. Sua irmã havia me enviado postais com os desenhos da parede como lembrança conforme me havia prometido, e então tive a idéia de procurar na internet as figuras ou fotos originais que João Bosco tinha reproduzido com tamanha competência e fui de certa forma feliz. As fotos originais de Bruce Lee (em Operação Dragão), Lampião, Touro Sentado (líder Sioux que eliminou Custer e a 7ª Cavalaria), Albert Camus e uma do ator Steve Mcqueen (filme Tom Horn) estão aí para serem comparadas com os desenhos da parede. Duas de Steve Mcqueen são quase as mesmas que João reproduziu, pelo menos são do mesmo filme (Os Implacáveis); a do caboclo com o cachimbo não achei o desenho ou foto original, poderia ser sua própria criação; da mesma forma a figura com a dupla espacial agachada e atirando com supostas armas laser, não consegui identificá-las. 

 Veja os desenhos e as fotos originais para uma comparação:
 
Albert Camus – Escritor, romancista, dramaturgo e filósofo francês. Abordava em suas obras temas referentes ao amor, ética, justiça, humanidade e política. Nasceu na Argélia em 1913 e faleceu na França em 1960, num acidente automobilístico aos 46 anos.

Steve McQueen (Terence Steve McQueen) – Ator norte-americano de filmes de ação, também conhecido por sua paixão por carros de competição e motocicletas. Seus principais filmes foram, Fugindo do Inferno (1963), Nevada Smith (1965), Bullit (1968), Os Implacáveis (1972), Papillon (1973), Inferno na Torre (1974) e Tom Horn (1980). Steve McQueen faleceu vítima de um mesotelioma, câncer na membrana que envolve os pulmões, também conhecido como “a doença do amianto”, aos cinqüenta anos de idade em 07 de novembro de 1980.

Bruce Lee – Ator norte-americano de origem chinesa, conhecido mundialmente pelos filmes de Kung Fu. Era formado em filosofia e desenvolveu um sistema de defesa pessoal (Jeet Kune Do) livre das tradições rígidas das escolas orientais, dando ao praticante a liberdade para criar e se adaptar conforme as circunstâncias. Faleceu aos 32 anos em 1973, devido a um edema cerebral no auge da fama e pouco antes do lançamento do seu maior sucesso, o filme Operação Dragão. 

Touro Sentado – Líder indígena da tribo Sioux, responsável pelo cerco à Sétima Cavalaria  comandada pelo General George A. Custer em 25 de junho de 1876. Guerreiro sábio e estrategista, Touro Sentado liderou mais de 3.500 índios sioux e cheyennes contra a tropa de Custer de pouco mais de uma centena de homens, no massacre de Little Big Horn. Touro Sentado e filho foram assinados pela polícia numa circunstância obscura em 1890, pouco depois de terem deixado o elenco do famoso circo de Buffalo Bill.

Lampião – Conhecido também como o “rei do cangaço” e considerado o “Robin Hood do sertão”, Vigulino Ferreira da Silva entrou para o cangaço depois que o pai foi assassinado pelos volantes (polícia) a mando de coronéis que queriam tomar posse de suas terras. Tornou-se um líder cangaceiro cruel e vingativo contra as volantes dos macacos e coronéis que não o apoiavam, reinando por quase 20 anos nas caatingas do nordeste brasileiro. Foi morto junto com a maioria de seu bando por uma tropa de volantes numa emboscada na Gruta de Angicos, no Sergipe, traído supostamente por um coronel que habitualmente lhe dava cobertura, em 28 de julho de 1938. 

Hoje em dia, desenhar na parede é novidade, é moda, é "cool", mas não seria para João Bosco, que Deus o tenha e que ele esteja em paz.

Por Eumário J. Teixeira

2 de dez. de 2012

OS 10 MAIORES GUITARRISTAS – PARTE III - DE BLUES ROCK & HEAVY ROCK

 Muitas listas com os nomes dos maiores guitarristas da história da música circulam pela internet e revistas especializadas. A cada classificação de tais nomes geralmente é baseada na capacidade técnica e habilidade de cada músico, o que é o bastante para gerar muita controvérsia. Para exemplificar, há certo consenso no que se diz respeito sobre quem seria o número um da lista, o maior de todos. O nome que mais aparece no primeiro lugar é o de Jimi Hendrix. Já a partir do segundo classificado acontecem muitas variações, revezando os nomes de Eric Clapton, Jeff Beck, Jimmy Page, Eddie Van Halen, etc. Como alguns gêneros musicais são desprezados nessas relações e nomes como Django Reinhardt e Dick Dale, geralmente ficam de fora, elaborei quatro listas com guitarristas considerados especialistas em seu gênero musical, sendo que a classificação de cada relação vai de um a dez. Não considerei apenas a habilidade técnica do guitarrista, mas também sua importância dentro do(s) gênero(s) que representa. Não sou um conhecedor profundo do assunto, nem ao menos sou músico, mas me baseei nos discos que já ouvi e no que li sobre a história da música em geral, considerando também o meu gosto pessoal. As listas estão divididas em quatro gêneros assim classificados: 1 – Jump Blues, Rock & Roll, Surf & Instrumental Rock; 2 – Blues Acústico & Elétrico; 3 - Blues Rock & Heavy Rock; e 4 – Jazz & Fusion. 

01 – Jimi Hendrix– Guitarrista (canhoto), vocalista e compositor afro-americano, nascido em 27/11/1942. Considerado o mais inovador e criativo de todos os guitarristas conhecidos, poder-se-ia dizer que seu estilo era uma mescla da criatividade e experimentalismo de Jimmy Page, da técnica e rapidez de Jeff Beck, da sensibilidade bluesística de Eric Clapton, e da energia explosiva de Pete Towshend (The Who). Hendrix Iniciou sua carreira obscuramente tocando para artistas já consagrados como B. B. King, Sam Cooke, Little Richard e Ike & Tina Turner. Sua Carreira deslanchou depois que se mudou para a Inglaterra; e quando explodiu no cenário do blues rock britânico, foi finalmente reconhecido em sua terra natal. Suas impactantes performances nos festivais de Monterey (1967), Woodstock (1969) e na Ilha de Wight (1970), o imortalizaram como o maior guitarrista de todos os tempos. Jimi Hendrix, canhoto, normalmente tocava com uma Fender Stratocaster e às vezes variava com uma Gibson Flying V, utilizando um modelo para destros com seu encordoamento invertido. Dentre seus inúmeros recursos ao tocar, destacava-se o uso do pedal “wah wah”, por ele popularizado, que lhe permitia dar um timbre diferenciado em seus solos ao usar os bends e legato (ligar notas sucessivas sem deixar espaço) na escala pentatônica do blues. Explorou os efeitos de amplificadores distorcidos e crus enfatizando os agudos que lhe permitiu desenvolver a técnica (antes rejeitada) da microfonia. As influências de Jimi Hendrix basicamente vieram do blues e rock & roll, dos velhos mestres como Chuck Berry, T-Bone Walker, Buddy Guy, B. B. King, Albert King, Elmore James e Muddy Waters. Guitarristas de rhythm & blues e soul como Curtis Mayfield e Steve Cropper, também o inspiraram. Os guitarristas de blues rock que se espelharam em Hendrix  foram inúmeros, posso citar alguns para ilustrar, Eric Clapton, Robin Trower, Johnny Winter, Rory Gallagher, Gary Moore, Billy Gibbons (ZZ Top) e Stevie Ray Vaughan. Seus hits já estão implantados no inconsciente coletivo do rock, vale citar “Hey Joe”; “Little Wing”, “Sunshine Of Your Love”, “Wild Thing”, “Voodoo Child (Slight Return)”, “Foxey Lady”, “Hear My Train A Comin’” e “Red House”. Todos os seus álbuns valem a pena ouvir, destacando os essenciais Are You Experienced (1967); Axis: Bold As Love (1967); Eletric Ladyland (1968); Band Of Gypsys (1970); The Cry Of Love (1971); e Live At Winterland. Jimi Hendrix morreu precocemente aos 27 anos, em 18/09/1970.

02 – Eric Clapton – Guitarrista, vocalista e compositor inglês, nascido em 30/03/1945. Conhecido como “slow hand” (mão lenta) graças à sua demora em trocar as cordas da sua guitarra barata que constantemente se quebravam durante os shows dos Yardbirds em meados dos anos de 1960. Outra versão para seu apelido seria relacionada à sua técnica sensível e primorosa, pois Clapton sempre argumentou que para tocar blues a simplicidade e o feeling seriam mais importantes do que velocidade e o virtuosismo técnico defendidos por guitarristas como Eddie Van Halen. Clapton desde adolescente se rendeu ao blues, seu aprendizado inicialmente foi penoso, quase desistiu (imaginem!), mas perseverou e aprendeu os primeiros acordes de blues escutando os velhos discos importados da América. A seqüência de sua carreira foi quase que impecável ao passar inicialmente pelos Yardbirds; John Mayall’s Bluesbreakers; Cream; Blind Faith; Delaney, Bonnie & Friends; Derek And The Dominos e carreira solo que perdura até hoje com alguns raros deslizes em suas gravações. Clapton participou de diversos discos de bandas de rock hoje consagradas, um de suas contribuições mais famosas foi no White Álbum (álbum branco) dos Beatles, é ele que faz o solo na faixa de autoria de seu amigo George Harrison, “While My Guitar Gently Wheeps”. Seu modelo de guitarra preferencial é a Fender Stratocaster, apesar de ter utilizado muito no passado a Gibson SG e a Gibson Les Paul. Eric Clapton é sinônimo de blues e vice-versa, todos sabem de sua adoração pela obra do lendário Robert Johnson, como também da sua admiração por outros mestres guitarristas do blues como Freddie King, Otis Rush, Buddy Guy, Muddy Waters, B. B. King, Albert King, Lowell Fulson, etc. A obra de Clapton foi de essencial contribuição para a divulgação e sobrevivência do blues por quase meio século. Volta e meia ele tenta se libertar um pouco das amarras bluesísticas, mas não resiste e volta às origens. O blues se confunde com sua própria vida. Selecionar seus principais trabalhos irá tomar muito espaço, seria mais fácil citar suas poucas mancadas ao se aventurar pelo country rock ou pop music. Mas aqui vai alguns discos essenciais do slow hand, começando com os  Yardbirds: “Five Live Yardbirds (1964)”, “For Your Love” (1965); com John Mayall’s Bluesbreakers: Bluesbreakers With Eric Clapton (1966); com o Cream: Fresh Cream (1966), Disraeli Gears (1967), Wheels Of Fire (1968); com Blind Faith: Blind Faith (1969); com Derek And The Dominos: Layla And Other Assorted Love Songs (1970), In Concert (1973); carreira solo: Eric Clapton (1970), 461 Ocean Boulevard (1974), Slowhand (1977); Just One Night (1980), Journeyman (1989), os indispensáveis Unplugged (1992) e From The Craddle (1994); Riding With The  King – com B. B. King - (2000) e o excelente Clapton (2010); vale destacar também o trabalho impecável em parceria com J. J. Cale em The Road To Escondido (2006).

03 – Jimmy Page – Guitarrista, baixista, bandolinista e compositor inglês nascido em 09/01/1944. Um dos guitarristas mais conhecidos do rock pesado, rivalizando no gênero apenas com Ritchie Blackmore e Tony Iommi. Eclético, iniciou sua carreira ainda adolescente participando como guitarrista acústico em bandas de Skiffle e posteriormente como músico profissional em estúdios de gravação participando de inúmeros discos de bandas de rock britânicas de várias vertentes e até mesmo norte-americanas em meados dos anos de 1960 quase que no anonimato. Para citar algumas de suas contribuições, é dele o  ritmo em “You Really Got Me”, “All Day And All Of The Night”, “Tired Of Waiting For You” dos Kinks (1964-65); em “Sunshine Superman” (1965) de Donavan; nas faixas “I Can’t Explain” (1965) do The Who; em “You Don’t Believe Me” dos The Pretty Things; nas faixas “I Tried” e “I Can’t Quit You Baby” (1966) do então The Savoy Brown Blues Band; em “Somebody Help Me” e “Hard Hard Year” (1966) dos Everley Brothers; nas faixas “Baby Please Don’t Go”, “Here Comes The Night”, “Call My Name”, “Bring ‘Em On In” e “Mistic Eyes” (1964-66) do Them;  em “Blue Turns To Grey” (de 1964), “One Hit (To The Body)” e “Back To Zero”  (1986) dos Rolling Stones, etc. The Yardbirds foi a primeira banda oficial de Jimmy Page; mas antes disso, a banda contava simplesmente com Eric Clapton na guitarra solo, substituído por Jeff Beck, pouco depois. Convidado por Beck, Jimmy Page passa a ser o baixista da banda, mas devido ao talento de Page, Chris Dreja teve que assumir o baixo deixando a segunda guitarra para o novo integrante. Com a dissolução gradual do grupo ocorrida definitivamente em 1968, Page resolveu seguir com uma nova formação chamada The New Yardbirds, que se tornaria conhecida mundialmente como Led Zeppelin. Nessa nova fase, Jimmy Page desenvolveu toda a sua criatividade na guitarra em experimentos musicais até então inéditos, valendo-se de toda sua experiência como músico de estúdio para explorar todos os recursos e sonoridades possíveis nas gravações dos discos do Led Zeppelin, efeitos que às vezes se tornava impossível de se reproduzir nos palcos, como os obtidos em “Whole Lotta Love”. Em todas as gravações do Led Zeppelin, as guitarras elétricas ou acústicas de Page são marcantes, além da faixa já citada anteriormente destaco também, “Good Times Bad Times”, “Living Loving Maid (She’s Just A Woman)”, “Communication Breakdown”, “Imigrant Song”, “Ramble On”, “Rock And Roll”, Black Dog”, “Stairway To Heaven”, “Trampled Under Foot”, “Nobody’s Fault But Mine”, etc. Toda a discografia oficial do Led Zeppelin é recomendada, mas são essenciais os discos Led Zeppelin I e II (1969), IV (1971) e o duplo Physical Graffiti (1975).

04 – Jeff Beck –  Guitarrista, baixista e compositor inglês nascido em 24/06/1944. Certamente um dos maiores guitarristas do rock; para muitos, acima dele só estariam Jimi Hendrix, Eric Clapton e Jimmy Page; mas há controvérsias. Seu temperamento difícil, atribuído geralmente aos gênios criativos, é tão conhecido quanto a sua habilidade na guitarra. Aliás, outra habilidade de Beck é a mecânica de automóveis, um de seus hobbys favoritos, quando não está tocando. Seus modelos preferidos de guitarra são a Fender Stratocaster e a Gibson Les Paul. A principal característica de Jeff Beck é que normalmente toca sem palheta, ao contrário da maioria dos seus colegas do rock, como também a exploração criativa do pedal wah wah e do vibrato característico em seus solos. Beck começou a se destacar no Yardbirds na segunda metade dos anos de 1960 substituindo Eric Clapton que acabara de sair, chegando a tocar no mesmo grupo com Jimmy Page. Pouco mais de um ano depois (1968) formou sua própria banda, o Jeff Beck Group, que durou até 1972, muito respeitado pela crítica, mas sem sucesso comercial. Em 1973, forma um respeitável power trio com Carmine Appice (bateria) e Tim Bogert (baixo e vocais), ex-membros do Cactus. O trio Beck, Bogert & Appice, apesar gravar dois ótimos discos, durou apenas um ano. A partir daí Jeff Beck partiu para uma produtiva carreira solo, desenvolvendo um som mais instrumental mesclado principalmente com elementos de rock e jazz que obteve boa aceitação por parte da crítica e público até hoje, ainda que alternando com alguns poucos trabalhos duvidosos que não fizeram justiça à sua fama. As maiores influências de Jeff Beck foram os também guitarristas Hank Marvin (The Shadows), Roy Buchanan, Chet Atkins, Django Reinhardt, Steve Cropper, Lonnie Mack e John Mclauglin. Os discos indispensáveis de Jeff Beck, ao meu ver, são: Toda a discografia do Yardbirds da qual ele participou; o trabalho solo em seguida: Truth (1968); com o Jeff Beck Group: Beck-Ola (1969) e Rough and Ready (1971); o dois no Beck, Borget & Appice (de estúdio e o ao vivo no Japão, ambos de 1973); e os da nova carreira solo, Blow By Blow (1975), Wired (1976), Who’s Else (1999), Jeff (2003), Performing This Week...Live At Ronnie’s Scott (2008) e Emotion & Commotion (2010).

05 – Peter Green – Guitarrista, baixista, gaitista, compositor e vocalista inglês nascido em 29 de outubro de 1946. Na minha humilde opinião o maior e mais subestimado guitarrista branco de blues de todos os tempos, só sendo superado por Eric Clapton. Dono de extrema sensibilidade para tocar e compor, Green teve sua carreira interrompida precocemente no auge da fama devido ao seu envolvimento pesado com drogas, principalmente LSD e repentino misticismo, que o levou à depressão, paranóia e a esquizofrenia no início dos anos de 1970. Ensaiou seu retorno aos palcos a partir do ano de 1979 alternando discos bons e razoáveis até 1987, quando tendo uma recaída se ausentou por um longo período permanecendo na obscuridade e cuidado por amigos íntimos, só retornando em 1997 com o Splinter group. Green se mantém em atividade até hoje apesar de suas raras performances serem ainda um tanto inseguras devido aos medicamentos que é obrigado a tomar, mas geralmente está acobertado por bons músicos que compõem o Peter Green & Friends. O próprio Green reconhece que tanto as drogas quanto os tratamentos terapêuticos à base de choques elétricos no passado causaram um grande dano à sua mente. A vida de Peter Green nunca foi fácil, apesar de seu talento comprovado, seu primeiro grande desafio como músico profissional foi substituir, simplesmente, o “deus da guitarra” Eric Clapton no John Mayall’s Bluesbreakers em 1967. E Peter Green surpreendeu os fãs desconfiados e órfãos de Clapton, registrando com competência todo o seu talento no disco A Hard Road (1967) do John Mayall’s Bluesbreakers. No ano seguinte Green deixa os Bluesbreakers (sendo substituído por Mick Taylor) e parte para formar o Peter Green’s Fleetwood Mac, uma banda que ficou na história do blues rock britânico, principalmente graças ao disco de estréia. A banda que ainda contava com o guitarrista slide Jeremy Spencer (fã de Elmore James) e mais tarde com o jovem guitarrista Danny Kirwan, pupilo de Green, conquistou o mundo com seu blues rock balançante. As influências de Peter Green foram Robert Johnson, Alex Korner, John Mayall, o próprio Eric Clapton, Hank Marvin (The Shadows), B. B. King e Freddie King. Dentre suas composições mais famosas posso destacar com os Bluesbreakers de John Mayall, “The Supernatural e “The Same Way”; com o Fleetwood Mac, “Black Magic Woman” (gravado por Santana), “Oh Well”, “Long Grey Mare”, “Looking For Somebody”, “I Loved Another Woman”, “Watch Out”, “The Green Manalishi”, “Rattlesnake Shake”, “Fleetwood Mac” e “Sandy Mary”; na carreira-solo, “Looser Two Times”, “Tribal Dance”, “In The Skies” e “Slabo Day”. As versões que fez para “The Stumble” de Freddy King, “Need Your Love So Bad” de Little Willie John, “Homework” de Otis Rush, “No Place To Go” de Howlin’ Wolf, e suas belíssimas composições “Albatross” e “Man Of The World”, definem precisamente o seu estilo suave e doce, mas com uma certa pegada, ao tocar, cantar e compor. Os discos essenciais do mestre do blues rock britânico são, com o John Mayall’s Bluesbreakers, Hard Road (1967); com o Fleetwood Mac, Peter Green’s Fleetwood Mac (o primeiro, de 1968), Then Play On (1969), Fleetwood Mac in Chicago/Blues Jam In Chicago (duplo de 1969) e The Original Fleetwood Mac (1971); na carreira solo, In the Skies (1979) e Little Dreamer (1980); e com o Splinter Group, Reaching The Cold 100 (2003). A Gibson Les Paul dourada de Peter Green, também fez história; conta a lenda que ele a vendeu por mixaria para o guitarrista Gary Moore (já falecido), justamente na época em que estava fragilizado mentalmente e desfazia de seus bens, doando também todo o seu dinheiro para instituições de caridade. A partir daí a guitarra de Green acostumada a um tratamento mais carinhoso e sofisticado teve que se sujeitar ao estilo mais agressivo e pesado do seu novo dono. Será que com a morte recente de Moore em 2011, a lendária Sunburst Gibson Les Paul de 1959, voltou para o antigo mestre? Mas agora o que realmente importa é que Peter Green deu a volta por cima, é claro que nunca mais tocará como há 45 anos atrás, mas ele está vivo, cercado por quem realmente o ama e notadamente recuperou o desejo de tocar o que mais gosta, blues!

06 – Ritchie Blackmore – Guitarrista, baixista, bandolinista e compositor inglês, nascido em 14 de abril de 1945. Conhecido também por seu temperamento difícil e problemático, como também da sua total ausência de carisma, foi líder das bandas de rock pesado Deep Purple e Rainbow nas décadas de 1970 e 1980. Como seu conterrâneo Jimmy Page, começou a tocar no final dos anos de 1950, na Inglaterra, em bandas de Skiffle, música folk que agregava jazz, blues, country e música de raiz. Era o gênero musical adotado pela juventude britânica na época que tinha como ídolo, Lonnie Donegan. Blackmore teve como sua maior influência o guitarrista inglês Big Jim Sullivan (morto recentemente em 02/10/2012), um respeitável músico de estúdio que foi também seu mentor e de Pete Townsend (The Who) nos primeiros passos com a guitarra. Blackmore fundou o Deep Purple em 1968, juntamente com o tecladista John Lord, falecido em 16/07/2012. Só a partir do quinto trabalho, Deep Purple In Rock (1970), que a crítica começou a prestar a atenção no som da Fender Stratocaster de Ritchie Blackmore que estava se voltando mais para o rock pesado e levando o público ao delírio com seus solos imprevisivelmente loucos, deixando de lado as idéias clássicas e orquestrais de John Lord. O timbre límpido e claro da Stratocaster de Ritchie Blackmore seria devido às casas do braço da guitarra, levemente escavados por ele, que proporcionou um som limpo e com mais “sustain”.  Blackmore geralmente tocava com o captador central da sua Stratocaster desligado ou retirado. Seu riff de Guitarra mais famoso é o do hit “Smoke On The Water” do álbum Machine Head de 1972; ele normalmente o executa sem palheta. A característica de seus solos é a combinação que faz com escalas de blues e frases em escalas menores da música clássica européia, que teria originado a “escala neoclássica”, que foi adotada pelos guitarristas de heavy metal, posteriormente. Os hits do Deep Purple são marcantes, vale citar “Hush”, “Mandrake Root”, “Speed King”, Child In Time”, “Strange Kind Of Woman”, “Black Night”, “Highway Star”, “Smoke On The Water”, “Lazy”, “Burn”, “Mistread”, “Might Just Take your Life”, “Perfect Strangers”, etc. Para se ter uma idéia da capacidade de Ritchie Blackmore como guitarrista, é bom ouvir os discos (ou cds) Shades Of Deep Purple (1968), com Rod Evans nos vocais; In Rock (1970), Fireball (1971), a obra prima Machine Head (1972), e o ao vivo Made In Japan (1972), todos com Ian Gillan nos vocais; a seguir temos Burn (1974), Come Taste The Band (1975) e Live In London - 1974 (1982), com David Coverdale dividindo os vocais com o baixista Glenn Hughes. No Rainbow, tendo o “duende” James Ronnie Dio (morto em 2010) nos vocais, posso citar os discos Rising (1976), Long Live Rock ‘n’ Roll (1978), Straight Between The Eyes (1982) e Live In Munich – 1976 (2006). Desgastado com as idas e vindas do Deep Purple e Rainbow, Blackmore juntou-se com sua companheira Candice Night e formaram uma banda, em 1997, de estilo renascentista (tipo “Greensleeves”), o Blackmore’s Night. 

07 – Tony Iommi – Guitarrista canhoto, flautista e compositor inglês nascido em 19 de fevereiro de 1948. Costumo dizer que junto a Keith Richards (Rolling Stones) e Angus & Malcom Young (AC/DC), Tony Iommi foi um dos responsáveis pelos mais famosos riffs de guitarra da história do rock. Apesar de ser mais conhecido pelo seu estilo pesado que caracterizou o Black Sabbath, Iommi recebeu influências das mais diversas até achar seu próprio caminho, escutando rock instrumental, blues e jazz. O engraçado é que ele se iniciou na música com aulas de piano, mas assim que ouviu o guitarrista Hank Marvin do The Shadows em ação, mudou para a guitarra. Apesar da suposta rivalidade no passado do Black Sabbath com o Led Zeppelin e outras bandas pesadas, Iommi nunca negou a influência exercida por seus colegas de ramo na sua formação como músico, pois admirava a técnica dos rivais Jimi Hendrix, Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page. Quem que gosta de rock pesado não identifica de imediato os riffs de “Paranoid”, “Iron Man”, “War Pigs”, “N.I.B.”, “Black Sabbath”, “Sabbath Bloody Sabbath”, “Sweat Leaf” e “Symptom Of The Universe”? Os riffs encorpados e vigorosos de Iommi já fazem parte da história do rock, assim como seus solos, na maioria executados em Pentatônica menor. Outra forma de identificar Tony Iommi são os bigodes e a Gibson SG (negra ou vermelha), também adotada por Angus Young, apesar de Iommi variar raramente com uma Fender Stratocaster. Tony Iommi toca suas guitarras invertidas, pois é canhoto. Uma curiosidade em sua carreira foi quando em 1968, a pedido de Ian Anderson, substituiu numa emergência o guitarrista recém saído do Jethrotull, Mick Abrahams, numa apresentação para o Rolling Stones Rock And Roll Circus, o que foi registrado em filme. Iommi, cabisbaixo, tentou disfarçar usando um chapéu cobrindo o rosto, mas o famoso bigode ficou exposto. Na ocasião ele tocou com uma Fender Stratocaster branca, invertida, é claro. Um fato que marcou sua vida foi que ainda jovem, teria perdido as falanges distais dos dedos do meio e anelar numa prensa mecânica durante o trabalho numa fábrica. Os dedos atingidos foram justamente os da mão direita, responsáveis para digitar as notas no braço da guitarra. Se dependesse da opinião dos médicos, seu sonho de ser guitarrista profissional tinha terminado aí. Mas um amigo tocou para ele um disco do cigano e guitarrista belga de jazz, Django Reinhardt, que digitava as notas apenas com os dedos indicador e médio, já que os outros foram inutilizados por queimaduras durante um incêndio. Era o que Iommi precisava para se animar e imediatamente começou a usar encaixes improvisados de plástico derretido nas pontas, substituídos posteriormente por próteses. Sua pequena deficiência física é o motivo de sua preferência pelos solos em tons menores, o que facilita para ele o controle e execução de seus riffs. Quem quiser conhecer a obra desse guitarrista lendário, tem que obter ao menos os seguintes discos do Sabbath: Black Sabbath e Paranoid (ambos de 1970), Master Of Reality (1971), Vol. 4 (1972), Sabbath Bloody Sabbath (1973) e Sabotage (1975), todos com os vocais de Ozzy Osbourne; Heaven And Hell (1980) e Mob Rules (1981), com Ronnie James Dio nos vocais; e Headless Cross (1989), com Tony Martin nos vocais. Vale a pena escutar também, Seventh Star, o disco solo de Tony Iommi (1986), com os vocais do baixista Glenn Hughes. Em janeiro de 2012 foi diagnosticado um linfoma em estágio inicial em Tony Iommi, que concluiu o tratamento com quimioterapia no combate ao câncer nos gânglios linfáticos ainda no mês de março; e apesar da nova turnê do Black Sabbath ter sido adiada por enquanto, eles permanecem firmes na gravação de um novo disco provavelmente ainda para este ano. Mais um obstáculo para Tony Iommi superar; se Deus quiser.

08 – Mick Taylor – Guitarrista, guitarrista slide, baixista, pianista, percursionista e vocalista inglês nascido em 17 de janeiro de 1949. O terceiro grande guitarrista revelado no John Mayall’s Bluesbreakers no final dos anos de 1960. Mick Taylor preenche a vaga deixada por Peter Green que tinha partido para formar o lendário Fleetwood Mac em 1967. Taylor não decepcionou, gravou dois ótimos discos durante sua parceira com John Mayall quando, em 1969 (aos 20 anos), não resistiu ao convite dos Rolling Stones para substituir o polêmico e recém falecido guitarrista, Brian Jones. Com o John Mayall’s Bluesbreakers, Mick Taylor participou de dois excelentes trabalhos, Crusade em 1967 e Blues From Laurel Canyon em 1968.  No disco Crusade se destacam suas performances em “Oh, Pretty Woman”, “My Time After Awhile”, “Driving Sideways”, “Snowy Wood” e “Me And My Woman”; em Blues From Laurel Canyon, posso citar as faixas “Walking On Sunset”, “2401”, “Ready To Ride”, “Somebody’s Acting Like A Child”, “The Bear” e “Fly Tomorrow”. Nos Rolling Stones, ele permaneceu de 1969 a 1974, na fase que alguns consideram a mais criativa da banda. Taylor participou dos álbuns Let It Bleed (1969), Get Yer Ya-Ya’s Out (1970 - ao vivo), Sticky Fingers (1971), Exile On Main Street (1972 - duplo), Goat Head Soup (1973) e It´s Only Rock’n’Roll (1974). Mick Taylor se destacou em diversas faixas, como em “Love In Vain” e “Live With Me” de Let It Bleed; “Brown Sugar”, “Sway” , “You Gotta Move”, “Bitch” e “Moonlight Mile” de Sticky Fingers; “Rocks Off”, “Tumbling Dice” e “All Down The Line” de Exile Main Street e “Angie” (no piano) de Goat Head Soap. Ele teria saído dos Rolling Stones devido às divergências relacionadas aos seus direitos autorais em diversas músicas não lhe creditados pela dupla Mick Jagger e Keith Richards. A preferência de Mick Taylor sempre foi pela Gibson Les Paul, com certeza sua marca registrada, mas ele variou durante sua carreira com a Gibson SG e Gibson ES-355 e raramente com os modelos Fender Stratocaster e Telecaster. As características principais do estilo de Taylor são o seu toque lento, melódico e fluente e seu belíssimo “sustain”; e suas principais influências foram os guitarristas Albert King, Freddie King e seu conterrâneo Jeff Beck. Graças a sua técnica refinada ele pode muito bem se aventurar por qualquer estilo musical, passando pelo country blues, blues rock, hard rock, instrumental rock ou jazz. Outra marca registrada de Taylor é o slide, quem não se lembra de sua performance em “Love In Vain” de Robert Johnson no disco Let It Bleed com os Stones? Na carreira-solo, apesar de intervalos consideráveis entre um trabalho e outro, Mick Tayor lançou alguns discos recomendáveis, posso citar o indispensável Mick Taylor (1979), Stranger In This Town (1990), Too Hoot For Snakes (1991), Live At 14 Below: Coastin’ Home (1995) e A Stone Throw (2000). Nos últimos anos surgiram boatos que sua disputa judicial com os Stones estava pegando fogo, mas tudo foi desmentido pelo próprio Mick Taylor que foi visto em público recentemente às gargalhadas acompanhado pelos ex-companheiros Keith Richards e Mick Jagger.

09 – Duane Allman – Guitarrista, guitarrista slide e (ocasionalmente) vocalista norte-americano nascido em 20 de novembro de 1946. Duane era também conhecido pelo apelido “skydog”, dado por Wilson Pickett, que achava o guitarrista parecido com um cachorro doidão, principalmente quando solava às alturas. Duane Allman foi uma estrela do southern rock & blues que brilhou com muita intensidade, apesar de sua curta existência; foi influenciado por principalmente por Elmore James, Otis Rush, B. B. King, The Yardbirds e The Rolling Stones. Destacou-se na banda de rock sulista The Allman Brothers Band, que fundou no final dos anos de 1960 em parceria com seu irmão (vocalista e tecladista) Greg Allman. A história conta que seu irmão ainda adolescente se interessou pela guitarra acústica ao assistir um vizinho dedilhar uma música country; Duane o seguiu e com o tempo seu dom natural para o instrumento, aliado a sua vontade de aprender fez com que Greg ficasse para trás no aprendizado e procurasse por um outro instrumento, no caso, o piano. Mas o que realmente definiu o destino dos irmãos Allman foi um show que assistiram do até então “trintão” B. B. King, em 1959. Era o que precisavam desfrutar para decidirem seus destinos como músicos. Em 1960 formam a banda The Kings; em 1966 depois de várias tentativas fracassadas com diversas formaçõe, formam o Allman Joys, gravando as faixas demos “Spoonful” (sucesso de Howlin’ Wolf), “Crossroads” (clássico Robert Johnson) e “Shapes Of  Things” (dos Yardbyrds com Jeff Beck). Em 1967 formam o The Hour Glass e fazem um show de abertura para Eric Burdon & The Animals no auditório Fillmore West. Em 1968 Duane já é reconhecido como um mestre da slide guitar e começa a chover convites para participar de gravações em estúdios para álbuns de diversos artistas como Wilson Pickett, com o qual fez uma versão para “Hey Jude” que muitos consideram melhor do que a dos próprios Beatles; King Kurtis; Aretha Franklin na gravação de “The Weight”; Otis Rush; Percy Sledge na gravação de “Games People Play”; Johnny Jenkins, no excelente álbum Ton-Ton Macoute! (1970), que muitos afirmam ser um disco-solo de Duane Allman; Boz Scaggs, com quem vez uma emocionante e insuperável versão para “Somebody Loan Me A Dime” de Fenton Robinson, considerada a melhor gravação de toda discografia de Scaggs; Delanie & Bonnie; Cowboy & Eric Clapton e Herbie Mann. Todas essas gravações foram registradas no cd duplo Duane Allman – An Anthology (1972). O jovem Duane Allman havia se tornado um respeitado e requisitado session man. Em 1969, Greg e Duane finalmente formam a lendária Allman Brothers Band; no ano seguinte paralelamente com o Allman Brothers, Duane participa da gravação do disco de estréia da nova banda de Eric Clapton, Derek And The Dominos. Clapton também havia se rendido ao talento de Duane, o que gerou, dentre outras, a gravação da famosa e enigmática canção “Layla”, com uma belíssima e irrepreensível intervenção do slide do Skydog. A técnica slide que lhe trouxe tanta fama foi desenvolvida graças a sua insatisfação musical, ele procurava algo que diferenciasse o seu som, apesar de sua técnica, na época, ser única. Foi quando, em 1968, ele ganhou de seu irmão Greg, o primeiro disco de Taj Mahal no qual trazia Jesse Ed Davis tocando slide na faixa “Statesboro Blues” de Willie Mctell, e junto no pacote de presentes, veio um ‘bendito’ vidro de comprimidos para resfriado. Duane jogou os comprimidos fora e usou o frasco de vidro para reproduzir o som slide que tinha ouvido no disco. Os horizontes se abriram para Duane, sua criatividade explodiu a partir disso. Os vidrinhos preferidos de Duane eram os de Coricidin D (descongestionador nasal) e Coricidin HBP (para pressão alta). Ele preferia os frascos de remédios ao slide convencional de aço. Muitos guitarristas que exploram o slide seguiram seu exemplo, como Rory Gallagher, Bonnie Rait e Gary Rossington do Lynyrd Skynyrd. Quanto às guitarras, Duane sempre deu preferência para os modelos Gibson Les Paul. Sua primeira guitarra foi um Gibson Les Paul Jr. De 1959, posteriormente chegou a usar uma Fender Telecaster com braço de Stratocaster, uma Gibson Les Paul ‘Gold Top’ de 1957, uma Gibson SG de 1961, uma Gibson ES-335 de 1958 ou 1962 e uma Gibson Les Paul ‘Tobacco Sunburst’. Para se ter uma idéia da magnífica técnica de Duane Allman vale a pena conseguir os discos (ou cds): The Hour Glass (1967) e Power Of Love (1968), no The Hour Glass; The Allman Brothers Band (1969); Idlewild South (1970); At Fillmore East (duplo ao vivo – 1971) e Eat A Pech (duplo com algumas faixas com Duane - 1972), no Allman Brothers Band; os já citados Ton-Ton Macoute! (com Johnny Jenkins) e Duane Allman - An Anthology Volumes I & II; e Layla And Other Assorted Love Songs (no Derek And the Dominos - 1970). Duane Allman faleceu precocemente em 1971, aos 24 anos de idade, num estúpido acidente de moto, deixando um acervo de belíssimas gravações. E fica a pergunta: o que ele poderia ter desenvolvido musicalmente se tivesse atingido a idade madura? Uma indagação que só mesmo Deus poderia nos responder, mas baseando-se no que Duane já tocava com apenas 24 anos...

10 – Rory Gallagher – Guitarrista, guitarrista slide, violonista, bandolonista,  gaitista, vocalista e compositor irlandês, nascido em 02 de março de 1948. A Irlanda ficou conhecida pelo grupo terrorista IRA e pelas muitas bandas e estrelas do rock reveladas como o Them de Van Morrison, Gary Moore, Thin Lizzy de Phil Lynott, U2 e The Waterboys, dentre outros, mas o cara que a meu ver representou bem aquela ilha cercada de montanhas chuvosas e de intermináveis planícies verdes e enevoadas, foi o guitar-hero, Rory Gallagher. Quem assistiu ao filme, Irish Tour ‘74, pode perceber o que a Irlanda dividida representava para o sensível guitarrista. È coisa rara no rock um artista chegar ao estrelato sem se tornar arrogante e agressivo, Rory Gallagher foi uma dessas pérolas raras. Quem não simpatizava com o cara? Um sujeito pacato, simples, modesto, de sorriso fácil e conhecido por sua notória timidez. Reservado, era também arredio às bajulações do estrelismo e de suas arapucas e sempre foi fiel às suas origens. Na verdade só duas coisas importavam para ele, tocar com profissionalismo e interagir com seu público devoto e, é claro, a cerveja irlandesa. Aliás, se alguém quisesse falar mal de Rory Gallagher, só poderia alegar que ele era um beberrão, um decente e dócil beberrão, principalmente nos bastidores após suas famosas apresentações. Rory geralmente era identificado pelos fãs nas capas dos discos por usar aquelas famosas camisas de flanela quadriculadas e portar sua guitarra desgastada Fender Stratocaster ‘sunburst’ 1961. Dizem que ele não obteve mais sucesso internacionalmente, pelo fato de ter horror a aviões, prejudicando assim em muito a divulgação de seu trabalho em apresentações ao vivo pelo mundo. Mas suas gravações em disco e vídeo compensaram e fizeram justiça à sua fama. Só o amor pelos palcos que o encorajava a se aventurar em apresentações por Belfast em meados dos anos de 1970, numa época em que o grupo IRA explodia bombas por todo o lado. Mas nunca se registrou algum problema nos shows do jovem guitarrista nessa época difícil, pelo contrário, só havia curtição. Rory inicialmente teve como influência musical, Elvis Presley, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Muddy Waters, Albert King, Leadbelly, Lonnie Donegan (o rei do Skiffle britânico) e Cream (de Eric Clapton). E por falar em Cream, deve-se Jack Bruce, Ginger Baker e Eric Clapton a obsessão de Gallagher pela formação de um power trio; e certamente seu poderoso vocal estava mais para Jack Bruce do que para Eric Clapton. Quando o jovem guitarrista irlandês sintonizava em sua casa as programações das rádios militares norte-americanas, ele procurava absorver o que podia de seus heróis do rock & roll e blues, sem contar com os especiais de TV que também assistia. Mas apesar das influências externas, Rory começou sua carreira como guitarrista (aos 15 anos) numa banda de música tradicional irlandesa chamada Fontana Show Band, na verdade uma verdadeira big-band (estilo Waterboys), que com o tempo reduziu o número de componentes, mas aumentando a agressividade e variando o repertório, passando a se chamar Impact Show Band. Mas o desejo de Gallagher era formar um grupo ainda menor, um power trio de guitarra, baixo e bateria como o Cream e o Jimi Hendrix Experience; e assim acabou formando o Taste, em 1968. Desde o início foi demonstrado que o forte de Rory Gallagher era atuar ao vivo sentindo o calor da platéia, assim a fama não tarda e o Taste é convidado a abrir shows para o Blind Faith de Eric Clapton e Stevie Winwood nos EUA e participar do famoso festival da Ilha de Wight, em 1970. Após dissolver o Taste por não estar satisfeito com o desempenho do baixista e baterista, ele parte para a carreira-solo convocando músicos mais capacitados e para a consagração mundial. Blues rock na Irlanda hoje, é sinônimo de Rory Gallagher. Na sua discografia os discos que obtiveram mais impacto, foram os gravados ao vivo, justamente pela energia que Gallagher desprendia nos palcos. Mas praticamente toda a discografia de Rory Gallagher é indispensável e em minha opinião, os essenciais para qualquer amante do blues & rock, são: On The Boards (1970), com o Taste; Deuce (1971), o lendário Live! In Europe (1972), Blue Print e Tattoo (ambos de 1973), o sensacional Irish Tour ‘74 (1974), a obra-prima Calling Card (1976), Photo-Finish (1978) e Jinx (1982), todos da carreira solo. Alguns de seus inúmeros hits foram, “Messin’ With The Kid”, “I Could’ve Had Religion”, “Pistol Slapper Blues”, “Going To My Hometown”, “Bullfrog Blues”, “Tattoo’d Lady”, “ Cradle Rock”, “A Million Miles Way”, “I Wonder Who”, “Who’s That Coming”, “Do You Read Me”, “Moonchild”, “Calling Card”, “Public Enemy”, “Brute Force & Ignorance”, “Shadow Play”, “Big Guns’, etc. A habilidade de Rory Gallagher com a guitarra, o bandolim, a gaita, o dobro (violão com corpo e cordas de aço) e o slide já se tornou lendária. Sua técnica com o slide foi comparada à de Duane Allman e Johnny Winter. Rory, no auge da fama, foi convidado para se integrar ao Rolling Stones e ao Deep Purple, mas para o alívio de seus fãs ele recusou, pois sua praia era outra, e certamente seu talento iria ser ofuscado pelo alter-ego dos líderes de tais bandas, como ocorreu com Mick Taylor nos Rolling Stones. Quem quer conhecer mais de Rory Gallager, deve assistir o excelente filme Irish Tour ‘74 que registra a excursão dele pela Irlanda e Irlanda do Norte, mostrando imagens de algumas cidades como Belfast, Dublin, Cork (onde nasceu) e ruínas de antigos castelos, junto com incríveis performances nos palcos, formando um retrato comovente de quem foi o maior guitarrista irlandês de todos os tempos. Infelizmente, para compensar sua timidez, fobias e solidão, Gallagher abusava do álcool, e para piorar acrescentava remédios para diminuir sua ansiedade e insônia. A combinação fatal lhe empurrou para um transplante urgente de fígado, que foi rejeitado pelo seu organismo causando-lhe infecção generalizada e por conseqüência a morte, em 14 de junho de 1995, aos precoces 47 anos de idade.                                             

Não percam, brevemente, Os 10 Maiores Guitarristas – Parte IV – De Jazz & Fusion.

 Por Eumário J. Teixeira.

11 de nov. de 2012

PETER GREEN FEZ 66 ANOS!

 
 PETER GREEN – UM HOMEM DO MUNDO PERDIDO NO BLUES
Peter Allen Greenbaum, guitarrista, baixista, gaitista, compositor e vocalista britânico nascido em 29/10/1946 em Bethnal, Londres, completou a idade de 66 anos no último mês de outubro. Green teve uma carreira de sucesso, mas entrou em colapso com as pressões do showbusiness agravado pelo abuso no uso de drogas e de um repentino misticismo que o levou a abrir mão de seus bens e da música. Sua queda acentuada da popularidade para a loucura em reclusão foi melancólica, um tema apropriado para um velho blues. Na minha humilde e suspeita opinião, ele foi o maior e mais subestimado guitarrista branco de blues de todos os tempos, só sendo superado por Eric Clapton. A maior vantagem de Clapton sobre Green se resume no fato de que o primeiro superou as dificuldades impostas pelo consumo de drogas e álcool sem sofrer seqüelas físicas ou mentais, lhe proporcionando uma carreira mais produtiva, ao contrário de Peter Green, que não teve tanta regularidade e quantidade, mas se destacou pela qualidade, o que foi relevante para que o seu nome não fosse esquecido pela história do blues rock britânico. Sua própria obra o manteve em certa evidência. 

Quem foi rei nunca perde a majestade
Dono de extrema sensibilidade para tocar e compor, Green teve sua carreira interrompida precocemente no auge da fama devido ao seu envolvimento pesado com LSD associado à uma necessidade de busca pela compreensão de Deus, se voltando para suas raízes judaicas e mais tarde para o cristianismo, que o levou à depressão, paranóia e a esquizofrenia no início dos anos de 1970. Ensaiou seu retorno aos palcos a partir do ano de 1979 alternando discos bons e razoáveis até 1987, quando teve uma recaída e se ausentou por um longo período permanecendo na obscuridade e vivendo sob os cuidados de um amigo em Surrey, e não como um mendigo pelas ruas como foi muito divulgado, só retornando aos poucos em 1996, quando se integrou ao Splinter Group de seu (até então) velho amigo e guitarrista Nigel Watson. A Parceria duraria até 2003, com altos e baixos até que se afastaram por motivos não esclarecidos, mas que envolvem direitos contratuais e a conservação da saúde e bem estar de Green. Há inclusive, uma ordem judicial expedida em 2004 que impede a aproximação e o assédio de Watson por quaisquer meios a Peter Green. Depois de seu afastamento do Splinter Group e consequentemente da mídia por alguns anos, foram postados no youtube registros de esporádicas apresentações do Peter Green & Friends (sua nova banda) em 2009 e 2010 em festivais e pubs de blues e rock pela Europa.
Entre Deus e o rock, Green entrou caiu em parafuso
Green se mantém em certa atividade até hoje apesar de suas raras performances serem ainda um tanto inseguras devido aos medicamentos que é obrigado a tomar, mas geralmente está acobertado por bons músicos. O próprio Green reconhece que tanto as drogas quanto os tratamentos terapêuticos à base de choques elétricos no passado causaram um grande dano irreparável à sua mente. 
A vida de Peter Green nunca foi fácil, sua origem judia lhe trouxe muito sofrimento e perseguições durante sua infância e adolescência, e a maioria de suas canções refletem todo o seu sofrimento, porque na verdade são autobiográficas. Apesar de seu talento comprovado, seu primeiro grande desafio como músico profissional foi substituir, simplesmente, o “deus da guitarra” Eric Clapton no John Mayall’s Bluesbreakers em 1967. E Peter Green surpreendeu os fãs desconfiados e órfãos de Clapton, registrando com competência todo o seu talento no disco A Hard Road (1967) do John Mayall’s Bluesbreakers. No ano seguinte Green deixa os Bluesbreakers (sendo substituído por Mick Taylor) e parte para formar o Peter Green’s Fleetwood Mac, uma banda que ficou na história do blues rock britânico, principalmente graças ao disco de estréia. A banda que ainda contava com o guitarrista slide Jeremy Spencer (fã de Elmore James) e mais tarde com o jovem guitarrista Danny Kirwan (pupilo de Green) conquistou o mundo com seu blues rock balançante. 
Criatividade e 'feeling' sobravam em Peter Green
As influências de Peter Green foram Robert Johnson, Alex Korner, John Mayall, o próprio Eric Clapton, Hank Marvin (The Shadows), Muddy Waters, B. B. King e Freddie King. Dentre suas composições mais famosas posso destacar com os Bluesbreakers de John Mayall, “The Supernatural e “The Same Way”; com o Fleetwood Mac, “Black Magic Woman” (gravado por Santana), “Oh Well”, “Long Grey Mare”, “Looking For Somebody”, “I Loved Another Woman”, “Watch Out”, “The Green Manalishi”, “Rattlesnake Shake”, “Fleetwood Mac” e “Sandy Mary”; na carreira-solo, “Looser Two Times”, “Tribal Dance”, “In The Skies” e “Slabo Day”. As versões que fez para “The Stumble” de Freddy King, “Need Your Love So Bad” de Little Willie John, “Homework” de Otis Rush, “No Place To Go” de Howlin’ Wolf, e suas belíssimas composições “Albatross” e “Man Of The World”, definem precisamente o seu estilo suave e doce, mas com certa pegada, ao tocar, cantar e compor.

Capas de seus melhores trabalhos
Os discos essenciais do mestre do blues rock britânico são, com o John Mayall’s Bluesbreakers, Hard Road (1967); com o Fleetwood Mac, Peter Green’s Fleetwood Mac (o primeiro, de 1968), Then Play On (1969), Fleetwood Mac in Chicago/Blues Jam In Chicago (duplo de 1969) e The Original Fleetwood Mac (1971); na carreira solo, In the Skies (1979) e Little Dreamer (1980); e com o Splinter Group, Reaching The Cold 100 (2003). 


A Gibson Les Paul dourada de Peter Green, também fez história; conta a lenda que ele a vendeu por mixaria para o guitarrista Gary Moore (já falecido), justamente na época em que estava fragilizado mentalmente e desfazia de seus bens, doando também todo o seu dinheiro para instituições de caridade. A partir daí a guitarra de Green acostumada a um tratamento mais carinhoso e sofisticado teve que se sujeitar ao estilo mais agressivo e pesado do seu novo dono. Será que com a morte recente de Moore em 2011, a lendária Sunburst Gibson Les Paul de 1959, voltou para o antigo mestre? Dizem que o som diferenciado do Les Paul de Green era devido a uma modificação que fez em um dos captadores, invertendo a fase; o próprio Peter Green desmente a lenda e não faz idéia do que significa “som-fora-de-fase”.

Mas agora o que realmente importa é que Peter Green deu a volta por cima, é claro que nunca mais tocará como há 45 anos atrás, mas ele está vivo, dizem que está refugiado na Suécia e cercado por quem realmente o ama e notadamente mantém o desejo de tocar o que mais aprecia: o blues! Vida longa e muita paz, Peter Green. E esteja onde estiver que Deus tenha misericórdia de você e te proteja dos demônios que tanto te atormentaram no passado.
Eumário J. Teixeira