5 de fev de 2011

MUSASHI, MIYAMOTO – Vivendo pela espada


Na época em que comecei a despertar para as artes marciais do oriente, ainda não se falava em filmes de Kung Fu no Brasil. O máximo que se ouvia falar era de judô e Karatê de forma bem superficial. Sobre o karatê, por exemplo, eu achava a princípio que o único golpe mortal era a famosa cutilada, em japonês “shuto uki”, no pescoço ou mais precisamente no gogó; era o golpe preferido dos agentes secretos, tipo James ‘Sean Connery’ Bond. Quanto ao judô, o seu golpe mais perigoso e também muito utilizado pelo 007, era o famoso “balão” (jogar o adversário por cima dos ombros), em japonês “seoi-nague”. Nunca tinha ouvido falar de Hapkidô, Aikidô ou Taekwondo. E apesar de ignorar o significado do termo Kendô, lá pelos meus 13 anos já tinha descoberto os filmes de Samurai. 
A versão bang-bang para os 7 Samurai

Os Sete Samurai
Sim, era a versão japonesa para os filmes de bang-bang norte-americanos e italianos, ou será que era o contrário?  Bem, o certo que o filme de samurai que mais me impressionou foi Os Sete Samurai (1954, direção: Akira Kurosawa, roteiro: Kurosowa; Hashimoto e Oguni) com Toshiro Mifune; que mereceu uma versão bang-bang norte-americana chamada Sete Homens e Um Destino (1960, direção: John Sturges) com Yul Brynner. Se não me engano, outro filme de samurai intitulado Yojimbo (1961, direção: Akira Kurosawa, roteiro: Ryuzo Kikushima) também com Toshiro Mifune, ganhou uma versão bang-bang “spaghetti”, com o jovem Clint Eastwood em Por Um Punhado de Dólares (1964, direção: Sergio Leone). 
Por um Punhado de Dólares vs. Yojimbo
Em ambos os casos as histórias são idênticas, só mudam as figuras dos personagens, ambiente e armas: o colt 45 para Eastwood e Brynner; e a katana para Mifune. Um pouco mais tarde, já mais ciente das mais variadas artes de combate existentes no oriente, estava lendo um artigo sobre Bruce Lee e seu legado quando um subtítulo me chamou a atenção; estava escrito: “Miyamoto Musahi viveu pela espada e Bruce Lee pelo Kung Fu”. De imediato me veio a indagação: Quem seria esse tal de Musashi para o compararem ao tranqüilo e infalível Bruce Lee? Bem, desde então não sosseguei até descobrir o máximo que pude sobre Miyamoto Musashi e sua vida dedicada ao caminho da espada.
 
A Vida de Miyamoto Musashi

Miyamoto Musashi viveu na Era Tokugawa (1603-1608), na verdade ele se chamava Shimen Musashi No Kami Fujiwara No Genshin e teria nascido no ano de 1584, na aldeia de Miyamoto, província de Mimasaka. Como legítimo samurai, ele cumpriu verdadeiramente o Bushidô (O Caminho do Guerreiro) onde um homem que adquirisse o direito de portar uma espada alcançaria o máximo de sua realização pessoal.

Toshiro Mifune como Miyamoto Musashi
 Sobre sua infância pouco se sabe, historiadores concordam que provavelmente ele ficou órfão muito jovem, passando a ser criando por um monge, que seria seu tio.
Seu pai, de nome Shimen Munisai, era um "goushi" (pequeno fidalgo rural, misto de camponês e samurai) e também um mestre no uso da Jitte (arma de metal pontiaguda com alça e presa a uma corrente atada ao pulso) que normalmente era utilizada contra espadas, e segundo consta, foi dele que Musashi obteve as primeiras lições de esgrima.
Musashi sempre foi precoce em desenvolver habilidades para o combate além ter sido privilegiado com físico bem avantajado. Consta que seu primeiro duelo ocorreu aos treze anos, quando venceu Arima Kihei, do estilo Shinto Ryu. Kihei. Kihei já era adulto e tinha grande habilidade técnica com a espada e a lança. Entretanto, não foi páreo para o jovem Musashi, que após derrubá-lo, golpeou sua cabeça com uma Boken (espada de madeira ou bambu) antes que seu adversário se recuperasse.
Aos dezesseis anos Musashi partiu para uma peregrinação em busca da compreensão do mundo, de si mesmo e do aperfeiçoamento de sua técnica como espadachim, o famoso caminho da Katana, conhecido como Musha-Shugyo.
Monumento ao mestre das duas espadas
Na sua busca, Musashi teria participado da histórica batalha de Sekigahara, que deu a Tokugawa Ieasu, o título de Shogun, o governante militar. Embora estivesse do lado dos derrotados, Musashi conseguiu sobreviver ao massacre de três dias, onde 70 mil guerreiros foram dizimados.
Prosseguindo na sua trajetória épica, Musashi com apenas 21 anos, parte para Kyoto onde desafia o clã Yoshioka. Os Yoshioka possuíam uma grande academia de esgrima e contavam com muitos alunos e imenso prestígio em Kyoto. Mesmo assim Musashi enfrenta e vence Yoshioka Seijuro, filho mais velho do fundador da escola Yoshioka Kenjutsu. Em seguida, Musashi vence o irmão mais novo deste, Yoshioka Dechinjiro, entretanto, diante da humilhante derrota, os remanescentes do estilo, organizaram uma luta entre Musashi e um garoto de 12 anos, outro filho dos Yoshioka, de nome Seijuro. Pela sua pouca idade, ficou acertado que Seijuro teria a ajuda de alunos e familiares dos Yoshioka. Passada a hora do duelo, Musashi ataca furtivamente seus adversários, matando o garoto e fugindo vitorioso.

Monumento ao lendário duelo entre Musashi e Kojiro
A fama de Musashi se espalhou pelo país, sempre relacionada a feitos inacreditáveis.
No mesmo ano em realizou os duelos com os Yoshioka, Musashi visitou o templo Hozoin, famoso por desenvolver um estilo de luta com lanças de muita eficiência. Musashi lutou com o patriarca do estilo e após derrotá-lo por duas vezes, tornou-se seu amigo, ficando no templo por algum tempo aproveitando para trocar técnicas marciais com os monges.
O duelo mais polêmico de Musashi foi contra Muso Gonosuke. Eles se enfrentaram por duas vezes, onde na primeira, Gonosuke utilizou uma longa espada e foi derrotado por Musashi. Após a derrota, Gonosuke se isolou e desenvolveu uma nova técnica, utilizando o Bo, o bastão de madeira. No novo duelo, Gonosuke teria vencido Musashi, embora nenhum deles tenha jamais admitido a vitória, em virtude da grande amizade que surgiu entre os dois guerreiros.
Musashi enfrentou seu maior adversário em 1612, seu nome era Sasaki Kojiro. O duelo ocorrera na ilha Funashima e Musashi fez uso de uma estratégia nada ortodoxa. Simplesmente chegou horas atrasado em relação ao combinado, fazendo com que seu adversário perdesse concentração e energia esperando-o. Kojiro era exímio espadachim e era conhecido por habitualmente usar uma espada longa, Musashi por sua vez, era famoso por ser um samurai que usava simultaneamente duas espadas ao lutar, mas desta vez se valeu apenas de uma espada de madeira, esculpida de um dos remos do barco que usou para chegar à ilha onde se realizaria o duelo. Após um início de muito estudo entre os dois, Musashi vence a luta, golpeando Kojiro na cabeça. Alguns contam que o golpe de Kojiro passou tão próximo de Musashi, que teria cortado a faixa que ele usara para prender os cabelos.

Musashi e a técnica com duas espadas
Prosseguindo em sua peregrinação, Musashi teria lutado no cerco ao castelo de Osaka (1614 a 1615), mas historicamente não fica esclarecido de qual lado Musashi combateu, se do lado de Tokugawa, o Shogun, ou de Hideori, o herdeiro de Hideoshi, o antigo Shogun. Pesquisas atualizadas mostram que ele possivelmente lutou ao lado de Hideori, o derrotado, mas é provável que nunca se confirmará ao certo, qual exército contou com a ajuda de sua espada.
Musashi foi uma lenda viva em seu tempo. Tornou-se mestre na arte de anular completamente seus adversários, os quais estudava cuidadosamente antes dos confrontos, fazendo uso de estratégias táticas e psicológicas efetivas. Na sua maturidade, Musashi ignorou todas as regras passando a usar uma espada de madeira ao invés de uma espada de corte, procurando dirigir seu conhecimento adquirido nos combates como um caminho para se elevar espiritualmente.
Musahi versus Kojiro
Aos 50 anos, ele teria compreendido o caminho da estratégia completamente e já teria desenvolvido seu estilo Niten Ichi Ryu, que apesar de ser conhecido apenas como a arte de esgrimir com duas espadas, contém técnicas com a espada maior (tachi seiho), espada menor (kodatchi seiho) e técnica com o bastão longo , bojutsu.
Nos seus últimos anos de vida, Musashi dedicou-se a caligrafia, escultura, pintura e a poesia. Ele tinha compreendido que "quando se atinge o caminho da estratégia, não haverá mais nada que não se possa compreender, e ver-se-á o caminho em tudo".
Aposentado como samurai, Musashi tornou-se vassalo do clã Hosokawa, vivendo no castelo Kunamoto, e dois anos antes de falecer teria se isolara na caverna Reigando, a oeste da cidade de Kumamoto.
Musashi (Toshiro Mifune) versus Kojiro
 Lá escrevera o “Go Rin No Sho”, o Livro Dos Cinco Anéis, ou "Gorin No Sho", onde compilou seus conhecimentos nas artes da espada e da estratégia. Um dos princípios da narrativa de Musashi é exatamente o nascimento do seu estilo, desde a primeira idéia, instintiva, até as poéticas considerações sobre a luta com duas armas. Esta obra é hoje utilizada por executivos de grandes empresas no Japão e no mundo, para traçar estratégias de mercado e ética nos negócios. Go" significa cinco,"rin" significa anéis ,e "sho" significa escrito, pergaminho ou livro. Concluiu a obra no segundo mês de 1645.
Em 1645, no décimo segundo dia do quinto mês (data japonesa), sentindo a aproximação da morte, Musashi liberou-se de suas posses materiais após entregar a cópia manuscrita do Livro dos Cinco Anéis a seu discípulo mais próximo, o irmão mais novo de Terao Magonojo. Ele faleceu na caverna de Reigando por volta do dia dezenove do quinto mês, segundo o calendário japonês da época, correspondente a 13 de junho de 1645, de causas naturais aos 61 anos de idade.
Myamoto Musashi
Musashi transcendeu a imagem de um simples samurai, pois também foi um artista completo, além de torna-se um herói nacional no seu país. O homem que no início de sua caminhada buscava obsessivamente pela técnica máxima do Kenjutsu e da auto-satisfação, transformou-se em sua maturidade num mestre sereno e no maior expoente da cultura japonesa na sua época, sendo também reconhecido como Kensei, ‘o santo da espada’. Musashi nunca foi derrotado em combate, apesar de ter enfrentado mais de sessenta oponentes, algumas vezes mais de um ao mesmo tempo.

Livros sobre Musashi – O livro de Eiji Yoshikawa, “Musashi”, publicado no Brasil pela Editora Estação Liberdade, relata parte da vida do samurai lendário. Mesmo baseado em fatos históricos, alguns fatos são romanceados. O autor mescla personagens fictícios com outros que realmente existiram. Mas de qualquer forma a história segue cronologicamente a trajetória heróica vivida por Musashi.
Musashi de Eiji Yoshikawa
A obra que a princípio foi lançado em 1013 capítulos diários foi convertida em livro que vendeu mais de 120 milhões de cópias no Japão.
Na obra “O Samurai – A Vida de Miyamoto Musashi”, também publicada pela Estação Liberdade, o autor William Scott Wilson, especialista em língua e cultura japonesa, se vale principalmente dos fatos históricos para descrever o caminho do samurai. O livro, fruto de uma árdua pesquisa, oferece em seu conteúdo além da interessante narrativa, mapas e diversos anexos, como desenhos do próprio Musashi, que apesar de sido famoso pela sua habilidade com as espadas, também pintava a nanquim, praticava a caligrafia tradicional japonesa, estudava poesia chinesa e seguia a filosofia zen-budista.


Histórias em quadrinhos sobre Musashi –
Tahehiko Inoue, um jovem desenhista e roteirista de mangá (hqs japonesas), deu início em 1998 a série Vagabond que passou dos 20 volumes no Japão. A versão dos quadrinhos para Musashi é baseada no livro de Eiji Yoshikawa, mas alça vôos em aspectos interessantes fora da narrativa do escritor. Os desenhos em prêto e branco do mangá com algumas páginas centrais coloridas, são ricos em detalhes e, juntamente com o roteiro cativante, conquistaram premiações como o Cultural Affairs Media Arts e o Kodansha Manga Award. Foram mais de 23 milhões de exemplares vendidos só no Japão. No Brasil a revista em quadrinhos de Musashi é publicada pela Conrad Editora.

Filmes sobre Musashi – Sendo um personagem histórico muito popular no Japão, o lendário espadachim não escapou de versões para o cinema. O ator que melhor representou Musashi nas telas foi Toshiro Mifune. Abaixo uma lista de filmes e séries sobre o mais famoso dos samurais:

No Cinema:
O primeiro filme sobre Musashi
- Miyamoto Musashi, realizado por Kenji Mizoguchi - 1944
- Miyamoto Musashi 1 - primeira parte da trilogia estrelada por Toshiro Mifune e realizada por Hiroshi Inagaki - 1954
- Miyamoto Musashi 2 - Zoku Miyamoto Musashi: Ichijôji no kettô (Morte no templo Ichijoji - estrelada por Toshiro Mifune e realizada por Hiroshi Inagaki - 1955
- Miyamoto Musashi 3 - kanketsuhen: kettô Ganryûjima (Duelo na ilha Ganryu - estrelada por Toshiro Mifune e realizada por Hiroshi Inagaki - 1956
- Miyamoto Musashi 1 - primeiro dos cinco filmes estrelados por Kinnosuke Nakamura (1932-1997), realizados por Tomu Uchida - 1961
- Miyamoto Musashi 2 - Hannyazaka no ketto - estrelado por Kinnosuke Nakamura, realizado por Tomu Uchida - 1962
- Miyamoto Musashi 3 - Nitoryu kaigen - estrelado por Kinnosuke Nakamura, realizado por Tomu Uchida - 1963
A trilogia sobre Musashi com Toshiro Mifune
- Miyamoto Musashi 4 - Ichijoji no ketto - estrelado por Kinnosuke Nakamura, realizado por Tomu Uchida - 1964
- Miyamoto Musashi 5 - Ganryû-jima no kettô - estrelado por Kinnosuke Nakamura, realizado por Tomu Uchida -1965
- Miyamoto Musashi, realizado por Tai Katō -1973




Na TV:
Versão para TV japonesa
- Sorekara no Musashi - 1981, estrelado por Kitaoji Kinya
- Musashi, realizado pela rede NHK - 2003, com Ichikawa "Ebizo" Shinnosuke


O melhor intérprete de Musashi – Sem dúvida foi Toshiro Mifune, que nasceu em Qingdao, na província chinesa de Shandong, em 1º de abril de 1920, filho de Missionários japoneses. 
o imbatível Toshiro Mifune
Tornou-se famoso por suas atuações em clássicos do cinema japonês, sobretudo em filmes em que atuava como samurai, como “Os Sete Samurais” (1954); na “Trilogia de Miyamoto Musashi” (1954;1955 e 1956); e Yojimbo (1960). O diretor com quem mais se integrou foi Akira Kurosawa, que o dirigiu por 16 vezes.  Toshiro Mifune chegou a fazer um filme em Hollywood na segunda metade da década de 1960, interpretando um samurai em busca de vingança no velho oeste ao lado de um pistoleiro traído interpretado por Charles Bronson, em “Sol Vermelho”. Outro trabalho memorável de Toshiro Mifune foi realizado ao lado do ator americano Richard Chamberlain em “Shogun” (1980), uma mini-série para TV de James Clavell. Toshiro Mifune morreu em Tóquio em 24 de dezembro de 1997.

Ainda sobre Musashi - Consta que certa vez lhe perguntaram por que usava a espada, já que sabia pintar tão bem que poderia viver de sua arte. Musashi teria respondido que para ele a pintura era um mero passatempo, que sua arte era o manejo da espada.
O Livro dos Cinco Anéis

Numa próxima postagem trarei algumas informações sobre o ‘Livro dos Cinco Anéis’ de Miyamoto Musashi.

Confira no link do youtube o duelo sensacional entre Musashi (Mifune) e Kojiro: http://www.youtube.com/watch?v=WhbCEi_Aac4






Por Eumário J. Teixeira.

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