10 de dez de 2010

Canned Heat de Alan ‘Blind Owl’ Wilson e Bob ‘The Bear’ Hite


O Canned Heat formado em 1966 tinha como base criadora Bob Hite, frontman, vocais e harmônica; e Alan ‘Blind Owl’ Wilson, na guitarra slide (elétrica e acústica), harmônica, piano e vocais, além de ser o principal responsável pelos arranjos da banda. Bob Hite quando adolescente começou a trabalhar numa loja de discos o que o levou a descobrir e se apaixonar pelo som dos bluesmen do Delta do Mississipi, daí começou a colecionar raridades. Al Wilson de cultura erudita trabalhava na fábrica de tijolos de seu pai e conheceu Bob Hite através do guitarrista Henry Vestine. A afinidade entre eles fez com que formassem uma banda com o intuito de divulgar o blues para a rapaziada da Califórnia. Com o primeiro LP “Canned Heat” de 1967, demonstraram desde o início que tinham como objetivo principal o resgate do gênero musical afro-americano, sendo que se tornou característico no som da banda, o ritmo derivado do próprio blues, o boogie-woogie. 
O nome Canned Heat, uma homenagem à Tommy Johnson
O que contou para a crescente popularidade do Canned Heat na segunda metade da década de 1960, na era utópica dos hippies e do Sunflower Power, foram as participações da banda em festivais que se tornaram históricos por revelarem grandes músicos e conjuntos de rock, como os festivais de Monterey (1967) e Woodstock (1969). O nome da banda tem origem num velho blues chamado “Canned Heat Blues”, de autoria do lendário bluesman Tommy Johnson, nascido em Terry, Mississipi, em 1896 e morto em 1956, na cidade de Crystal Springs, também no Mississipi. A tradução de “Canned Heat” seria “fogo enlatado”, pois refere-se a um óleo de cozinha gelatinoso, chamado sterno, que era consumido como bebida pelos lavradores ao sul dos EUA durante a Lei Seca; o produto era esquentado e coado com meias ou fatias de pão para separar o álcool metílico do produto que era por sua vez misturado, geralmente, com refrigerantes. Tal bebida dava um “barato” que saia caro na maioria das vezes para seus consumidores causando até cegueira ou alta intoxicação; Johnson, inclusive, teria morrido pela ingestão regular de “canned heat”. 
Let's work together...
A Banda Canned Heat tocou em lugares respeitados como no Olympia de Paris, Montreaux na Suíça, no Carnegie Hall e Madison Square Garden de Nova York, implacando seus hits que não eram poucos como: “On The Road Again”; “Let´s Work Together”, “Bullfrog Blues” e “Goin’ Up The Country, só para citar alguns. E o que diferenciava a banda nitidamente das demais na época, era a falta de pompa e estrelismo de seus integrantes, que só tocavam por prazer e diversão, sem grandes pretensões, mas com competência. Os quatros primeiros discos do Canned Heat são essenciais para quem ama o blues. No LP de estréia (Canned Heat pela Liberty Records) de 1967 estão vários clássicos do blues como “Rollin’ and tumblin’”; “Bullfrog Blues”; “Dust My Broom”; “Help Me” e “The Road Song”. O segundo trabalho, em fevereiro do ano seguinte, é Boogie With Canned Heat, onde se tem músicas de autoria da banda além de blues tradicionais, como “Evil Woman”; “On The Road Again”; “An Own Song” e “Anfhetamine Annie”. Ainda em outubro de 1968 lançam o duplo Living The Blues, um trabalho de blues experimental e psicodélico com faixas de longa duração, para citar algumas: “Going Up The Country” (que foi o hino de Woodstock); “My Pony”; “My Mistake”, “Sandy’s Blues”; Walking My Self” e “Boogie Music”. A seguir, vieram os LPs Hallelujah (dezembro de 1968) com as faixas “Same All Over”; “Canned Heat”; “Time Was” e “Big Fat”, e Future Blues (1970) destacando-se as faixas “Let’s Work Together”; “That´s Allright, Mama”, “So Sad” e “London Blues”.
Boogie & blues sem frescura
O produtor Johnny Otis realizou uma gravação com o grupo ainda com uma formação instável em 1966, com Bob Hite, Alan Wilson, Frank Cook, Henry Vestine e Stuart Brotman no seu estúdio em Los Angeles. O registro só foi lançado em 1970 e o LP foi denominado Vintage Heat, que tornou-se um raro bootleg na discografia do Canned Heat, no qual continha versões primorosas de “Rollin’ And Tumblin’” de Muddy Waters; “Spoonful” de Howlin’ Wolf e a lindíssima versão para “Louise”, de John Lee Hooker.
Em 03 de setembro de 1970, Al Wilson foi encontrado morto na casa de Bob Hite situada em Topanga Canyon, provavelmente teria cometido suicídio aos 27 anos de idade. De personalidade sensível e conflituosa, Alan teria tentado suicídio anteriormente por algumas vezes, tinha passado por um tratamento psiquiátrico recentemente e estava sob os cuidados de Bob Hite. Em fevereiro de 1971 alcançaram o auge da fama ao ser lançado o duplo Hooker ‘N’ Heat, este trabalho dirigido por Hite foi considerado responsável pela recuperação da carreira do veterano John Lee Hooker. A nota triste é que Alan Wilson que participou de todo o trabalho não pode desfrutar do sucesso do disco.
Alan "blind owl" Wilson e Bob "the bear" Hite
 O primeiro disco do álbum é mais acústico com apenas John Lee Hooker no vocal e guitarra acompanhado de Al Wilson ao piano apenas na última faixa, destacando-se “Messin’ With The Hook”; “You Talk To Much” e “Bottle Up And Go”. No outro lado da bolacha John Lee estava assessorado pela banda inteira mandando ver em “Whiskey And Women”; “Let’s Make It”; “Peavine” e “Boogie Chillen nº 2”. John Lee Hooker não cansava de declarar Al Wilson como um dos maiores gaitistas que já ouvira em toda sua longa carreira.
Mas a banda prosseguiu, gravaram ainda bons discos como o LP Rollin’ & Tumblin’ (1973); One More River To Cross (1974); Memphis Heat (1974), com o pianista de blues Memphis Slim; Captured Live (1981) e fizeram apresentações sensacionais como a de Montreaux em 1973, com participação especial de Clarence ‘Gatemouth’ Brown. Infelizmente o Canned Heat sofre outro duro golpe em 5 de abril de 1981, com a morte de Bob Hite em Los Angeles, aos 36 anos, vitimado por um ataque de coração pouco antes de uma apresentação. O guitarrista Henry Vestin viria a falecer em 20 de outubro de 1997, também vitima de ataque cardíaco em Paris, após o encerramento de uma turnê. Adolfo Fito de la Parra, baterista e um dos últimos integrantes originais, continua mantendo a memória musical do Canned Heat em atividade por todo o mundo ao lado do baixista Larry Taylor e de um dos primeiros guitarristas da banda, o virtuose Harvey Mandel.

Canned Heat (1967)
Em uma entrevista concedida à revista Poeira Zine (www.poeirazine.com.br) na edição de outubro/novembro de 2008, Fito de La Parra respondeu a várias perguntas dos leitores, inclusive a minha sobre as circunstâncias da morte de Al Wilson, e segundo suas próprias palavras: “Alan se Matou. Ele tomou uma dose letal de comprimidos. No começo eu o achava muito estranho: seu visual, suas roupas sujas, seu cabelo... (risos). Mas logo comecei a conhecer ele melhor e vi que era um cara extremamente talentoso e uma pessoa maravilhosa. Alan não estava nem aí para o seu visual; ele apenas enrolava sua roupa e a jogava num do quarto. Ele sempre dormia no chão; não curtia dormir na cama...E gostava bastante de dormir ao relento, ao ar livre tanto que quando morreu, Alan estava dormindo do lado de fora da casa (no jardim da casa de Hite)...Ele era um ‘cara da natureza’...”. Outra pergunta interessante foi a de Marco Gaspari sobre a convivência dele (Fito de la Parra) com Bob Hite e Al Wilson e suas coleções de discos de blues, a resposta do baterista foi essa: “Eu não sabia dessa ‘aptidão’ deles até o dia em que fui fazer a audição para me tornar baterista do grupo e cheguei com um LP de Junior Wells & Buddy Guy debaixo do braço que comprei no caminho. Tanto Hite como Wilson ficaram espantados e Hite depois me confessou que logo pensou consigo mesmo: ‘Esse cara é o batera ideal para o Canned Heat!’. 
Boogie with Canned Heat (1968)
Todos nós fomos influenciados por esses álbuns maravilhosos da coleção deles. Tínhamos acesso a tudo e ficávamos meses ouvindo raridades do blues. Não poderia ter sido melhor...Hite e Wilson eram apaixonados por música e isso ficava evidente em nossas performances”.

É isso aí pessoal, muitos falam e com razão do John Mayall’s Bluesbreakers e do Peter Green’s Fleetwood Mac, mas não podemos deixar de honrar também a memória daqueles que suaram pela revitalização do blues na ensolarada Califórnia nos anos de 1960, a banda liderada por Al Wilson e Bob Hite, o incrível Canned Heat!
Quem quer ter uma noção geral sobre a música do Canned Heat deve correr atrás da coletânea Uncanned! The Best Of Canned Heat (1994), vale a pena! 



O Link para curtir no you tube "Let's Work Together" com o Canned Heat: 


Por Eumário José Teixeira.

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