3 de jun de 2010

JOÃO FERREIRA DE ALMEIDA, O FIEL TRADUTOR DA PALAVRA DE DEUS

As versões da Bíblia mais adotadas pela comunidade protestante no Brasil são as baseadas na tradução de João Ferreira de Almeida. Digo “baseadas” porque a primeira tradução feita pelo próprio Almeida se deu por volta de 1644 e desde então novas edições com alterações sutis e suspeitas foram impostas e publicadas. Por exemplo, dois anos após sua morte, em 1693, o Novo Testamento de Almeida foi revisto e lançado em 2ª edição com algumas modificações. É tida como fiel aos manuscritos sagrados a primeira versão da Bíblia de Almeida publicada no Brasil, esta versão nunca chegou a ser revista ou revisada. O mesmo em relação às traduções de Almeida publicadas aqui antes de 1957, que também não foram revistas, revisadas ou corrigidas, permanecendo fiéis às verdadeiras palavras de Deus contidas nos textos originais. O interessante é que sempre me aconselharam a ter a Bíblia de Almeida, pois era a mais fiel, mas eu nunca imaginava que uma tradução tão tradicional e respeitada entre os cristãos protestantes também sofresse ataques predatórios encobertos por supostas revisões e correções. Como se pudessem simplesmente “amaciar” ou “moldar” as palavras de Deus para uma melhor adaptação aos tempos modernos. E outra coisa que sempre me intrigou é que todos falavam do tal “Almeida” e ninguém sabia me dizer nada a respeito dele. Eu por exemplo, achava que ele era brasileiro...“santa ignorância!”. Após algumas pesquisas, consegui coletar algumas informações que resumem um pouco da vida e obra de João Ferreira de Almeida e das controvérsias em torno de sua tradução e o que aconteceu com as mesmas após sua morte.

João Ferreira de Almeida era filho de pais católicos e nasceu em Torre de Tavares (Mangualde), Portugal, em 1628. Ao ficar órfão ainda criança, foi morar com um tio, membro de uma ordem religiosa católica, em Lisboa. Não se tem registros sobre sua infância e adolescência em Lisboa, mas é certo que teve ótima formação visando o sacerdócio. Supostamente Almeida teria deixado Portugal ainda adolescente escandalizado com a campanha de terror imposta pela igreja através da Inquisição. Almeida foi para a Holanda e, aos 14 anos, embarca para a Ásia, passando pela Batávia (hoje Jacarta), na ilha de Java, Indonésia. A Batávia, era na época, o centro administrativo da Companhia Holandesa das Índias Orientais, no sudeste da Ásia. Em 1642, ao Velejar entre a Batávia e Malaca, na Malásia, Almeida leu um folheto escrito em espanhol de cunho protestante, intitulado “Diferencias de la Cristandad” (Diferenças da Cristandade). O panfleto questionava algumas doutrinas e conceitos católicos, incluindo a utilização de línguas incompreensíveis dirigidas ao povo comum, como o latim, durante as missas. O manifesto provocou grande impacto ao jovem de 14 anos, que de imediato converteu-se à Igreja Reformada Holandesa ao chegar em Malaca. Em 1644, aos 16 anos, Almeida começou a se dedicar à tradução de trechos dos Evangelhos do castelhano para o português. A seguir, em 1646, Almeida encarou o projeto ambicioso de traduzir o Novo Testamento para o português usando como base parte dos Evangelhos e das Cartas do Novo Testamento em espanhol da tradução de Reyna Valera, de l569. Almeida também buscou auxílio para sua tradução nas versões latina (de Beza), francesa (Genebra, 1588) e Italiana (Diodati, 1641), todas estas traduzidas de textos hebraicos e gregos. Seu trabalho foi realizado em menos de um ano. Almeida, de imediato, enviou uma cópia do texto ao governador geral holandês, em Batávia. Acredita-se que em seguida a cópia teria sido remetida para Amsterdan, Holanda, para publicação, mas o responsável pela tarefa faleceu e o texto desapareceu. Almeida ficou sabendo do sumiço do original em 1651, ao lhe ser solicitada uma cópia para a Igreja Reformada na ilha de Ceilão (hoje Sri Lanka). Sem se deixar abater, Almeida parte para uma nova tradução, baseando-se em cópias ou rascunhos anteriores do seu trabalho. A nova tradução foi concluída em 1652, uma versão revista dos Evangelhos e do livro de Atos dos Apóstolos. Em 1654, Almeida completou todo o Novo Testamento, mas como da primeira vez, nenhum esforço foi feito para imprimir a tradução, sendo feitas apenas algumas poucas cópias manuscritas. Almeida começa ministrar na Igreja Reformada Holandesa inicialmente como “visitador de doentes” e a seguir como “pastor suplente”. Em 1656 foi aprovado nos exames teológicos sendo ordenado para o ministério pastoral e missionário. Serviu inicialmente em Ceilão e depois na Índia, onde foi um dos primeiros missionários protestantes a visitar aquele país. Tudo indica que foi na sua estada no Ceilão que Almeida conheceu e casou-se com sua esposa que se chamava Lucrécia Valcoa de Lemmes. Já que era um missionário convertido ao protestantismo e afirmava sua desaprovação em relação às doutrinas católicas e não omitia denúncias de corrupção moral entre o clero, Almeida passou a ser visto como apóstata e traidor por muitos das comunidades portuguesas. Durante o pastorado em Galle (sul do Ceilão), Almeida assumiu sua posição anti-católica contra o que chamava de “superstições papistas”, o que levou o governo local apresentar uma queixa a seu respeito ao governo de Batávia em 1657. Entre 1658 e 1661, quando foi pastor em Colombo, o governo tentou impedi-lo de pregar em português, sem sucesso, em represália às suas idéias contra a Igreja Católica. Em Tuticorin (sul da Índia) onde pastorou por um ano aproximadamente, Almeida teve seu retrato queimado numa fogueira na praça pública de Goa, Índia, a mando da Inquisição, o que levou muitos nativos recusarem-se a ser batizados ou casados por Almeida. As manifestações contra Almeida orquestradas pelos católicos levou Almeida ao tribunal da Inquisição em Goa em 1661. Ele foi condenado e sentenciado à pena de morte por heresia, mas o governador geral da Holanda transferiu-o de volta a Batávia, livrando-o da morte certa. Em 1676, Almeida apresentou o seu trabalho de tradução do Novo Testamento para revisão ao consistório (assembléia de cardeais) da Igreja reformada em Batávia. Almeida e os revisores não se entendiam, principalmente sobre o estilo do português usado na tradução. As divergências de opiniões fez com que o trabalho se atrasasse, sendo que o Evangelho de Lucas ainda estava inacabado quatro anos após o início da revisão. Sem o conhecimento dos revisores, Almeida enviou uma cópia para Holanda visando sua publicação. A versão do Novo Testamento em português finalmente foi publicada em Amsterdan em 1681, apesar da desaprovação do consistório em Java. Várias cópias chegaram a Ásia no ano seguinte, mas ainda assim os revisores conseguiram impor suas alterações no trabalho de Almeida. O governo apoiou Almeida e mandou destruir toda a primeira impressão alterada. Almeida ainda conseguiu salvar algumas cópias corrigindo os erros principais à mão até a realização de nova impressão. Os revisores de Batávia tornaram-se reunir para concluir a verificação do Novo Testamento e partir também para o Velho Testamento, à medida que Almeida o fosse traduzindo. Almeida finalmente deixa o trabalho missionário em 1681 devido à sua saúde bastante fragilizada e passa a se dedicar exclusivamente ao trabalho de tradução. Mas veio a falecer no mês de outubro de 1691 enquanto traduzia o capítulo 48.21 de Ezequiel. Ao amigo e pastor holandês Jacobus op den Akker, coube completar sua tradução em 1694. Depois de várias alterações, ela foi impressa na Batávia, em dois volumes: o primeiro em 1748 e o segundo, em 1753. A segunda edição do Novo Testamento em português, foi revista pouco antes de sua morte, sendo publicada ainda em 1693. Historiadores afirmam que, novamente, esta segunda edição foi desfigurada pelos revisores. Uma sociedade inglesa, a Society for Promoting Christian Knowledge, de Londres teria financiado a terceira edição do Novo Testamento de Almeida, em 1711. No século XIX, a British and Foreign Bible Society e a American Bible Society distribuíram milhares de exemplares da versão de Almeida em Portugal e nas principais cidades do Brasil, o que tornou a tradução de João Ferreira de Almeida um dos textos mais populares das Escrituras em língua portuguesa.

No Brasil temos disponíveis estas versões de Almeida:

- Almeida Corrigida e Fiel (pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil - SBTB-1999, que é a mais recomendada por estudiosos e cujo Texto base é o Textus Receptus (grego), e Massorético (hebraico)
- Almeida Revista e Corrigida (pela Sociedade Bíblica do Brasil – SBB-1995)
- Almeida Revista e Atualizada (pela Sociedade Bíblica do Brasil – SBB- 1956,1993)

Por Eumário J. Teixeira.

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