2 de nov de 2013

El SANTO AINDA É CULT!


É incrível o fascínio exercido em todo o México pela figura lendária do inesquecível lutador de pancrácio ou luta-livre, conhecido como Santo, o mascarado de prata. Seu estatus de celebridade entres os mexicanos atinge diversas gerações e supera, ao meu ver, a de personalidades também históricas de revolucionários Emiliano Zapata e Pancho Villa, do ator e comediante Cantiflas, do boxeador Júllio César Chaves e do seu maior rival e  também lutador Blue Demon. Faço aqui outra homenagem ao lendário Mascarado de Prata, incentivado pela incrível aceitação que a primeira postagem, "Santo, o Mascarado de Prata", obteve neste blog.

El Santo, o lendário Mascarado de Prata
Santo, ou melhor Rodolfo Guzmán Huerta, ficou conhecido internacionalmente graças aos seus mais de 50 filmes “b”, que eram películas temperadas com muita ação, terror, ficção científica e mulheres bonitas como as musas mexicanas Lorena Velásquez, Maria Duval e Gina Román. Mas em seu país ele foi respeitado pelas suas conquistas nos ringues, em lutas reais e muitas vezes sangrentas contra adversários verozes, que nada lembravam as lutas combinadas que assistíamos pela TV nos anos de 1970 aqui no Brasil.
Mesmo os rivais tradicionais de Santo, como El Murciélago Velázquez, Black Shadow, Bobby Lee, El Cavernario Galindo, Espanto I e Blue Demon acabaram por ceder aos encantos de seu bom caráter, pois mesmo derrotando seus adversários ou raramente sendo derrotado por um por outro, nunca perdeu o respeito por eles.  Santo tinha realmente um carisma e perfil natural para ser um herói popular e assim aconteceu. O garoto Rodolfo Guzmán de 6 anos não imaginava que quando mudasse com a família para a cidade do México para tratar de uma infecção no braço de sua mãe, Josefina Huerta, se tornaria o maior lutador de pancrácio do país.
Tempos depois, já estabelecido com a família na cidade do México, o pequeno Rodolfo voltava da escola primária com alguns colegas, quando presenciou algo que anunciaria que sua  vida ainda enfrentaria momentos dramáticos. Os garotos testemunharam um gato preto ser atropelado e morto por um carro. Um amigo superticioso afirmou que o acidente seria um sinal de azar para alguém do grupo. Assim, quando Rodolfo chega em sua casa, depara com o seu pai, Jesus Guzmán, morto.
Inicialmente seus irmãos mais velhos, Jesus e Miguel, se aventuram na luta-livre com o desejo de se profissionalizar e manter a casa, treinando no Ginásio Montezuma. Miguel chega a se destacar como Black Gusmán, mas um acidente inesperado acontece e Jesus, o Pantera Negra, falece devido aos golpes recebidos num combate contra um lutador chamado El Gato. 

El Murciélago Velázquez e Black Shadow, os primeiros rivais de El Santo
Rodolfo não se amedronta e parte também para os treinamentos contrariando sua mãe. Inicialmente adota os nomes de guerra Rudy Guzmán, El Hombre Rojo e Murciélago II (em homenagem a Murciélago Velázquez), até definir sua escolha para El Santo, passando então a usar uma máscara branca de couro tratado cujas costuras internas machucavam bastante o seu rosto. 
O primeiro visual de Santo

Sua estréia nos ringues foi em 26 de julho de 1942 na Arena do México num combate com vários adversários uns contra os outros. Nessa ocasião o vencedor da batalha foi Ciclón Veloz, pois Santo teria sido desclassificado excesso de agressividade e por usar golpes baixos.
Em 1943, aos 26 anos, ganharia o título de campeão nacional dos pesos médios derrotando até então dono do título, Jesus Murciélago Velázquez, que o impediu de usar o codinome “Murciélago II”. Ainda nessa ano, no mês de julho, Santo perde o título para Roberto (Bobby) Bonales.
No ano seguinte depois de sair ileso de um acidente automobilístico, Santo derrota Jack O’Brien e recupera em seguida seu título de campeão nacional vencendo o próprio Bobby Bonales.
No ano de 1944 Santo formaria uma dupla invencível com Gori Guerrero (para alguns a melhor de todas da Lucha Libre Mexicana), conhecida como “La Pareja Atomica” (A Parelha Atômica) graças ao recente advento da bomba atômica. Ainda na década de 1940, além do título de Campeão Nacional dos Médios, Santo conquistaria o primeiro campeonato Mundial Welter da NWA, ao derrotar Pete Pancoff.
A partir daí Santo só acumulou fama e vitórias derrotando adversários duríssimos em confrontos sangrentos que valiam a máscara, algumas das vítimas foram Black Shadow; Lobo Negro; Espanto I; Halcon Negro; Golden Terror; e El Gladiador & Bobby Lee. E da mesma forma, só que valendo os cabelos, podemos citar Jack O’Brien; Chico Casasola; Bobby Lee; Enriques Llanes; el Cavernario Galindo, Murciélago Velázquez & El Perro Aguayo. 

El Santo e Blue Demon, amigos e rivais
Blue Demon um rival à altura, derrotou Santo por duas vezes seguidas, nos anos 1952 e 1953, não se sabe de outras derrotas de Santo após essas contra o Demônio Azul. Blue Demon teria vingado a seu compadre Black Shadow, humilhado na ocasião pela retirada da máscara no confronto contra Santo em 17 de novembro de 1952. Chegou-se a especular um confronto valendo máscaras entre Santo e Blue Demon, mas não houve acordo entre as partes. 
El Santo (jovem e em forma) vs. Carvernario Galindo, numa luta feroz e real valendo a máscara
Para se ter uma idéia do mistério da verdadeira identidade de Santo, ele só viria revelar seu rosto em público 42 anos depois de sua estréia como o Mascarado de Prata e por vontade própria.
No Início dos anos de 1950 a popularidade de Santo cada vez maior graças às revistas de fotonovelas produzidas por José G. Cruz  nas quais o personagem principal era Santo, el Enmascarado de Plata. A parceria com José Cruz terminaria pouco depois por questões contratuais e seria lançado um personagem semelhante. Os produtores de filmes viram na marca “Santo” um produto de consumo promissor e assim El Santo passa a ser também uma estrela de cinema, representando a si mesmo na condição de quase um super-herói mexicano que luta contra o mal representado por marcianos, vampiros, lobisomens, múmias, gangsters, etc. Inevitavelmente sua fama transcende as fronteiras do México. Seus ex-adversários e rivais, como Black Shadow, Blue Demon e Mil Máscaras, agora parceiros, participam também das películas de ação. 

El Santo vs. El Espanto, nada de teatro, mas sangue e suor
Os seus filmes mais cultuados são: Santo contra os Zumbis (1961); Santo Contra As Mulheres Vampiro (1962); Santo - O Barão Brákola (1965); Santo contra  a Invasão dos Marcianos (1966); Santo e Blue Demon contra Drácula e o Homem Lobo (1972); Santo e Blue Demon contra o Dr. Frankestein (1973).
Em 1980, Santo começa a preparar seu filho caçula, Jorge, para sucedê-lo. No ano seguinte, acontece outra grande perda para o Mascarado de Prata. Sua esposa Maria de los Angeles Rodriguez Montaño, companheira de 40 anos, falece. Rodolfo Guzmán fica extremamente abatido mas continua a cumprir sua agenda de compromissos, embora sem a mesma alegria.
Ainda em 1981, numa luta de exibição junto a Huracán Ramirez e Rayo de Jalisco Sr., encararam o trio Los Misioneros de La Muerte (integrado por El Texano, El Signo e El Negro Navarro). Durante o confronto Santo recebe um chute no peito que lhe causa desmaio e um ataque cardíaco quase fatal. Graças à ação rápida de Hurácan Ramirez que o carregou para fora do ringue massageando o peito de El Santo contra seu ombro, o veterano Mascarado de Prata sobreviveu. O acidente não foi suficiente para que Rodolfo Guzmán Huerta deixasse de atuar como El Santo, aos 63 anos. Los Misioneros de la Muerte ficaram famosos por quase acabarem com a vida do lendário Mascarado de Prata.

Homenagens para a última luta em 1982
Em 12 de setembro de 1982, seguindo orientações médicas, encerra sua carreira de lutador numa última apresentação festiva e emocionante, atraíndo milhares de fãs para El Toreio de Cuatro Caminos (Praça de Touros) onde recebeu várias homenagens na presença presença de velhos amigos e rivais, além de seu filho Jorge, conhecido como El Hijo de El Santo. Na ocasião, junto a Gori  Guerrero, Hurácan Ramirez e El Solitário, enfrentou os implacáveis Perro Aguayo e novamente Los Misioneros de la Muerte. El Santo notadamente já não tinha o mesmo vigor e sua saúde declinava, era de se esperar que seu desempenho, como de alguns de seus companheiros, não fosse dos melhores tornando sua despedida ainda mais melancólica.

Tirando a máscara prateada na TV em 1984 pouco antes de falecer
Passando então a atuar somente em shows de escapismo e até em touradas, surpreendeu a todos no famoso programa de entrevistas chamado Contrapunto da TV mexicana, em 26 de janeiro de 1984, quando retirou quase que inteiramente sua máscara prateada revelando sua face sexagenária. Ele mesmo acreditava que se um dia seu rosto fosse revelado publicamente, seria o sinal de que sua morte se aproximava.

Nasce a lenda da luta livre
Então, pouco mais de uma semana depois, em 05 de fevereiro de 1984, sua morte é anunciada. El Santo foi vítima de um ataque cardíaco aos 66 anos logo depois de apresentar um ato de escapismo no teatro Blanquita na cidade do México. Durante o cortejo do Mascarado de Prata milhares de pessoas saíram às ruas para prestar uma última homenagem ao ídolo, bradando: “Santo, Santo, Santo, Santo!”. Ele foi sepultado com sua famosa máscara de prata, conforme seu desejo.
A seguir,  muitos tentaram tomar o trono de El Santo.  Jorge Guzmán, El Hijo de Santo, não foi brilhante como o pai, mas também não decepcionou; como também o lutador Axel,  conhecido como El Nieto de Santo, impedido judicialmente por Jorge Guzmán de usar a marca “Santo”, apesar do público em geral o aceitar também como um herdeiro natural do lutador lendário. Nem mesmo Blue Demon (que morreria em 2000) conseguiu preencher o vazio deixado pelo Enmascarado de Plata no coração do povo mexicano.
Um documentário sobre El Enmascarado de Plata foi produzido pelo programa de TV mexicana “La História detrás del Mito” (disponível no youtube) resumindo a trajetória do lutador e a intimidade familiar de Rodolfo Guzmán Huerta, el Santo, incluindo muitos testemunhos de parentes, amigos e lutadores do passado e do presente.

Estátua em Tulancingo, o Filho de Santo estava presente
As celebrações continuam e El Santo sempre será lembrado pelo povo mexicano. Dentre as homenagens que se destacam temos uma estátua de Santo próxima ao museu de Ferrocarril em Tulancingo, no estado de Hidalgo, terra natal do lutador lendário.

Estátua na cidade do México
Outra estátua foi erguida numa praça na entrada do bairro Tepito, na cidade do México.

El Hijo del Santo e imagem em tamanho natural de seu pai no museu de cêra na cidade do México
Ainda na cidade do México, há uma figura de cêra em tamanho natural e com surpreedente realismo do Mascarado de Prata.

Sêlos comemorativos em homenagem a el Santo
Sêlos comemorativos já foram impressos com a figura de El Santo. 

Missa para o Lutador Mascarado
Missas católicas em sua memória são comuns na cidade do México.

O Santo-móvel em exposição
Exposições com fotos, suas máscaras prateadas, capas e parafenálias que usava nos filmes são frequentes em eventos culturais, como a exibição do “santomobile”, o carro usado em muitos de seus filmes.

Jack Black, como um luchador enmascarado de lucha libre

Jack Black protagonizou o filme “Nacho Libre” em 2006, que apesar de satírico, não deixou de ser uma clara homenagem aos lendários lutadores mascarados mexicanos, mas sobretudo ao maior deles, el Santo.
Exposição de fotografias de Lourdes Grobet sobre Santo
Por tudo isso posso dizer que El Santo nunca será esquecido pelos seus milhares de fãs em todo o mundo. Antes de ser um herói popular, Rodolfo Guzmán Huerta era um homem mortal, com defeitos e virtudes, um pecador como todos nós, mas que certamente temia a Deus, amava sua família, respeitava seus adversários e tinha um nobre caráter.
Viva El Enmascarado de Plata, que Deus tenha misericórdia de sua alma.

Por Eumário J. Teixeira

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