7 de jul de 2013

JIM KELLY, O FAIXA PRETA JONES, MORREU!

 

Jim Kelly foi  um legítimo representante do movimento da “força negra” ou "poder negro" nos anos de 1970, pelo menos em termos de visual. Com sua vasta cabeleira afro-black power, suas costeletas “a la Elvis Presley” e seu caminhar gingado, Jim Kelly fez escola para os jovens negros nos Estados Unidos que curtiram os personagens vividos por ele nos filmes de artes marciais. Aliás, Jim Kelly, tinha consciência de que ele foi um primeiros atores negros a protagonizarem filmes de ação para o público negro carente de heróis e que os representassem nas telonas. Ele reunia todas as condições para ser bem aceito como um novo astro negro do cinema como Sidney Poitier, Jim Brown, Fred Williamson e Calvin Lockhart. Era um ator razoável direcionado para os filmes de ação do gênero conhecido como “Blaxploitation” (filmes de ação independentes dirigidos às comunidades de periferia com muita música soul e atores negros), pois tinha um carisma natural, um físico de atleta e era realmente um estiloso praticante faixa-prêta de karatê japonês. Assim, faço aqui uma pequena homenagem ao “Black Samurai” Jim Kelly, que junto a Bruce Lee, tanto me inspirou para curtir e praticar artes marciais.


Jim Kelly como o presunçoso karateca Williams
JIM KELLY James Milton Kelly, nasceu em 05 de maio de 1946 em Paris, no interior do Kentucky, nos Estados Unidos. Muitos achavam que ele teria nascido num bairro violento como o Bronx de New York, como os ínumeros personagens que representou em seus filmes. Ainda criança se mudou para San Diego, na Califórnia. Quando rapaz, ganhou uma bolsa de estudos da Universidade de Louisville, se valendo do seu porte atlético e 1,88 m para se ingressar no time de futebol americano. Mas logo se retirou do grupo em protesto contra o tratamento racista e discriminatório aos jogadores negros. Provavelmente se sentindo cada vez mais ameaçado pela onda de racismo que se propagava pelo país em meados dos anos de 1960, Jim Kelly resolveu aprender karatê e se formou faixa preta em poucos anos de treinamento. Inicialmente ele começou a praticar o estilo Shorin-Ryu de karatê, passando a praticar também outros estilos primitivos de karatê de Okinawa sob o comando dos mestres Parker Shelton e Gordon Doversola.
Em  1971 chegou a vencer o Quarto Campeonato Internacional de Karatê de Long Beach, California, na categoria peso médio. Na época, Jim Kelly já ensinava em seu próprio dojô ou academia no distrito de Crenshaw de Los Angeles.
Jim Kelly começou a flertar com o cinema quando passou a ministrar aulas particulares de karatê para o ator negro Calvin Lockhart que precisava estar em forma para atuar no filme  de supense policial “Melinda” em 1972. Ao aparecer nos estúdios de gravação para checar a performance de seu aluno, Jim Kelly foi notado pelo diretor negro Hugh A. Robertson. Assim Jim Kelly acabou por fazer uma “ponta” no filme Melinda.

Bruce Lee coreografando Jim Kelly em Operação Dragão
No início de 1973, enquanto selecionavam o elenco para o clássico maior das artes marciais no cinema Operação Dragão (Enter The Dragon), que consagrou Bruce Lee, os produtores procuravam um ator negro que tivesse habilidade em artes marciais para compor um trio multi-racial de heróis no filme, a saber, um chinês (Bruce Lee), um branco norte-americano (John Saxon) e um negro ou afro-americano. Após a desistência do ator Rockne Tarkington, Jim Kelly foi imediatamente recomendado e convocado pelo produtor Fred Weintraub para assumir o papel do personagem Williams, um karateca de “estilo nada ortodoxo”, carismático, sensual, cool, presunçoso e cheio de frases de efeito. Quem não se lembra da famosa exclamação de Williams - “Bullshit, Mr. Han!” - quando é confrontado pelo vilão de Operação Dragão? O personagem de Jim Kelly morre prematuramente pelas mãos do vilão no filme, mas sua performance, principalmente nas cenas de luta dirigidas por Bruce Lee, lhe deram certo destaque. Cada um do trio de heróis que embarcou para o sinistro torneio na ilha do vilão Han tinha seu motivo oculto para estar lá. Lee (Bruce Lee) era por vingança, já que Han era um monge shaolin renegado e corrupto traficante de ópio, que trouxe a desgraça para a sua ordem e que tinha como seu fiel guarda-costas, O’Hara (Bob Wall), o culpado direto pela morte da irmã de Lee; Roper (John Saxon) fugia da máfia pois devia muito dinheiro perdido em jogatinas; Williams (Jim Kelly) estava ali pelo simples prazer de competir e para provar a si mesmo o quanto era bom. 

Jim Kelly detonando em Operação Dragão
No roteiro o personagem de Williams morreria num confronto precoce com Han, o que foi decepcionante para o público em geral, eu mesmo me lembro que fiquei muito decepcionado, preferia que se fosse para morrer um coadjuvante de Lee, seria melhor que fosse Roper, apesar da sua simpatia. Pois evidentemente Williams (ou Jim Kelly) tinha um estilo mais atraente de luta que lembrava Muhammad Ali. Quem sabe não rolou um pouco de discriminação aí? Certamente já era um absurdo para a época, um norte-americano de origem chinesa como Briuce Lee ser convidado para ser o “mocinho” do filme, e independentemente de qualquer situação, Jim Kelly tinha deixado seu recado com muito competência e carisma. 

O Faixa Prêta Jones, o melhor de Jim Kelly
Após a morte inesperada de Bruce Lee em julho de 1973, um buraco enorme foi aberto no hall das estrelas dos “filmes de Kung Fu”. Dai surgiu uma oportunidade para Jim Kelly em 1974, ainda pegando carona na ótima repercussão de Operação Dragão e  na morte de seu principal astro. Robert Clouse, o mesmo produtor de Operação Dragão, o convida para estrelar seu próprio filme que se chamaria Jones, o Faixa Preta (Black Belt Jones). A história do filme gira em torno da máfia que queria comprar as propriedades da região de um gueto negro a preços irrisórios para um golpe de especulação imobiliária. Só que Pop Byrd, um velho instrutor de karatê dono de um prédio no qual morava e ministrava suas aulas, não se dobrou à pressão dos bandidos e acaba assassinado por isso. Adivinhe quem era o melhor amigo de Pop Byrd? Black Belt Jones, é claro! Para o azar dos mafiosos; e ainda por cima, a filha de Byrd, Sidney (Gloria Hendry), surge na trama sedenta de vingança.  Foi o melhor filme feito por Jim Kelly, sem dúvidas.
Em seguida vieram Three the Hard Way (1974); Golden Needles (1974); Take a Hard Ride (1975), um faroeste com o trio parada dura, Jim Brown, Fred Williamson e Jim Kelly (que representa um guerreiro negro criado por índios); Hot Potato (1976) com o personagem “Jones” de volta; Black Samurai (1977);  The Tattoo Connection (1978), ou Black Belt Jones 2, uma paródia do primeiro filme filmada em Hong Kong; Death Dimension (1978); The Amazing Mr. No Legs (1981); e One Down, Two To Go (1982).  

Os três filmes do 'trio parada dura': Jim Kelly, Jim Brown e Fred Williamson
Em Three the Hard Way (“Implacáveis até o Inferno”, no Brasil) de 1974,  Jim Kelly se junta novamente aos astros negros do gênero blaxploitation, Jim Brown e Fred Williamson; um trio bem sucedido que tornaria a se reencontrar em One Down, Two To Go (“Revanche de Sangue”, no Brasil) de 1982.  Em Black Samurai (“O Dragão Negro”, no Brasil) de 1977, Jim Kelly começa uma série de paródias de si mesmo, um filme de baixo orçamento e ruim, que apesar de tudo contra se tornou “cult” entre os fãs mais devotos.  
Williamson, Kelly e Brown, astros do gênero blaxploitation para o público negro
Jim Kelly acabou se cansando de tudo isso, abandonou os filmes de artes marciais e passou a se dedicar ao circuito senior de Tênis da USTA, esporte que ele curtia e praticava além do karatê desde meados dos anos de 1970, em Plummer Park, em West Hollywood, Los Angeles.

Jim Kelly vs. Muhammad Ali. Quem ganharia o confronto?
Nos anos de 1990, Jim Kelly reapareceu como coadjuvante em muitos filmes B. Sua última aparição nas telas foi numa pequena figuração em “Black Ninja”, uma comédia de ação blaxploitation de 2007. Em 2009, Jim Kelly apareceu numa convenção de quadrinhos, na Comic-Con de San Diego, na Califórnia, atraindo muitos fãs.

 A outra paixão de Jim Kelly era o tênis
Ainda em 2009, foi lançado o filme (misto de comédia e ação) “Black Dynamite” estrelado por Michael Jai White (que protagonizou Spawn)  numa clara referência e homenagem aos personagens vividos por Jim Kelly nas telonas. Black Dynamite vive nos anos de 1970, é  um veterano da Guerra do Vietnã e agente da CIA que parte para combater o crime nos guetos negros após o assassinato de seu irmão. Michael Jai White confessou que fez questão de copiar todos os trejeitos de Jim Kelly. O filme ainda rendeu uma série animada em 2011.
Jim Kelly faleceu no dia 29 de junho de 2013, aos 67 anos, em decorrência de um câncer, segundo informações de sua ex-esposa Marilyn Dishman. Jim deixou também uma filha, Sabrena Kelly-Lewis.
Saudades do Black Belt Jones, Oss!

Jim Kelly curtindo o boneco de Williams
Por Eumário J. Teixeira.

5 comentários:

  1. Eumário dou-lhe os parabéns. A mais completa biografia que já li do Jim. Até este momento eu ainda não sabia que ele tinha morrido de câncer. Obrigado pelas informações.

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    1. Muito obrigado Marco. Pois é, quando fiquei sabendo da morte de Jim Kelly procurei informações sobre ele e só achei dados fragmentados. Assim reuni o máximo de informações possíveis e decidi fazer uma pequena homenagem ao Faixa Preta Jones ou carateca black power, Williams, de Operação Dragão.

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  2. muito boa essa biografia de jim kelly ele é um astro assim como bruce lee.

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  3. excelente reportagem da biografia desse grande ator o qual sou fã e tb do bruce lee

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  4. Obrigado Manuel. Jim Kelly era estiloso e carismático, lembrava um pouco a Muhammad Ali, mas não era tão falastrão. Era um Karateka respeitado.

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