16 de dez de 2012

Desenhos na parede - Homenagem ao saudoso João Bosco

 
Há mais ou menos uns 30 anos atrás, por volta de 1982, eu já subia regularmente o famoso “morro do bispo” próximo ao centro de Teófilo Otoni para cortejar uma jovem de olhos verdes, que por acaso era minha colega de ginásio e, hoje, minha esposa. Naquela época eu tinha 20 anos de idade, mas não me lembro se foi ela ou sua irmã sabendo que eu gostava de filmes, desenhos e revista em quadrinhos, tinha me falado sobre o excêntrico vizinho da casa ao lado, que era um desenhista fora de série, intelectual e um autodidata com conhecimentos básicos de marcenaria, alvenaria e eletricidade. Seu nome era João Bosco, um jovem mestre e artista de múltiplas habilidades e, sobretudo, um crítico sarcástico com um senso de humor peculiar, impaciente com a mediocridade e geralmente não compreendido. Ele era, digamos, do tipo “reservado”, mas poderia conversar normalmente com você e tirar “onda da sua cara” sem o menor constrangimento, ainda mais se você não compartilhasse com sua visão do mundo. Finalmente, e totalmente curioso sobre os desenhos do misterioso vizinho, tomei a coragem de bater em sua porta e assim foi. Ele me recebeu muito bem, mas fiquei medindo as palavras para não dar um “fora” ou causar uma má impressão. Então ele me levou a sua “oficina”, onde permanecia alguma parte do seu tempo lendo livros sobre filosofia e outros assuntos do seu interesse ou desenhando. E lá estavam aquelas figuras incríveis retratadas apenas com lápis e propositalmente inacabadas, mas aos meus olhos, perfeitas! Fiquei boquiaberto, não só pelo excelência de sua técnica, mas também pelos temas que ele tinha retratado na parede de seu quarto! Era habitual pregar posters ou quadros nas paredes dos quartos, mas desenhar..., aquilo me pareceu genial. Os desenhos tinham traços tão precisos que pareciam uma reprodução fotográfica em grande escala de alguma revista. Minha surpresa foi ainda maior ao reconhecer os temas retratados. Para começar, Bruce Lee, na época meu ídolo incontestável; a seguir a figura de Lampião, o rei do cangaço, um personagem quase surreal que sempre me fascinou; a próxima imagem que identifiquei foi a do ator Steve McQueen, que me marcou por alguns filmes, como Pappilon e Tom Horn. Os outros dois desenhos eram do caboclo com um cachimbo na boca e de um sujeito para mim desconhecido com pinta de galã, que na verdade se tratava do escritor e filósofo francês, Albert Camus. Depois de uma boa prosa, saí de lá animado a continuar com os meus desenhos. O tempo passou e me casei com minha colega de sala; e poucos anos antes do seu falecimento, João Bosco me deu a honra de sua visita quando o encontrei casualmente no centro de Teófilo Otoni, pois ele já residia algum tempo em Belo Horizonte. Conversamos sobre tudo um pouco, música, desenhos, política, família, ele me falou dos seus projetos futuros, estava com interesse de praticar boxe, e talvez alpinismo; comentou sobre sua aversão de se transformar num sujeito caseiro e  acomodado que se contentava com o churrasco nos fins de semana e que alimentava com orgulho a famosa “barriguinha de cerveja” e outras amenidades. Foi a última fez que conversamos, foi por volta de 1999 ou 2000. Sua visita me fez relembrar aqueles desenhos na parede e já que meus dois filhos já tinham também a inclinação para a arte, resolvi em certo instante, desenhar na parede do quarto deles inspirado nos desenhos de João Bosco. È claro que fiz o melhor que podia, mas não havia como comparar. Entretanto, de alguma forma, serviu de inspiração aos meninos, hoje já rapazes. Se me recordo, eu tinha desenhado na época, um rosto de Elvis Presley, Sansão derrubando as colunas do templo de Baal, Batman saltando, uma cabeça de um E. T. (tipo grey), um astronauta das missões Apolo e um OVNI; noutro quarto fiz um enorme homem-Aranha, um Homem de Ferro e outras figuras; até que ficou legal. Mas veio uma reforma e pintura da casa e tudo foi apagado, ou coberto. Arrependi de não ter tirado umas fotos para registro.  O que não aconteceu com os desenhos de João Bosco, pois quando sua família decidiu por vender a casa, mesmo com o novo dono prometendo preservar os desenhos na parede, sua irmã teria tirado algumas fotos para recordação. São estas que postei numa sincera homenagem ao João Bosco, morto de forma tão inesperada num acidente de moto em 2009. Sua irmã havia me enviado postais com os desenhos da parede como lembrança conforme me havia prometido, e então tive a idéia de procurar na internet as figuras ou fotos originais que João Bosco tinha reproduzido com tamanha competência e fui de certa forma feliz. As fotos originais de Bruce Lee (em Operação Dragão), Lampião, Touro Sentado (líder Sioux que eliminou Custer e a 7ª Cavalaria), Albert Camus e uma do ator Steve Mcqueen (filme Tom Horn) estão aí para serem comparadas com os desenhos da parede. Duas de Steve Mcqueen são quase as mesmas que João reproduziu, pelo menos são do mesmo filme (Os Implacáveis); a do caboclo com o cachimbo não achei o desenho ou foto original, poderia ser sua própria criação; da mesma forma a figura com a dupla espacial agachada e atirando com supostas armas laser, não consegui identificá-las. 

 Veja os desenhos e as fotos originais para uma comparação:
 
Albert Camus – Escritor, romancista, dramaturgo e filósofo francês. Abordava em suas obras temas referentes ao amor, ética, justiça, humanidade e política. Nasceu na Argélia em 1913 e faleceu na França em 1960, num acidente automobilístico aos 46 anos.

Steve McQueen (Terence Steve McQueen) – Ator norte-americano de filmes de ação, também conhecido por sua paixão por carros de competição e motocicletas. Seus principais filmes foram, Fugindo do Inferno (1963), Nevada Smith (1965), Bullit (1968), Os Implacáveis (1972), Papillon (1973), Inferno na Torre (1974) e Tom Horn (1980). Steve McQueen faleceu vítima de um mesotelioma, câncer na membrana que envolve os pulmões, também conhecido como “a doença do amianto”, aos cinqüenta anos de idade em 07 de novembro de 1980.

Bruce Lee – Ator norte-americano de origem chinesa, conhecido mundialmente pelos filmes de Kung Fu. Era formado em filosofia e desenvolveu um sistema de defesa pessoal (Jeet Kune Do) livre das tradições rígidas das escolas orientais, dando ao praticante a liberdade para criar e se adaptar conforme as circunstâncias. Faleceu aos 32 anos em 1973, devido a um edema cerebral no auge da fama e pouco antes do lançamento do seu maior sucesso, o filme Operação Dragão. 

Touro Sentado – Líder indígena da tribo Sioux, responsável pelo cerco à Sétima Cavalaria  comandada pelo General George A. Custer em 25 de junho de 1876. Guerreiro sábio e estrategista, Touro Sentado liderou mais de 3.500 índios sioux e cheyennes contra a tropa de Custer de pouco mais de uma centena de homens, no massacre de Little Big Horn. Touro Sentado e filho foram assinados pela polícia numa circunstância obscura em 1890, pouco depois de terem deixado o elenco do famoso circo de Buffalo Bill.

Lampião – Conhecido também como o “rei do cangaço” e considerado o “Robin Hood do sertão”, Vigulino Ferreira da Silva entrou para o cangaço depois que o pai foi assassinado pelos volantes (polícia) a mando de coronéis que queriam tomar posse de suas terras. Tornou-se um líder cangaceiro cruel e vingativo contra as volantes dos macacos e coronéis que não o apoiavam, reinando por quase 20 anos nas caatingas do nordeste brasileiro. Foi morto junto com a maioria de seu bando por uma tropa de volantes numa emboscada na Gruta de Angicos, no Sergipe, traído supostamente por um coronel que habitualmente lhe dava cobertura, em 28 de julho de 1938. 

Hoje em dia, desenhar na parede é novidade, é moda, é "cool", mas não seria para João Bosco, que Deus o tenha e que ele esteja em paz.

Por Eumário J. Teixeira

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